sábado, 25 de janeiro de 2020

Resenha da HQ: "Dreadstar - A Odisseia da Metamorfose", por Ademir Pascale

Lançada pela Devir no Brasil, a saga cósmica que deu origem a Dreadstar, um dos mais cultuados e importantes heróis da ficção científica nos quadrinhos. "Dreadstar - A Odisseia da Metamorfose", é um álbum de luxo de 128 páginas, uma verdadeira obra-prima dos anos 80. O autor James P. Starlin, contou com grandes mestres em sua carreira, tendo trabalhado para Steve Ditko, Jack Kirby, Roy Thomas e John Romita (Marvel Comics). Starlin serviu na Marinha americana de 1968 a 1971 como fotógrafo, o que deixou marcas profundas em seu trabalho. E com apenas 46 dólares no bolso, foi para Nova York e, felizmente, acabou sendo contratado para trabalhar com john Romita, para auxiliar na revista do Homem-Aranha, além dos layouts das capas.
O trabalho de Starlin é maduro, nítido de um artista experiente e decidido, chegando a ser tão bom quanto Alan Moore ou até mesmo os seus antigos mestres. Com certeza, uma HQ que já está ocupando um lugar de destaque em minha estante :)

Sobre a história: durante milênios, os Orsirosianos foram a raça mais avançada da Via Láctea, além de terem sido os ancestrais de toda a vida humanoide da galáxia. Sua supremacia, entretanto, chegou ao fim com o surgimento dos Zygoteanos, uma raça impiedosa que deseja conquistar e destruir todo o Universo…

Aknaton, um místico imortal Orsirosiano, deve colocar em prática um plano devastador que dará fim à ameaça desses invasores e trará consequências cataclísmicas! No entanto, para que esse estratagema se concretize, ele deverá reunir um grupo de pessoas especiais. Entre elas está Vanth Dreadstar, um guerreiro implacável e astuto de enorme poder.

Mas somente Aknaton sabe o que os aguarda…

Título: Dreadstar: a Odisseia da Metamorfose
História & Arte: Jim Starling
Editora: Devir
128 páginas coloridas em papel couchê 115 g/m²
Formato: 21,0 cm × 27,5 cm
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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Silêncios prescritos: estudo de romances de autoras negras brasileiras


"Silêncios prescritos: estudo de romances de autoras negras brasileiras (1859-2006) fala de memórias, resistências, existências recriadas. É um trabalho a ser lido a partir de várias perspectivas, por exemplo: a perspectiva da insurgência das escritoras; a agência das pessoas negras nos mais adversos contextos; modos como mulheres negras interpretam e interpretaram histórias do país; a insistência da sociedade brasileira em manter as bases escravagistas e racistas de violência e crueldade em que tem sido gestada...

Assim, o livro fornece uma contribuição significativa e muito oportuna para os estudos da literatura brasileira, em particular da literatura afro-brasileira, devido ao fato de trazer precursoras na escrita do romance de autoria de mulheres negras, em um momento como esse, século XXI, que apresenta, ainda que de modo restrito, um crescimento no número de romances de autoria negra feminina." - Florentina da Silva Souza. Doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Título: Silêncios prescritos: estudo de romances de autoras negras brasileiras (1859-2006)
Autora: Fernanda R. Miranda
Assunto: Ensaios brasileiros; Literatura brasileira; Romances brasileiros; Escritoras negras brasileiras; Autoria negra brasileira
Editora: Malê
ISBN: 978-85-92736-55-2
Páginas: 364
Site: https://www.editoramale.com
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Conto: "Amor Vampiro", por Roberto Schima



*Por Roberto Schima

    Chovera muito nos últimos dias.
    E as noites, tempestuosas, só traziam maus presságios.
    Vênus surgiu no céu e, breve, foi seguido por uma e outra estrela.
    Enfim, as nuvens de mau agouro e os relâmpagos aterradores foram embora.
    O Sol, na direção oposta, ainda era visível rente a linha do horizonte e seu dourado mesclava-se ao rubro como se uma mortalha de sangue separasse o que era divino dos pecados mundanos.
    Mas o crepúsculo não tardaria a findar e, na noite sem luar, tudo aquilo que fosse comparsa das trevas, estenderia suas asas sobre a terra.
    As luzes dos lampiões não seriam páreo para o que estaria por vir.
    O sacerdote, aflito, bem o sabia.
    - O tempo urge, José! - gritou ao jovem. - Oh, que agonia!
    Ao lado do esquife, José sequer virou seu rosto para o religioso. Sentia-se hipnotizado, pasmo, lívido, o retrato de um vazio que somente a mais profunda tristeza poderia pintar. Suas mãos tremiam. Seus ouvidos ainda sentiam ecoar o vozerio do ancião. A memória daqueles momentos permanecia nítida: os flertes, o nervosismo, a aceitação, os encontros, o calor em seus braços, as promessas e o compartilhar de respirações.
    - Depressa! - bradou o religioso. - Por Nosso Senhor!
    José deu mais um passo e, assim, pôde vê-la melhor. O tremor apoderou-se de seu corpo.
    - Ma-Ma-Maria... - balbuciou.
    O mausoléu pareceu ecoar sua voz mais nitidamente do que o clamor do sacerdote.
    Ou seria efeito da tortura que, então, flagelava o infeliz rapaz?
    José precisava agir rapidamente. Ele bem o sabia. Vários outros no vilarejo haviam passado por isso. A "cura" era muito bem conhecida. Sim, seu cérebro tinha uma consciência fria e cristalina do fato, e do que deveria fazer, não obstante, dentro de seu peito, uma ínfima chama arder, queimar sua alma como se ela fosse um papel de arroz. E ele, desgraçadamente, sentia o fogo a consumi-lo.
    - Maria!
    A estaca, agora, mirava para o centro do busto da vampira.
    Ela havia sido bela.
    Ela era bela!
    Apesar de sua palidez extrema, do vermelho obsceno em sua boca e do par de caninos cujas extremidades projetavam-se sobre o carnudo lábio inferior, o encanto daquele corpo não fora de todo maculado.
    - Rápido! - insistiu o velho sacerdote.
    Muito magro, a custo mantinha-se em pé. Somente a força ferrenha de quem combatera o Mal durante toda a sua existência fazia-o conservar um sopro de vida. Essa seria a sua derradeira missão, o seu último combate. Lastimava por ver-se obrigado a utilizar as forças de outro para tal. Lastimava por ter sido José, o infeliz escolhido; e, Maria, a vítima da vil criatura que ainda perambulava nas redondezas.
    O jovem reposicionou a estaca.
    A ponta aguçada tocou o seio esquerdo.
    O martelo foi erguido mais alto do que o necessário.
    - Eu estou vivo. Você pertence ao umbral, Maria. Porém, ao afundar em seu peito esta estaca, a vida será igualmente extraída de mim. Apagar-se-á a luz assim como o ocaso lá fora. Maria!
    As paredes espessas tornaram-se mais opressoras.
    As chamas dos lampiões tremeluziram.
    A atmosfera ficou mais gélida.
    - Vamos! - incitou o ancião, tossindo.
    Mas José, no instante derradeiro, hesitou. Petrificado, ele percebera.
    Os olhos de Maria... Eles se abriram!
    E, em sua mente, José escutou:
    "Ah, meu querido, apesar de morta... eu existo!"
    - Não! - gemeu o rapaz.
    O coração ficou descompassado. O sangue palpitou na estrada jugular.
    Ele fitava os olhos frios daquela coisa que, um dia, fora a sua amada Maria.
    Coisa...
    "É ela", corrigiu a pequena chama em seu peito.
    Coisa...
    "Não é ela!", gritou-lhe o cérebro em protesto.
    Coisa...
    O sacerdote, embora fraco e doente, decidiu avançar e tomar do martelo e da estaca, cumprindo ele próprio o amargo fardo. O exalar de sua respiração condensava-se diante dos olhos.
    Todavia, tarde demais se tornara.
    Martelo e estaca caíram pesadamente ao chão.
    O religioso emitiu um longo gemido, a dor de mil punhais.
    José, no fundo de seu ser, desejou lamentar, entretanto, não o conseguiu.
    Braços finos e brancos, dedos pálidos de unhas salientes detiveram sua razão no ar.
    E ele chorou.
    "Oh, meu amor, minha tortura, amor vampiro, por que teve de partir?"
    "Ah, meu doce José, nenhum destino assinado a sangue irá nos separar. Eu ainda sou. Eu existo."
    E repetiu na mente dele a voz na sepultura:
    "Eu existo!"
    Imediatamente, uma força não natural fez o sacerdote desabar sobre o piso de mármore, prostrado, desacordado, engolido por uma camada de névoa.
    A derradeira missão fracassara.
    A criatura ergueu seu torso com a mesma leveza do nevoeiro.
    A boca fria e carnuda entreabriu-se, os seios empinaram-se, braços de gelo envolveram o apaixonado José. E, então, os caninos.
    "Ah, Maria, sua boca em meu pescoço, seus caninos rompendo-me a carne evocam a doçura. Sim, doçura! Além da dor, além do medo, além da sanidade, além de meu amor pelo Senhor, todas as barreiras que a desgraça nos fez separar. Sim, agora, volto a mirá-la ternamente."
    O líquido precioso trafegou veloz pela estrada jugular.
    O esgar no rosto de José tanto poderia ser de dor, quanto de prazer.
    "Venha para mim, José. Venha! Juntos, seremos parte dessa noite e muitas outras que virão."
    "Oh, amada, pelo destino de mim separada. Criança da noite, embora levada. Ao seu lado renascerei tão certo quanto a vida que de mim se esvai. E, mais uma vez, juntos enfim, pelo séculos e séculos do porvir, seremos um, sempre um, como um eclipse que o dia trai e a noite atrai. O ontem, o amanhã, e, pela eternidade... o infinito Agora."
    E, assim, José morreu para a vida a fim de viver para a morte.
    Aquilo que se chamara Maria aguardou paciente ao lado dos dois homens.
    Quando a coisa que se chamara José despertasse, ambos teriam o primeiro aperitivo a repartir. Diziam que o vinho melhorava conforme o tempo, contudo, aquela encarquilhada garrafa de carne a seus pés teria tão pouco a oferecer...
    Ah, seria uma linda noite estrelada, afinal de contas!
    Muitas outras presas esperavam por eles, sob as cobertas do medo.
    E, na noite sem luar sobre o vilarejo, os comparsas das trevas estenderiam suas asas sobre a terra.


SOBRE O AUTOR:
Quando garoto, eu colecionava gibis de terror. Ganhei "Frankenstein", de Mary Shelley, aos treze anos. Assistia aos filmes da Hammer. E lia pelos cantos as histórias de R. F. Lucchetti. Desenhei diversos monstros também. Ah, sim, fui um garoto que amava os monstros. Apavoravam-me, mas eram meus amigos. Informações: Google, Clube de Autores, Amazon, Wattpad. Contato: rschima@bol.com.br.
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Poema: "A Tua Mais Completa Tradução", por Anderson Borges Costa


*Por Anderson Borges Costa

To live like viver
To sleep like morrer
To love like brigar
To see like não ver
To stay like partir
To share like pra ti
To be like não ser
To say like saber
To hear like aqui
To read like não ter
To shout like ranger
To rage like pra amar
To work like ganhar
To rent like pra ter
To buy like pra pôr
To break like propor
To sell like repor
To save like rancor
To touch like isopor
To run like vagar
To go like voltar
To end like pra sempre
To fly like no mar
To dive like no ar
To look like sem cor
To paint like a dor
To write like pra ler
Translate like mais tarde
Trans like formar
Tocar like you are.


SOBRE O AUTOR:
Anderson Borges Costa é autor dos romances “Rua Direita” (Chiado, 2013), “Avenida Paulista”, 22 (Giostri, 2019) e do livro de contos “O Livro que não Escrevi” (Giostri, 2016), além das peças teatrais "Quarto Feito de Cinzas", “Elevador para o Paraíso” e “Três por Quarto”. Foi traduzido para o inglês no Canadá. Finalista do Prêmio Guarulhos de Literatura (categorias Livro do Ano e Escritor do Ano). É coordenador e professor de Português na escola internacional Saint Nicholas. É professor de Inglês no curso Cel Lep. Formado e pós-graduado pela USP em Letras, é resenhista de livros para a revista “Germina”. Participou do último filme da diretora Anna Muylaert, “Mãe só há uma”, fazendo uma ponta como o professor de literatura do protagonista. Seu site oficial é andersonborgescosta.com.br
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quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

No dia do aniversário da cidade de S. Paulo, visita conecta locais icônicos do centro com a poesia de Mário de Andrade


A São Paulo de Mário de Andrade
 
O centro de São Paulo está recheado de poesia. Sobretudo nos versos de Mário de Andrade autor de livros como Paulicéia Desvairada e Lira Paulistana com poemas que se referem a locais, ruas, rios e ao espírito da cidade nas primeiras décadas do século passado. O poeta documentou a intensa urbanização e transformação da cidade com seus bondes, altos edifícios, seus tipos e a pressa característica de seus moradores.

Na semana do aniversário da cidade, a Editora Bandeirola, que lançou o Livro EU e MÁRIO DE ANDRADE,  organizou uma visita guiada com um roteiro que liga prédios famosos com momentos da vida do escritor paulistano.

“Além de ter nascido, vivido grande parte de sua vida e morrido em São Paulo, Mário  marcou a vida da metrópole não apenas com seus livros, mas também como agitador cultural e homem público”, afirma Fernando Neves, editor da Bandeirola e idealizador do projeto.
“Ele foi  um dos pilares da Semana de Arte Moderna, em 1922, e montou o Departamento de Cultura da cidade, o que seria hoje a Secretaria da Cultura, sendo o seu primeiro diretor, implementando diversos projetos culturais e sociais inovadores para a época”, acrescenta Fernando, lembrando que 2020 marca também os 75 anos da morte do poeta.

A escritora e historiadora Elisabete Baptista guiará as visitas contando fatos sobre os edifícios e sobre a vida de Mário de Andrade, acompanhada pela atriz Letícia Chiochetta que fará intervenções com a  leitura de poemas de Mário de Andrade.

O passeio acontecerá no dia 25 de janeiro, sábado, às 10 e às 14h. O roteiro terá início em frente à Biblioteca Mário de Andrade e seguirá por edifícios e  locais icônicos do centro de São Paulo, como Theatro Municipal, Praça Ramos de Azevedo e  Praça das Artes, entre outros, que de algum modo tenham sua história ligada ao poeta. Informações e inscrições pelo email saopaulo@bandeirola.com.br.

Serviço:
Visita Guiada: A São Paulo de Mário de Andrade
Dia 25 de janeiro com saídas às 10h e às 14h.
Valor: R$ 50,00
Vendas: Clique aqui.
Informações: saopaulo@bandeirola.com.br
www.bandeirola.com.br
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O dia em que poetas viraram roqueiros no Gradim, por Renato Cardoso


*Por Renato Cardoso

O Gradim tem suas peculiaridades e desafios, ah, e como tem! Chegando já na praça onde se encontra aquele churrasquinho esperto até a entrada da BR, por onde as pessoas fogem do trânsito cansativo que se tem entre SG e Niterói.
Mas a história que será contada não é a do bairro (isso deixamos para o escritor Erick Bernardes, um dos personagens desta história), e sim de um “som” que aconteceu no bairro em questão. Registrarei aqui o dia em que poetas viraram roqueiros.
Tudo aconteceu em maio, quando o cantor Augusto Cesar convidou o grupo Diário da Poesia para se apresentar no intervalo do show de rock da banda dele. Isso mesmo, show de rock. Logo pensei no desafio que seria se apresentar num show de rock (nunca fizemos isso), mas, como admiro o trabalho do Augusto, topei.
Os meses foram passando, eu sempre pensava em como seria, porém, estava certo de que não iria sozinho (claro!). Faltava escolher aqueles que iriam para o novo desafio. Poetas em um show de rock. Coisa que só o Gradim poderia nos proporcionar.
O primeiro a ser convidado foi Walter, ou Waltinho, que topou de cara (como todo bom jovem de 18 anos). E o segundo? Afinal iríamos em trio. Foi a vez de falar com Erick, que topou e levou sua “Cambada”.
E, o grande dia chegou! Finalmente nos encontramos no Partage e fomos. No Uber, a caminho do local, já bateu aquele medo, a mão suou e o pensamento de como iríamos no encaixar em um show de rock veio. Entre risadas e conversas, chegamos à conclusão que seria o que Deus quisesse.
Passamos pelo Paraíso, em frente à FFP, lembramos os eventos do Bar da Frente para ver se alguma ideia pintava. Nada, nadinha. Impossível não pensar na FFP, espaço sempre lembrado pelas ideias nos movem, além de ser uma baita faculdade, junto ao seu tão famoso Bar da Frente.
Viramos à esquerda, passamos pelo Colégio Paraíso, Praça do Gradim e, minutos depois, o prometido Novo Milênio, o espaço do show.
Ao dobramos a esquina, já deu para escutar o DJ… e fomos recebidos generosamente pelo o anfitrião da festa, o cantor e músico Augusto Cesar. Erick e Walter se olharam, nós entramos, e foi quando percebemos mais uma peculiaridade que só o Gradim nós proporcionaria: a plateia era de pessoas comuns, gente simples, assim como nós. Senhoras, senhores, jovens e crianças, todos faziam parte do evento da Banda Atitude Certa.
Na recepção, colocaram em nós uma pulseira do evento. Falamos um pouco sobre o Mengão. Sentamos e, entre refrigerantes, risadas e escolhas do íamos declamar, a banda do Augusto começou a tocar. Sabíamos que quatorze músicas nós separavam do grande momento.
Enquanto ouvíamos Renato Russo, Hebert Vianna, Dinho Ouro Preto, líamos Cazuza, Raul Seixas, Humberto Gessinger. Na 10ª música bateu aquela vontade de desistir (Walter sugeriu até uma dor de barriga). Erick era o melhor preparado, pois vinha com sua “Cambada” e suas diversas histórias.
E logo chegou a tão temida 14ª música. Capital Inicial era a nossa deixa. Terminando, Augusto nos anunciou e chegamos ao microfone. E que fazíamos ali? Afinal, as pessoas vieram para ouvir rock. Mas o rock é poesia, então nos acalmamos e fomos.
Falamos por 15 minutos, o suficiente para entrar para a memória do projeto. Walter foi de Raul, Erick de Paralamas, eu de Cazuza. Entre aplausos e poesias, a “Cambada” foi apresentada. Chegamos ao 15º minuto, Walter encerrou a fala. Saímos do palco, e Erick foi abordado por um senhorzinho interessado em suas histórias. E o show? Foi ótimo! Som perfeito da galera do “Atitude Certa”.
Já era tarde da noite, tivemos que ir. O Gradim nos proporcionou algo de magistral, peculiaridades do bairro. E, por fim, agradecemos à confiança do Augusto, entramos no Uber e fomos embora, curtindo os 15 minutos onde poetas viraram roqueiros no Gradim.


SOBRE O AUTOR:
Graduado em Letras pela UERJ FFP. Pós-Graduado em Educação à Distância – Uninter. Atua como professor desde 2006 na rede privada. Leciona Língua Inglesa e Literatura em diversas escolas particulares e em diversos segmentos no município de São Gonçalo. Coordenou, de 2009 a 2019, o projeto cultural Diário da Poesia, no qual também foi idealizador. Editorou o Jornal Diário da Poesia de 2015 a 2019 e o Portal Diário da Poesia em 2019. É autor e editor de diversos livros de poesias e crônicas, tendo participado de diversas antologias. Apresenta saraus itinerantes em escolas das redes pública e privada, assim como em universidades e centros culturais. Produz e apresenta o programa “Arte, Cultura & Outras Coisas” na Rádio Aliança 98,7FM. Hoje editora a Revista Entre Poetas & Poesias. Contato: professorrenatocardoso@gmail.com.
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Amanda Piazza e o livro Além das cores, por Cida Simka e Sérgio Simka

Fale-nos sobre você.

Meu nome é Amanda Piazza, tenho 18 anos e sou de Florianópolis, Santa Catarina. Os livros sempre estiveram presentes na minha vida, e desde muito pequena sempre gostei de criar histórias.
Aos quatorze anos fiquei em segundo lugar na categoria regional do prêmio de redação Operação Cisne Branco, realizado pela Marinha do Brasil. Aos dezesseis fui a vencedora do concurso de contos infantojuvenil da Feira de Literatura e Artes Literárias (FLAL) 2017 com o conto Anjo de Guerra.
Aos dezessete publiquei meu primeiro livro, Cartas para Purpurina, pela Drago Editorial. Além disso, tenho um miniconto publicado na revista lusófona LiteraLivre; contos publicados nas antologias Palavreiras e Sinfonia de Letras (editoras Autografia e Andross, respectivamente); e um microconto publicado no site minicontos.com.br.
Agora, meu trabalho mais recente é o livro Além das Cores, o qual estou publicando por meio do Selo Talentos da Editora Selo Jovem.

ENTREVISTA:

Fale-nos sobre seu livro Além das core
s.

Erick Carter é um garoto de dezessete anos que cresceu brincando em cemitérios e vendo seus pais lerem o obituário como outros pais liam os classificados. Ele vive na mansão Carter, e divide seu teto com os cadáveres da funerária Carter, empresa familiar com uma tradição de mais de duzentos anos. Ele costumava ser cauteloso e tímido, e vivia debaixo da asa dos pais superprotetores, até receber uma visita inesperada de Marina Hils, uma garota com quem estuda desde o quinto ano. Ela pede a ele um favor especial. Um favor que vai contra tudo o que ele acredita.

Madeleine Marchetti perdeu os pais aos seis anos, e cresceu sob os cuidados do irmão mais velho, Noah. Ele sempre foi responsável e nunca deixou que nada faltasse a ela, mas agora que Madeleine tem 16 anos, Noah parece ficar mais imaturo a cada dia, como se estivesse recuperando o tempo da adolescência perdida. O que Noah não sabe é que Madeleine guarda um segredo desde os cinco anos de idade: ela consegue ver pessoas de cor Cinza. Ela não sabe exatamente de onde vêm essas pessoas, mas cresceu brincando com elas e as escondendo de todo mundo, inclusive de seus melhores amigos, Anna, Victor e Laura.

As vidas de Erick e Madeleine se cruzam quando Marina Hils morre, e Erick acidentalmente descobre as pessoas Cinza. Eles descobrem então que tais pessoas vêm de um outro mundo, chamado Schadie - um lugar monocromático, onde moram os Influentes; pessoas responsáveis pela intuição humana. A morte de Marina Hils desencadeia uma série de acontecimentos que mostram o caos que os humanos estão prestes a enfrentar: a intuição humana está se voltando contra os próprios humanos, causando muitas mortes. O objetivo? Acabar com a raça humana, num projeto denominado A Causa. Agora, Erick, Madeleine, Anna, Laura, Victor e os gêmeos Influentes Georgie e Frusylia precisam descobrir como as mortes estão ocorrendo, e terão que correr contra o tempo, antes que eles próprios sejam engolidos pela Causa.

O que a motivou a escrevê-lo?

Não sei bem ao certo o que me levou a trazer Além das Cores ao mundo, mas
algumas perguntas existenciais sempre passaram pela minha cabeça, e de certa forma colocá-las no livro e dar voz aos questionamentos através das personagens foi uma forma que eu encontrei de trazer as respostas não só para a história, mas para mim mesma.
Sempre achei interessante entender a mente humana e compreender o que leva certas pessoas a tomarem determinadas atitudes, por isso quis criar um mundo que ameaçasse os humanos sem embates físicos, porém com embates mentais. Se a intuição é algo que costuma ajudar os seres humanos, o que aconteceria caso nossas próprias mentes começassem a se voltar contra nós mesmos? – essa foi a pergunta que me guiou para construir essa história.
A ideia então foi trazer à tona essas questões importantes de uma forma mais leve e descontraída, associando a jornada para salvar o mundo com problemas e acontecimentos de uma vida cotidiana de qualquer adolescente nessa faixa etária.

O que tem lido atualmente?

Minhas últimas leituras foram: “Eu e esse meu coração”, de C.C Hunter e a trilogia “Os artifícios das Trevas”, de Cassandra Clare.

Qual a dica que pode fornecer a um escritor principiante?

A primeira dica é: escrever, escrever, escrever, escrever de novo... Quantas vezes você julgar necessário. Se você releu um parágrafo e algo te incomoda, escreva de novo. Escreva até ficar satisfeito.
Acredito que a dica mais importante é saber que os “nãos” existem, e não é por isso que sua história não é boa ou você não tem talento. Os nãos existem para que possamos valorizar os “sins”.
Além disso, não existe idade para escrever. Não se considere novo demais ou velho demais para isso; se tem algo dentro do seu coração que você deseja colocar para fora, faça isso! E treine muito.

Quais os seus próximos projetos?

Estou escrevendo meu terceiro livro e já tenho planos para outras duas histórias, mas ainda estou amadurecendo a ideia antes de colocar no papel.

CIDA SIMKA
É licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Autora, dentre outros, dos livros O enigma da velha casa (Editora Uirapuru, 2016), Prática de escrita: atividades para pensar e escrever (Wak Editora, 2019) e O enigma da biblioteca (Editora Verlidelas, 2020). Organizadora dos livros: Uma noite no castelo (Editora Selo Jovem, 2019), Contos para um mundo melhor (Editora Xeque-Matte, 2019), Aquela casa (Editora Verlidelas, 2020) e Um fantasma ronda o campus (Editora Verlidelas, 2020). Integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC e colunista da Revista Conexão Literatura.

SÉRGIO SIMKA
É professor universitário desde 1999. Autor de mais de seis dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a série Mistério, publicada pela Editora Uirapuru. Membro do Conselho Editorial da Editora Pumpkin, integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC e colunista da Revista Conexão Literatura.
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Resenha: "O Zen de Steve Jobs" - Por Ademir Pascale


Por Ademir Pascale

Leitura concluída da graphic novel "O Zen de Steve Jobs", com roteiro de Caleb Melby, um dos colaboradores da Forbes, com arte e design da Jess3, uma agência criativa de renome mundial especializada em visualização de dados, já tendo trabalhado para clientes de renome, como Google, NASA, MTV etc. Particularmente eu conhecia pouco sobre a vida pessoal de Steve Jobs, conhecendo em partes a sua carreira pelas notícias veiculadas na mídia, além do longa-metragem "Piratas da Informática", que conta o início da sua carreira e do seu concorrente Bill Gates. Em "O Zen de Steve Jobs", conheci apenas a trajetória do Steve com o monge budista Kobun Chino Otogawa, nomeado posteriormente como guru espiritual da Next. 
Pessoas importantes ligadas ao Steve, como a esposa dele, foram descartadas, mas propositalmente, como o próprio autor relata numa pequena entrevista nos extras. O intuito era contar as duas histórias interligadas, de Steve e Kobun, deixando de lado outras pessoas que tirariam o foco da história. Gostei, achei diferente e também bacana as informações extras, como uma conversa com o autor, biografia do mestre Kobun, estudos de capa - algo que eu adoro ver -, e alguns pequenos comentários de pessoas ligadas ao Steve, como Bill Gates, Steve Case, Patton Oswalt, Katie Couric etc.

A caprichada edição ficou por conta da editora Devir. Recomendo :)
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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Com vocês: Gian Danton! | Praticamente Entrevista

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‘Poemas Presos’ liberta dúvidas em preto e branco

Após ficar conhecido no Instagram, poeta Rafael Cavalcanti lança primeiro livro e desponta como nova voz da literatura brasileira contemporânea

A subjetividade do primeiro livro do poeta paulistano Rafael Cavalcanti faz com que o leitor embarque em um rio de sensações.
“Poemas Presos” (Editora WI) é quase inteiramente escrito em folhas pretas e conta com uma tipografia que remete às antigas máquinas de escrever. Uma viagem entre o passado, o presente e o futuro que dura cinco capítulos e fala sobre solidão, amor, perda, esperança, culpa, silêncio.
As dúvidas estão por toda parte e servem de transição para fins e recomeços.
“Não quero definir o que é o barco, não quero definir o que é o rio. Eu quero que tudo esteja sujeito a diferentes interpretações e que os personagens possam ser qualquer coisa”, diz Rafael Cavalcanti. “É por isso que o leitor escreve o livro junto comigo”.
Escrito durante 11 meses, “Poemas Presos” tem influência do concretismo de Haroldo de Campos e de Augusto de Campos, além da poesia curta de Paulo Leminski, todos considerados referência pelo autor. Além disso, o tom humano e existencial que marca a obra também traz influência de “A Terceira Margem do Rio”, conto clássico de Guimarães Rosa.
“Poemas Presos é um livro mais de dúvidas do que de certezas. Acho que todos os meus livros serão assim. Se em algum momento eu não seguir esse caminho, talvez não esteja fazendo aquilo que entenda de verdade”, afirma Rafael Cavalcanti.
Atualmente, o escritor trabalha na produção de seu segundo livro, “Espelho d´Água”. Além deste, ele planeja lançar outros três, formando assim uma obra de cinco livros, todos relacionados ao universo poético de “Poemas Presos”.  


Sobre Rafael Cavalcanti
Rafael Cavalcanti, de 32 anos, é poeta, escritor e diretor de arte.
Natural de São Paulo, gosta de literatura, MPB e cachaça, além do São Paulo Futebol Clube.
Seus primeiros textos foram publicados no Instagram e logo fizeram bastante sucesso. O perfil @derafaelcavalcanti hoje conta com 14,5 mil seguidores.
Seu primeiro livro, “Poemas Presos”, foi lançado em junho de 2019, em um evento com mais de duzentas pessoas. Independente na distribuição, já foi vendido para mais de mil leitores.
Pouco após o lançamento de “Poemas Presos”, Rafael Cavalcanti participou da 8ª edição da Fliaraxá (Festival Literário de Araxá) onde debateu o tema “Poesia Hoje: Até Onde Vai o Poema” com outros escritores.
Em setembro, o autor esteve presente na Bienal do Rio de Janeiro para sessão de autógrafos.
Já no mês de outubro, Rafael participou do primeiro Festival Mário de Andrade em São Paulo (também chamado de Virada do Livro), além da Feira do Livro de Rio do Sul, em Santa Catarina, e de uma turnê poética pelo Nordeste ao lado dos amigos poetas Zack Magiezi, Wally Wilde e Marcio Lugó.
O poeta paulistano teve oportunidade de apresentar “Poemas Presos” para alguns dos escritores que mais admira, como Marcelino Freire, Luis Ruffato e José Eduardo Agualusa, com quem conversou sobre a obra.

Sobre Poemas Presos
Poemas Presos
1ª edição (2019)
Autor: Rafael Cavalcanti
Editora: WI
Páginas: 150
Disponível para compra: Amazon
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O melhor conto: "Bliss", da escritora neozelandesa Katherine Mansfield - Por Ademir Pascale

Katherine Mansfield - Foto divulgação
Por Ademir Pascale

O conto "Bliss" da escritora neozelandesa Katherine Mansfield (1888-1923), com certeza foi o que mais li repetidas vezes. Embora a escritora tenha falecido no ano de 1923, ele continua atemporal e impregnado de sentimentos. É estranho, porque o texto é super simples e sem acontecimentos sobrenaturais. É simplesmente o cotidiano de uma pessoa, mas um cotidiano tão bem descrito, que fica marcado e tornou-se o meu conto preferido, o nº 1. Eveline, do escritor James Joyce, considero um dos melhores, além de alguns contos de Edgar Allan Poe. Mas "Bliss", de Katherine Mansfield, é o melhor.
Não existe uma tradução certa para a palavra "Bliss", mas acredito que seja uma variante da palavra "Happiness", ou seja, simplesmente "Felicidade".
Nesta minha carreira como escritor, aprendi muito com esse conto. Aprendi que basta sermos nós mesmos. Aprendi que pode existir emoção entre as coisas mais simples nas quais fazemos.

Leia com atenção e se deixe levar pelos sentimentos da protagonista Bertha Young. É simplesmente incrível.


Felicidade (Bliss)
Por Katherine Mansfield


Embora Bertha Young já tivesse trinta anos, ainda havia momentos como aquele em que ela queria correr, ao invés de caminhar, executar passos de dança subindo e descendo da calçada, rolar um aro, atirar alguma coisa para cima e apanhá-la novamente, ou ficar quieta e rir de nada: rir, simplesmente.

O que pode alguém fazer quando tem trinta anos e, virando a esquina de repente, é tomado por um sentimento de absoluta felicidade — felicidade absoluta! — como se tivesse engolido um brilhante pedaço daquele sol da tardinha e ele estivesse queimando o peito, irradiando um pequeno chuveiro de chispas para dentro de cada partícula do corpo, para cada ponta de dedo?

Não há meio de expressar isso sem parecer "bêbado e desvairado?" Ah! como a civilização é idiota! Para que termos um corpo, se somos obrigados a mantê-lo encerrado em uma caixa, como se fosse um violino raro, muito raro?

"Não, isso de violino não é exatamente o que eu quero dizer" — ela pensou, correndo escadas acima e apalpando a bolsa, em busca da chave — que ela esquecera, como sempre — e sacudindo a caixa do correio. "Não é o que eu quero dizer, pois — "obrigada, Mary" — ela entrou no vestíbulo. "A babá voltou?"

"Sim, senhora".

"E as frutas?"

"Sim, senhora. Veio tudo".

"Traga as frutas para a sala de jantar. Vou dar um arranjo nelas antes de subir".

Estava escuro e muito frio na sala de jantar. Mesmo assim, Bertha tirou o casaco; não podia tolerar por mais tempo o aperto da roupa, e o ar frio penetrou em seus braços.

Dentro do peito, no entanto; havia ainda aquele ponto brilhante, incandescente, de onde saía uma chuva de pequenas fagulhas. Era quase insuportável. Ela mal tinha coragem de respirar, por medo de atiçar aquele fogo ainda mais; contudo, respirava fundo... fundo. Quase não tinha coragem de olhar-se no espelho frio; mas olhou, e ele mostrou-lhe uma mulher radiante, com lábios trêmulos, sorridentes, grandes olhos escuros e um ar de quem está à espera de que alguma coisa... divina aconteça. Ela sabia que iria acontecer infalivelmente.

Mary trouxe as frutas em uma bandeja, e também uma tigela de louça e uma travessa azul, muito linda, com um brilho estranho, como se estivesse mergulhada em leite.

"Quer que eu acenda a luz, senhora?"

"Não, obrigada. Ainda posso ver bastante bem".

Havia tangerinas, laranjas e maçãs, misturadas com o vermelho dos morangos. Algumas pêras amarelas, lisas como seda, uvas brancas, cobertas por uma florescência prateada, e um grande cacho de uvas roxas. Estas últimas, ela havia comprado para combinar com o tapete novo da sala de jantar. Sim, aquilo parecia bastante afetado e absurdo, mas era realmente a razão pela qual ela as tinha comprado. Na loja, havia pensado: "Preciso de algumas frutas cor de púrpura para aproximar o tapete da mesa." E na ocasião isto pareceu fazer muito sentido.

Terminado o arranjo, duas pirâmides de forma arredondada, ela se colocou a certa distância, para ver o efeito — e estava realmente muito curioso, pois a mesa escura parecia dissolver-se na luz fosca e tanto a tigela de louça como a travessa azul pareciam flutuar no ar. Isso, é claro, naquele estado de espírito que ela se encontrava, era tão incrivelmente belo... Ela começou a rir.

"Não, não. Estou ficando histérica". Pegou sua bolsa e seu casaco e subiu correndo para o quarto da filha.

A babá estava sentada ao lado de uma mesa baixa dando o jantar da pequena B., depois do banho. A criança vestia uma camisola de flanela branca e um casaquinho azul, de lã. Os cabelos finos e escuros estavam escovados formando um topetinho engraçado. Ela olhou para cima e começou a pular quando viu a mãe.

"Agora, meu benzinho, coma direito, como uma boa menina", disse a babá, torcendo a boca num jeito bem conhecido dela, como a dizer que ela havia chegado em hora inoportuna, mais uma vez.

"Ela tem estado bem, Nanny?"

"Ela se comportou muito bem durante toda a tarde" murmurou Nanny. "Fomos ao parque; eu me sentei em uma cadeira e tirei-a do carrinho. Um cachorro enorme veio até nós, e pôs a cabeça sobre meus joelhos. Ela agarrou a orelha dele, e puxou. Ah! a senhora devia ter visto."

Bertha teve vontade de perguntar se não seria perigoso deixar que a criança puxasse a orelha de um cão desconhecido, mas não se atreveu. Permaneceu observando-as, os braços largados ao longo do corpo, qual uma menina pobre frente à menina rica com sua boneca.

O bebê olhou para ela outra vez; fixou os olhos nela, sorriu com tanto encanto, que ela não se conteve.

"Ah! Nanny, deixe que eu termine de dar o jantar dela, enquanto você arruma o banheiro".

"Bem, madame. Ela não devia mudar de mãos enquanto come" — disse Nanny, ainda murmurando. "Isso a perturba e muito. É muito provável que ela vá ficar agitada".

Que absurdo! Para que ter uma criança, se ela deve ser guardada — não em uma caixa, como um violino raro, mas nos braços de uma outra mulher?

"Não, é assim que eu quero!"

Muito ofendida, Nanny entregou a criança.

"Bem, não a excite depois da comida. A senhora sabe que a excita, madame. E depois ela me dá um trabalho!".

Graças a Deus! Nanny saiu do quarto, levando as toalhas de banho.

"Agora eu a peguei para mim, minha coisinha preciosa" — disse Bertha, enquanto o bebê se inclinava para ela.

A criança comeu fazendo festa, abrindo a boca para receber a colher e depois agitando as mãos. Às vezes prendia a colher na boca e outras, logo que Bertha enchia a colher, lançava a comida aos quatro ventos.

Terminada a refeição, Bertha virou-se para a lareira.

"Você é linda, muito linda!" disse, beijando seu bebê. "Sou louca por você".

E, realmente, ela a amava tanto! — Seu pescoço, quando ela o inclinava para a frente, os artelhos delicados, quase transparentes à luz do fogo... Todo aquele sentimento de felicidade voltou e, ainda uma vez, Bertha não sabia como expressar essa sensação, nem o que fazer com ela.

"Telefone para a senhora" — disse Nanny, voltando em triunfo e pegando a sua criança.

Bertha desceu correndo. Era Harry.

"Ah, é você, Ber? Olhe, vou chegar tarde. Tomarei um táxi e irei tão depressa quanto puder; mas sirva o jantar dez minutos mais tarde, sim? Tudo bem?"

"Sim, perfeitamente. Ah, Harry!"

"Sim?"

O que tinha ela para dizer? Nada. Queria apenas prolongar aquele contato. Não podia só gritar absurdamente: "O dia hoje foi tão maravilhoso!"

"O que é?" — tornou a voz de longe.

"Nada. Entende?" — disse Bertha, colocando o fone no lugar e pensando o quanto a civilização é idiota. Eles tinham convidados para o jantar: os Norman Knights, um casal muito distinto — ele estava abrindo um teatro e ela tinha muito entusiasmo por decoração de interiores; um jovem, Eddie Warren, que acabava de publicar um pequeno livro de poemas é a quem todo mundo vinha convidando para jantar, e um "achado" de Bertha, uma moça chamada Pearl Fulton. O que ela fazia, Bertha ignorava. Haviam-se encontrado no clube e Bertha se apaixonara por ela; isso sempre acontecia quando ela encontrava mulheres bonitas que revelassem algo incomum em sua personalidade.

O que a intrigava era que, embora tivessem estado juntas frequentemente e conversado muito, Bertha não podia ainda ter um conceito formado sobre Pearl Fulton. Até certo ponto, ela era de uma franqueza rara e maravilhosa, mas além desse ponto ela não passava.

E haveria alguma coisa além disso? Harry dizia que não. Julgava-a um tanto maçante e "fria como todas as louras, com um toque, talvez, de anemia cerebral". Mas Bertha não concordava com isso; pelo menos, ainda não.

"Não, sua maneira de sentar-se, com a cabeça levemente inclinada para o lado, sorridente, esconde alguma coisa, Harry, e eu hei de descobrir que coisa é essa".

"O mais provável é que seja estômago pesado", disse Harry.

Ele se empenhava em pegar Bertha pelo pé com respostas daquele teor... "fígado gelado, minha querida", ou "pura flatulência", ou "doença dos rins"... e assim por diante. Por alguma estranha razão, Bertha gostava disso e quase o admirava por falar desse modo.

Ela entrou na sala de estar e acendeu a lareira; depois pegou as almofadas que Mary havia arrumado com todo cuidado e atirou-as de volta aos sofás e cadeiras. Foi o bastante para dar vida à sala. No momento de atirar a última almofada, ela se surpreendeu apertando-a contra si apaixonadamente. Mas isso não apagou o fogo em seu peito. Ah, pelo contrário!

As janelas da sala abriam-se para um balcão, e davam para um jardim. No fundo, perto do muro, havia uma esguia pereira, toda florida, esplêndida, que permanecia imóvel contra o céu verde-jade. Bertha não podia deixar de sentir, mesmo a essa distância, que não havia um só botão por abrir, nem uma pétala murcha. Embaixo, nos canteiros do jardim, as tulipas vermelhas e amarelas, carregadas de flores, pareciam inclinar-se na penumbra: Um gato cinzento, arrastando-se de barriga, esgueirava-se através do gramado, e um gato preto, como se fora sua sombra, ia logo atrás. Ela tremeu, curiosamente, ao vê-los tão atentos e rápidos.

"Gato é um bicho horrível!" — ela pensou, e, saindo da janela, começou a andar de um lado para outro. Como era forte o perfume dos junquilhos dentro da sala quente! Forte demais? Não, não demais. E então, como que vencida, ela atirou-se sobre um sofá e cobriu os olhos com as mãos.

"Estou muito feliz, muito feliz" — murmurou.

E parecia-lhe ver por entre as pálpebras a linda pereira, com aquela abundância de flores, como símbolo de sua própria vida.

Realmente — realmente — ela tinha tudo. Era jovem, Harry e ela se amavam como nunca, davam-se muito bem e eram realmente bons companheiros. Ela tinha um adorável bebê. Não precisavam se preocupar com dinheiro. Tinham esta casa e este jardim, que eram absolutamente satisfatórios. E amigos modernos, interessantes; amigos escritores, pintores e poetas ou pessoas voltadas para as questões sociais, justo a espécie de amigos que eles queriam. Além disso, havia os livros, havia a música, e ela encontrara aquela costureirinha maravilhosa, sua cozinheira nova fazia omeletes deliciosos, e eles iam fazer uma viagem ao exterior, no verão.

"Estou ficando maluca! Maluca!" Ela sentou-se, mas sentiu-se inteiramente atordoada, inteiramente bêbada. Devia ser a primavera.

Sim, era a primavera. Agora, ela sentia-se tão cansada que mal poderia subir a escada, para vestir-se. Um vestido branco, um fio de contas de jade, sapatos verdes e meias. Era coincidência. Ela havia decidido esse arranjo horas antes de ter estado à janela da sala.

As dobras de sua saia produziram um suave farfalhar ao deslizar rente ao chão, quando ela foi à porta de entrada e beijou a senhora Norman Knight, que estava tirando o mais estranho casaco cor de laranja, com uma fileira de macacos pretos em volta da barra, subindo na parte da frente.

"Por quê? Por quê?! Por que a classe média é tão tola, tão completamente desprovida de senso de humor?! É por pura sorte que estou aqui, minha querida, e Norman é meu anjo protetor. Meus queridos macacos chocaram tanto as pessoas do trem que elas simplesmente se puseram a me devorar com os olhos. Não riram, não estavam achando graça, o que eu teria gostado. Apenas olharam-me fixamente e me fuzilaram com os olhos."

"Mas o melhor de tudo" — disse Norman, apertando contra o olho o monóculo de aro de tartaruga — "você não se importa que eu conte, Face, se importa?" (Na intimidade eles se chamavam Face e Mug.) "O melhor de tudo foi quando ela, furiosa, virou-se para a mulher que estava ao seu lado e disse: "A senhora nunca viu um macaco antes?"

"Ah, sim" — a senhora Norman Knight juntou—se aos que riam. "Não foi mesmo genial?"

E, mais engraçado ainda era que agora, sem o agasalho, ela parecia um macaco muito inteligente, cujo vestido de seda amarela fora feito com cascas de bananas. E os brincos de âmbar pareciam duas nozes bamboleantes.

"It is a sad, sad fall!"² — disse Mug, parando em frente ao carrinho do bebê. "When the perambulator comes into the hall" — e ele deixou de lado o resto da citação.

A campainha tocou. Era o esbelto e pálido Eddie Warren, em estado de completa desgraça, como sempre.

"É esta casa mesmo, não é?" — perguntou ele.

"Bem, acho que sim. Pelo menos assim o espero" — disse Bertha, com animação.

"Acabo de ter uma experiência muito desagradável com um motorista de táxi. Ele era terrivelmente sinistro. Não pude conseguir que ele parasse. Quanto mais eu lhe chamava a atenção e lhe pedia que parasse, mais depressa ele ia. E à luz do luar aquela figura bizarra, com a cabeça achatada, debruçando-se sobre o minúsculo volante..."

Ele estremeceu, tirando um imenso cachecol de seda branca. Bertha notou que ele usava meias também brancas, muito vistosas.

"Mas, que coisa horrível!" disse ela em voz muito alta.

"Sim, foi mesmo" — disse Eddie, seguindo-a até a sala de estar. — "Eu me vi decolando para a eternidade num táxi alado".

Ele conhecia os Norman Knight. Na verdade ia escrever uma peça para Norman Knight, quando o esquema do teatro começasse a funcionar.

"Bem, Warren, como está a peça?" — perguntou Norman Knight, deixando cair o monóculo e dando, assim, oportunidade ao olho de vir à tona, antes de ser ocultado outra vez.

A Sra. Knight interveio: "Mas que meias lindas, Sr. Warren!"

"Que bom que a senhora tenha gostado delas", disse ele, olhando para os pés. "Parece que elas ficaram muito mais brancas desde que a lua apareceu". Virou para Bertha o rosto magro e triste. "Há uma lua, a senhora sabe?".

Ela teve vontade de gritar: "É claro que sei! Muitas vezes, frequentemente!".

Ele era, na verdade, uma pessoa muito atraente. Mas atraentes eram também Face, agachada em frente ao fogo, no seu vestido de cascas de bananas, e Mug, fumando um cigarro e dizendo, enquanto batia as cinzas: "Por que o noivo está demorando tanto?".

"Ei-lo que chega!"

A porta da frente abriu e fechou com estrondo. Harry gritou: "Alô, pessoal. Volto em cinco minutos!" Subiu correndo a escada. Bertha não pôde deixar de sorrir; ela sabia como ele gostava de agir sempre sob alta pressão. Afinal, que importância teriam cinco minutos a mais? Mas ele sustentava para si mesmo que cinco minutos tinham, sim, muita importância. E fazia questão, depois, de chegar e ficar na sala numa postura serena, tranqüila.

Harry tinha um tal gosto pela vida... Ah, como ela apreciava isso nele! E sua paixão pela luta, por encontrar em cada coisa que se lhe opunha um outro teste para seu poder e sua coragem, também isso ela compreendia. Mesmo quando, vez por outra, ele pudesse parecer talvez um tanto ridículo, aos olhos dos que não o conheciam bem... Pois às vezes ele se atirava em batalhas que não existiam... Ela conversava e ria, realmente esquecida, até a chegada dele à sala (tal como ela imaginara), de que Pearl Fulton não viera ainda.

"Será que a Pearl esqueceu?"

"Espero que sim", disse Harry. "Ela tem telefone?" "Está chegando um táxi". E Bertha sorriu, com aquele divertido ar de posse que sempre assumia quando suas descobertas femininas eram novas e misteriosas. "Ela vive em táxis".

"Assim vai engordar" — disse Harry com frieza, tocando a campainha para que o jantar fosse servido. "Um perigo assustador para mulheres louras".

"Harry, não diga isso" — advertiu Bertha, rindo.

Veio outro breve momento, enquanto esperavam rindo e conversando, só um pouquinho à vontade demais, um pouquinho descontraídos demais. Aí chegou Pearl Fulton, toda prateada, com uma tira de prata prendendo seus cabelos loiros, sorrindo, com a cabeça pendendo um pouco para o lado.

"Estou atrasada?"

"Não, absolutamente" — disse Bertha, pegando-a pelo braço. "Venha comigo". E entraram na sala de jantar.

O que havia naquele braço frio, que podia avivar — começar a atiçar — atiçar — o fogo da felicidade com o qual Bertha não sabia o que fazer?

Pearl Fulton não olhava para ela; quase nunca olhava as pessoas diretamente. Suas pálpebras pesadas estavam sempre semicerradas, e em seus lábios um estranho sorriso ia e vinha, como se ela, em vez de ver, preferisse ouvir. Mas Bertha soube, de repente, como se o mais longo, o mais íntimo olhar tivesse sido trocado entre elas, como se tivessem dito uma à outra "Você também?", que Pearl, ao mexer a bela sopa vermelha em seu prato cinza, sentia exatamente o que ela estava sentindo.

E os outros? Face e Mug, Eddie e Harry, suas colheres subindo e descendo, tocando os lábios com os guardanapos, fazendo bolotas com miolo de pão, brincando com garfos e copos, conversavam.

"Eu a encontrei no show do Alpha — uma figurinha muito esquisita. Ela havia não apenas cortado rente os cabelos, mas também parecia ter tirado um bom pedaço dos braços e das pernas, do pescoço e do pobre narizinho também".

"Ela não é muito liée a Michael Ost?"

"O homem que escreveu Love in False Teeth?³"

"Ele quer escrever uma peça para mim. Um ato. Um homem. Ele decide suicidar-se; discute todas as razões pró e contra. E exatamente quando chega a uma conclusão sobre o que fazer... cai o pano. Uma idéia nada má".

"Como ele vai chamá-la? Dor de estômago?"

"Acho que encontrei a mesma idéia numa revistinha francesa inteiramente desconhecida na Inglaterra".

Não, eles não compartilhavam. Mas eram queridos — queridos — e ela gostava muito de tê-los ali, em sua mesa, oferecendo-lhes comida e vinho deliciosos. Na verdade, ela desejava dizer-lhes o quanto eles eram encantadores e que grupo decorativo formavam; como eles pareciam avivar uns aos outros e como eles lhe faziam lembrar uma peça de Tchekov!

Harry estava gostando do jantar. Era próprio dele — bem, não sua natureza, exatamente, e não, certamente, uma pose — bem, um pouco de cada coisa — falar sobre comida e alardear sua paixão "impudica por carne branca de lagosta e o verde dos sorvetes de pistache, verdes e frios como pálpebras de bailarinas egípcias".

Quando ele levantou os olhos para ela e disse: "Bertha, este soufflé está maravilhoso!", ela quase poderia ter chorado, com prazer infantil.

Ah! O que fazia com que ela se sentisse tão terna com todo mundo, hoje? Tudo era bom, tudo estava certo. Tudo o que acontecia parecia encher de novo até a borda sua taça de felicidade.

E havia ainda, no fundo de sua mente, a pereira. Ela estaria prateada, agora, sob a luz da lua do pobre Eddie, prateada como Pearl Fulton, que lá estava, sentada, fazendo girar uma tangerina com seus dedos finos e tão pálidos que um raio de luz parecia sair deles.

O que, na verdade, não podia compreender, o que era miraculoso, era como percebera o estado de espírito de Pearl Fulton de modo tão rápido e exato. Porque ela não tinha a menor dúvida de estar certa e, no entanto, em que podia se basear? Menos que nada.

"Acho que isso acontece muito, muito raramente entre mulheres. Nunca entre homens", pensou Bertha. "Mas enquanto eu estiver fazendo o café, talvez ela me "dê um sinal", da sala de jantar."

O que queria dizer com isto ela não sabia, e o que viria a acontecer ela não podia imaginar.

Enquanto pensava, ela se via conversando e rindo. A vontade de rir fazia-a conversar.

"Eu preciso rir ou morrer".

Mas, ao notar o hábito engraçado que tinha Face de empurrar alguma coisa pelo decote abaixo — como se ela tivesse ali uma reserva de nozes ou algo assim — teve de fechar as mãos com tanta força a ponto de enterrar as unhas nas palmas das mãos, para não rir demais.

Tinham acabado, por fim. "Venham ver minha máquina de fazer café", disse Bertha.

"Só a cada quinze dias temos uma nova máquina de fazer café nesta casa", disse Harry. Desta vez Face pegou Bertha pelo braço; Pearl Fulton inclinou a cabeça e seguiu-as.

O fogo tinha-se reduzido na sala, para tornar-se um crepitante e rubro "ninho de filhotes de Fênix", segundo Face.

"Não acendam as luzes, por enquanto. Está tão agradável!". Ela agachou-se perto do fogo. Sempre tinha frio... "quando está sem sua jaqueta de flanela vermelha de mico de realejo, é claro", pensou Bertha.

Naquele momento Pearl Fulton "deu o sinal".

"Vocês têm um jardim?" disse a tranquila voz sonolenta. Foi tão refinado da parte dela que tudo o que Bertha pode fazer foi obedecer; atravessou a sala, afastou as cortinas e abriu aquelas longas janelas.

"Lá", suspirou.

E as duas mulheres permaneceram de pé, uma ao lado da outra, olhando para a esguia árvore florida. Embora o ambiente estivesse tão tranqüilo, a pereira parecia a chama de uma vela a alongar-se, apontar para o alto, tremer no ar brilhante, tornando-se cada vez mais alta enquanto elas olhavam, até quase tocar os bordos prateados da lua redonda.

Quanto tempo elas ficaram ali? Ambas como que presas àquele círculo de luz sobrenatural, compreendendo-se perfeitamente uma à outra, criaturas de um outro mundo, e perguntando-se o que iriam fazer neste mundo com todo aquele alegre tesouro de felicidade que queimava em seus peitos e caía, como flores de prata, de seus cabelos e mãos?

Para sempre? Por um momento? E Pearl Fulton pareceu ter murmurado: "Sim, isso mesmo." Ou Bertha sonhara isto?

Então a luz foi acesa, Face fazia o café e Harry dizia: "Minha querida Senhora Norman Knight, não me pergunte pe!a minha filha. Eu jamais a vejo. Não terei por ela o menor interesse até o dia em que tenha um amante", e Mug tirou o monóculo, e tornou a colocá-lo, e Eddie Warren tomou seu café e colocou a xícara no lugar com um rosto angustiado, como se ele tivesse engolido uma aranha e percebido o que fizera.

"O que eu quero é dar lugar aos outros jovens. Acho que Londres está fervilhando com excelentes peças ainda não escritas. Quero lhes dizer: Aqui está o teatro; vão em frente!"

"Sabe, querida? Vou decorar uma sala para os Jacob Nathan. Estou muito tentada a fazer um projeto tipo peixe frito, com o encosto das cadeiras em forma de frigideiras e lindas batatas fritas espalhadas por toda parte nas cortinas".

"A dificuldade com nossos autores jovens é que eles são ainda demasiadamente românticos. Ninguém deve se lançar ao mar contando que não vai enjoar e dispensando uma bacia. Bem, por que não terão eles a coragem de usar essas bacias?"

"Um poema chocante sobre uma menina que foi violentada por um mendigo sem nariz, num pequeno bosque".

Pearl Fulton sentou-se à vontade na poltrona mais baixa e mais funda, e Harry ofereceu cigarros a todos. Pela maneira como ele se pôs à frente dela, sacudindo a caixa de prata dizendo asperamente "Egípcio? Turco? Virginiano? Estão todos misturados", Bertha constatou que ela não apenas o aborrecia; ele realmente não gostava dela. E deduziu, pelo modo com que Pearl disse "Obrigada, não vou fumar", que ela também o sentira, e se magoara.

"Não tenha essa antipatia por Pearl, Harry! Você está redondamente enganado a respeito dela. Ela é maravilhosa, maravilhosa! Além disso, como você pode pensar de modo tão diferente de mim, sobre alguém que significa tanto para mim? Tentarei contar-lhe mais tarde, quando estivermos na cama, o que está acontecendo. O que eu e ela estamos compartilhando".

A essas últimas palavras, alguma coisa estranha e quase aterrorizante penetrou na mente de Bertha. E essa coisa cega e sorridente sussurrou-lhe: "Logo essas pessoas irão embora. A casa ficará tranquila, tranquila. As luzes serão apagadas. E você e ele ficarão a sós um com o outro, no quarto escuro, a cama quente..."

Ela saltou da cadeira e correu para o piano.

"Que pena que ninguém toque!" — bradou. "Que pena que ninguém toque!"

Pela primeira vez na vida Bertha Young desejou seu marido.

Ah! Ela o amava! Ela o amara sempre, é claro, mas com outras formas de amor, não com o que sentia agora. E também, é claro, ela havia compreendido que ele era diferente. Haviam discutido isto inúmeras vezes. Ela havia se afligido horrivelmente, a princípio, ao descobrir sua própria frigidez, mas, com o passar do tempo, isso deixara de incomodá-la. Havia tanta franqueza entre os dois, eles eram tão bons companheiros! Nisso estava a grande vantagem de serem modernos.

Mas agora — era com tesão! Com tesão! A palavra doía em seu corpo em brasa. Era a isto que o seu sentimento de felicidade tinha levado? Mas então, então...

"Querida" — disse a Sra. Knight —, "é uma pena, mas você sabe que somos vítimas do tempo e do horário do trem. Moramos em Hampstead. Foi uma noite tão agradável!"

"Vou acompanhá-los até a porta", disse Bertha. "Foi um prazer tê-los conosco, mas vocês não podem perder o último trem. É tão desagradável isto, não é mesmo?"

"Antes de sair, você aceita um uísque, Knight?" convidou Harry.

"Não, obrigado, amigo velho".

Àquelas palavras, Bertha despediu-se dele com um forte aperto de mão.

"Boa-noite, até outra vez!" gritou ela do alto da escada, sentindo como se uma parte de si estivesse se despedindo deles para sempre.

Ao chegar à sala, encontrou os demais convidados preparando-se para sair.

"Então, você pode fazer parte do trajeto em meu táxi..."

"Eu lhe agradeço muitíssimo por não ter outra vez de enfrentar sozinho uma corrida de táxi depois da terrível experiência da vinda até aqui".

"Vocês podem tomar um táxi logo no fim da rua, há um ponto lá. Não terão de andar mais que uns poucos metros".

"É mesmo? Que bom! Vou vestir meu casaco".

Pearl Fulton encaminhou-se para o vestíbulo e Bertha a ia seguindo, quando Harry quase puxou-a para trás.

"Permita-me ajudá-la".

Bertha viu que ele tinha se arrependido de sua rudeza e deixou-o à vontade. Em certas coisas ele era um menino — tão impulsivo — tão simples.

Ela e Eddie foram deixados perto da lareira.

"Você já viu o novo poema de Bilke "Mesa de Convidado"?" perguntou Eddie, baixo. "É tão maravilhoso! Na última Antologia. Você tem um exemplar? Gostaria muito de mostrá-lo a você. Começa por uma belíssima linha: "Por que deve ser sempre sopa de tomate?".

"Sim", disse Bertha. Em silêncio, encaminhou-se para uma mesa, no lado oposto à porta, e Eddie acompanhou-a, também silencioso. Ela pegou o livro e entregou-o ao amigo; não tinham feito o menor ruído.

Enquanto ele o folheava, ela levantou a cabeça, olhando para o vestíbulo. E viu... Harry com o agasalho de Pearl Fulton nos braços e esta, de costas para ele, com a cabeça inclinada. Ele atirou o casaco para um lado, colocou as mãos nos ombros dela, e virou-a com violência para ele. Seus lábios diziam: "eu te adoro", e Pearl pousou os dedos finos sobre o rosto dele e sorriu aquele seu sorriso sonolento. As narinas de Harry tremiam; os lábios ficaram repuxados para trás, numa crispação horrível, enquanto ele sussurrava: "amanhã" — e, piscando os olhos, Pearl disse: "sim".

"Aqui está", disse Eddie. "Por que deve ser sempre sopa de tomate?". É uma verdade tão profunda, não acha? Sopa de tomate é tão incrivelmente eterna!"

"Se você preferir", dizia a voz de Harry, bem alto, no vestíbulo, "posso chamar um táxi pelo telefone".

"Não é necessário", disse Pearl Fulton e, chegando até Bertha, estendeu-lhe os dedos delicados.

"Até logo. Muito obrigada."

"Até logo", disse Bertha.

Pearl conservou os dedos da amiga entre os seus por um momento.

"Como é linda, a sua pereira", disse ela, baixinho.

E se foi, seguida por Eddie, como o gato preto acompanhando o gato cinzento.

"Vou fechar a casa", disse Harry, estranhamente tranquilo e contido.

"Sua linda pereira..."

Bertha correu para as janelas largas do jardim. "Deus! O que vai acontecer agora?"

Mas a pereira estava tão linda como sempre, tão imóvel e florida como sempre.

Tal como saudade em português, bliss é uma palavra inglesa sem correspondente exato em outras línguas. Êxtase, felicidade total, euforia, há muitas traduções possíveis, mas nenhuma atende a todas as nuances da palavra original. Preferimos felicidade, simplesmente, por ser a opção mais simples, não excessiva, embora fique faltando alguma coisa. (N. da T.).

"É uma queda triste, muito triste!" Em seguida: "Quando o carrinho do bebê vem para o vestíbulo".

"O Amor em Dentes Postiços".


SOBRE A AUTORA:
Katherine Mansfield nasceu em 14 de outubro de 1888, em Wellington, Nova Zelândia. Filha de pais ingleses, de 1903 a 1906 estudou na Inglaterra. Voltou a Wellington, onde exerceu atividade literária principiante. Convenceu seu pai a continuar seus estudos na Inglaterra, para lá retornando em 1908. Faz e desfaz no mesmo dia um casamento, em março de 1909, em Londres. Fica grávida, já em outra ligação amorosa. Passa uma temporada na Alemanha com sua mãe, e em junho sofre um aborto. Volta a Londres em 1910 e um ano depois publica In a German Pension, seu primeiro volume de contos. Em meio a uma conturbada vida afetiva, sexual e social, vê seu irmão morrer, em 1915, durante a guerra. Surgem os primeiros acessos de tuberculose. Em 1918 publica seu segundo volume de contos: Prelude. Em 1920, outro volume: Je Ne Parle Pas Français. Em 1921, Bliss and Other Stories. Em 1922, The Garden Party and Other Stories. Com o agravamento da tuberculose, tenta tratar-se na Suíça, em 1922. Morreu no dia 09 de janeiro de 1923, aos 34 anos de idade. Sua consagração ocorreu após a morte. Teve mais de dez títulos póstumos, entre relatos curtos, cartas e diários. Hoje é considerada um dos maiores nomes da literatura inglesa. Dela disse Virginia Woolf, que a considerava o maior nome de contista na língua inglesa: "eu tinha ciúme do que ela escrevia".


Crédito: esse texto faz parte do livro "Felicidade e Outros Contos", Editora Revan — Rio de Janeiro, 1991, pág. 11, tradução de Julieta Cupertino.
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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Feira e-cêntrica de publicações independentes recebe inscrições para expositores até 7 de fevereiro

Crédito da imagem: Layza Vasconcelos
A terceira edição da feira e-cêntrica de publicações independentes abre inscrições para 100 expositores em 2020. Até o dia 7 de fevereiro, publicadores de todo o Brasil podem se candidatar a uma vaga para a exposição de livros especiais, zines e artes gráficas. Programada para 7 e 8 de março, na Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, a feira e-cêntrica é realizada pela NegaLilu Editora e pela Casa da Cultura Digital e conta com o apoio do Fundo de Arte e Cultura e da Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

Editoras independentes, selos literários, coletivos criativos, ilustradores, designers e artistas gráficos interessados em participar da e-cêntrica podem se inscrever no site www.negalilu.com.br . Para esta edição da feira, não haverá cobrança de taxa de inscrição.

“O nosso desafio é ampliar a representatividade dos expositores, que já é crescente deste a edição passada, consolidando a e-cêntrica como feira nacional”, comenta a coordenadora e curadora, Larissa Mundim. A primeira edição foi realizada com 64 expositores e a segunda com 80 publicadores de seis estados.

Segundo ela, os participantes da feira podem compreender a e-cêntrica como uma ação de apoio à inovação do mercado editorial. “Mais do que uma estratégia de circulação da produção gráfica-literária independente, buscamos realizar um evento que fortalece agentes sub-representados, repensa modos de produção, discute o redimensionamento dos papéis estratégicos na cadeia produtiva do livro e estimula a leitura”, ressalta a coordenadora.

Além da exposição e venda de livros especiais, zines e artes gráficas, a feira prevê programação formativa com oficinas, rodas de conversa e minicursos, lançamentos literários e exposições de arte. As inscrições para estas atividades estarão abertas em 9 de fevereiro, quando a programação completa será divulgada pela NegaLilu Editora e pela Casa da Cultura Digital. Em 2020, a e-cêntrica integra a programação do Projeto Madalena Caramuru.

SERVIÇO
Feira e-cêntrica – Inscrições para expositores
Prazo: até 7 de fevereiro
Onde: www.negalilu.com.br

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Aline Cristina Moreira e o livro A porta trancada, por Cida Simka e Sérgio Simka

Fale-nos sobre você.

Aline Cristina Moreira nasceu em 1989 e, além de escritora, é tradutora. Dedica-se à escrita desde 2005 e seus contos fazem parte de diversas antologias que passeiam por gêneros diferentes, indo da fantasia ao policial.

ENTREVISTA:

Fale-nos sobre seu livro, publicado pela Editora Sinna.

É uma releitura do conto "Barba Azul" do Charles Perrault. Damien Leclerc é um homem estigmatizado por conta dos infortúnios que passou em sua vida, o que inclui três esposas mortas. E para cumprir os desígnios do testamento de seu pai e não perder sua fortuna, precisa casar novamente. Damien não acreditava que poderia se apaixonar até conhecer Camille Dubois, uma jovem decidida, que também se apaixona por ele e que não se assusta com seu misterioso passado.

Sinopse: De acordo com o testamento deixado por seu pai, para que Damien receba a fortuna da família, precisará ter um herdeiro em até dez anos após a morte de seu genitor. Restando apenas três anos para cumprir sua obrigação, Damien parte em busca de uma esposa, no entanto, receia que a tarefa não será tão fácil. Presume que sua fama de bon vivant e a morte de suas três esposas atrapalhem sua missão, até conhecer Camille Dubois. A jovem de espírito rebelde e curioso acredita nas palavras de Damien, porém, o jovem continua temeroso. E se o seu passado vier à tona? Será Camille a quarta esposa a morrer?
 
O que a motivou a escrevê-lo?

Se não gosto do fim de um filme, por exemplo, decido escrever um novo final, mesmo que seja apenas pra mim. Há muito tempo gosto desse conto e tive a ideia em 2017, quando procurei alguma releitura dele e não encontrei.  Decidi que se não existia uma nova história para o conto, como eu queria, eu mesma podia escrevê-la; e quando a Editora Sinna anunciou o concurso literário, decidi dar seguimento com a minha ideia.

O que tem lido atualmente?

Gosto de tudo um pouco, mas este mês tenho lido muitos livros de terror, suspense e histórias policiais. Alguns exemplos são: "O que terá acontecido a Baby Jane?" - Henry Farrell, "Cabo do Medo" - John D. MacDonald, "Museu do Crime" - Tito Prates e "Cartas no Corredor da Morte" - Paula Febbe e Claudia Lemes.

Qual a dica que pode fornecer a um escritor principiante?

Acho que, independentemente do que se planeje escrever, desde um livro a um artigo acadêmico, temos que ler bastante; então minha dica seria essa: Leiam. Não parece, mas ler ajuda muito na hora de escrever. Aos poucos passamos a prestar em detalhes como pontuação, estrutura das frases, aquisição de vocabulário; portanto, é isso. Leiam. Leiam. Leiam.

Quais os seus próximos projetos?

Estou trabalhando em mais algumas releituras e livros originais, mas são projetos em andamento ainda.

Link para o livro:
https://editorasinna.lojaintegrada.com.br/a-porta-trancada


CIDA SIMKA
É licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Autora, dentre outros, dos livros O enigma da velha casa (Editora Uirapuru, 2016), Prática de escrita: atividades para pensar e escrever (Wak Editora, 2019) e O enigma da biblioteca (Editora Verlidelas, 2020). Organizadora dos livros: Uma noite no castelo (Editora Selo Jovem, 2019), Contos para um mundo melhor (Editora Xeque-Matte, 2019), Aquela casa (Editora Verlidelas, 2020) e Um fantasma ronda o campus (Editora Verlidelas, 2020). Integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC e colunista da Revista Conexão Literatura.

SÉRGIO SIMKA
É professor universitário desde 1999. Autor de mais de seis dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a série Mistério, publicada pela Editora Uirapuru. Membro do Conselho Editorial da Editora Pumpkin, integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC e colunista da Revista Conexão Literatura.

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