sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Lu Ain-Zaila comenta sobre (In)Verdades, novo e-book que destaca a heroína Ena

Lu Ain-Zaila
Vou resumir no meu mais incrível feito pessoal até agora. Toni Morrison disse...
Se há um livro que você quer ler, mas não foi escrito ainda, então você deve escrevê-lo”.
     E Guerreiro Ramos falava de uma sociologia própria para resolver os nossos problemas que nunca foram alcançadas pela já existente.  E então percebi que já tinha o que 2408 precisava, na minha imaginação era nítido e em 3.out.2015 a Duologia Brasil 2408 nasceu, a escrevi todos os dias até abril de 2016, quando finalizei a obra.

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

Lu Ain-Zaila: Meu contato com a literatura de forma mais interessada veio depois dos vinte anos, sou de uma época (1980/1990) que a leitura era cara, nada acessível e tinha um cunho mais escolar e obrigatório.
O filme “Sociedade dos Poetas Mortos” apresentado por minha última professora de literatura mudou tudo, ela trazia livros interessantes e falava de forma animada, finalmente o “mal do século” tinha nos deixado em paz.
Eu sempre fui boa para ler, mas o conteúdo que lia na época era mais técnico, sempre gostei da história artística do mundo e na época o maior acesso que tinha era sobre o Egito Antigo.
Essa realidade só mudou depois que comecei a fazer parte da onda de pré-comunitários, daí por diante eu passei a ler biografias e textos sociais e políticos. A minha realidade era a dos movimentos sociais e foi onde comecei a escrever, eu gostava de fazer poesias, mas a minha escrita tinha outro propósito e através dela vim a ter contato com a literatura de autores negros principalmente e comecei a perceber, ou melhor, entender o padrão social que nos mantinha longe das prateleiras como autores e leitores.
Existia um motivo e ainda existe para a “Era da Informação” não ter mudado o nosso lugar na literatura.
    Apenas pergunte-se: Quantas duologia/trilogias ou livros de ficção com heroínas negras você encontra publicados de forma tradicional ou independente? Pode ir pesquisar... você vai ficar chocado.

Conexão Literatura: Você é autora do e-book "(In)Verdades". Poderia comentar?

Lu Ain-Zaila: Claro, o mais importante a saber é que a Duologia Brasil 2408 é uma obra literária voltada à diversidade que nunca encontrei nas livrarias físicas ou nos inúmeros e-books disponíveis.
As personagens são incríveis, completas e complexas como personagens de qualidade devem ser, fora do âmbito “vai morrer logo” ou sexualizados, o que ocorre em vários livros, séries e filmes, isso quando não são nada além de fantasmas sem pé nem cabeça. Isso sempre me irritou profundamente, a Anastácia de Lobato nunca me representou, sempre me pareceu uma escrava e não uma mulher negra livre com casa própria, vida e família, mas quem conhece o contexto, sabe que só uma família branca poderia ser linda e próspera.
Construir 2408 foi uma jornada de conhecimento, afirmação e superação, pois a escrevi muitas vezes no trem, no metrô, em pé ou sentada e nas madrugadas corridas. Eu precisava escrever, tirar toda aquela estória da minha cabeça e jogar no mundo.
Brasil 2408 apresenta várias facetas que mesclam sociedade, política, recursos naturais, mistério, ação, lógica, os laços humanos e em especial fiz uso da filosofia africana Adinkra que é fascinante.
A primeira parte, (In)Verdades é reveladora e a segunda, (R)Evolução é surpreendente. E acredite... os parênteses usados em ambos os títulos não são por acaso.
Gosto que a leitora/o leitor pense: “Como assim? E eu não percebi! Deixa eu voltar...”

Conexão Literatura: Comente mais sobre a heroína Ena.

Lu Ain-Zaila: A Ena é a personagem negra que finalmente me cativou, começamos a acompanhar a sua vida a partir dos seus 24 anos, mas temos acesso ao que a mudou para sempre, o atentado ao CIA em 2396 que matou o seu pai e vivemos esse momento principalmente na sua voz e lembranças nos capítulos 4 e 5.
Ela é uma personagem redonda, no livro temos a chance de ouvir a sua voz, a de outros personagens e assim conhecê-los melhor. Entendemos as suas vidas, entendemos quem a Ena é, vemos o seu relacionamento com a mãe Naira, amigos, carreira, tudo é muito rico e ela é às vezes... tensa, mas com um objetivo e sente como nós sentimos... raiva, tristeza, alegria, tem pitadas de ironia. É muito bom ver a Ena crescendo.
Só posso dizer que a amo, sou sua fâ nº 1 como leitora. Ela tem vida, uma construção psicológica que a coloca como uma pessoa que aprende, reconhece erros e luta por seus objetivos.

Conexão Literatura: Poderia destacar um trecho de "(In)Verdades" especialmente para os nossos leitores?

Lu Ain-Zaila: Sim e faz parte de um momento importante.
— Xiiiii.
— O que foi?
— Ali embaixo...
— Aqui?

Naná está com sede e fica alguns passos atrás para beber água, ao parar e dar uma olhada ao redor, percebe alguns galhos recém quebrados e o que parece ser uma tira de plástico acinzentada de uma embalagem de ração de emergência, comumente encontrada na cidade e comprada pela população para enfrentar as temporadas de tempestades. Ao se abaixar para pegar, logo percebe que o rasgo é novo e ainda cheira a comida fresca, o que indica a grande possibilidade de a companhia ser hostil.
Naná rapidamente faz o som de um uirapuru, pássaro extinto na zona da mata centro noroeste. Ena imediatamente reconhece o código e se detém, fazendo sinal para que Karine e Emily parem. Elas logo entendem que o grupo não está sozinho.  Wadei também sabe o que isto significa e detém Alexia. Já Dei percebe a atitude brusca dos colegas e faz sinal para que Téo e Ava parem e recuem bem devagar.
— Droga!
— Eles sabem...

O momento não poderia ser pior, o grupo não tem poder de fogo o suficiente, a tensão toma conta de todos, Ava começa lentamente a tirar o pente de chips da arma para colocar o verdadeiro e enquanto recua suavemente e olha ao redor, um suor frio começa a brotar em seu rosto.

Conexão Literatura: Pela forma como fala, sentimos que há uma história diferente, qual foi o momento de virada? Quando aconteceu o primeiro passo sólido?

Lu Ain-Zaila: A minha vida pegou ritmo em 2005, fui voluntária e depois funcionária do IARA (Inst. De Advocacia Racial e Ambiental) onde ações via Ministério Público fomentavam ações sociais, e ao mesmo tempo cursava Pedagogia na UERJ e era estagiária do PROAFRO/UERJ. Isso causou em mim um abrir de janelas mentais. Eu poderia ir mais longe na minha cabeça, leitura e argumentação que jamais fui com o dinheiro que tinha no bolso.
Comecei escrevendo mais efetivamente trabalhos no COPENE (Congresso de Pesquisadores Negros) na área sóciorracial ao mesmo tempo que senti vontade de escrever melhor contos e poesias, mas por minha conta, pois a realidade literária ainda era muito envolta na descrição da “pele alva e seus lábios de mel” e cabelos que nunca me incluíam.
O primeiro conto que realmente quis trazer ao mundo foi o “Caminho Sankofa de Nande” em 2007, o inscrevi num concurso de contos para a Lei 10.639/03 (História da África e Afrobrasileira), lançado pela revista Eparrei da Casa de Cultura da Mulher Negra/SP e fui selecionada. Fiquei imensamente feliz e a partir daquele momento, comecei a postar no blog pessoal de dança oriental que tinha na época. Aliás o nome Lu Ain-Zaila é o nome que adotei na dança, uma junção de nome africano e árabe.

Conexão Literatura: Que Brasil do futuro é esse que você nos apresenta? E que diversidade é essa que você tanto fala.

Lu Ain-Zaila: Brasil 2408 é um mundo impactado por uma realidade que já conhecemos, mas pouco explorada do contexto que a vi. O revés político e social do mundo criou o apocalipse humano e dele surgiu um novo Brasil que vive com recursos contados, não é futurista, mas tecnologicamente desenvolvido o suficiente para sobreviver, já a humanidade é outra coisa, acreditamos que podemos ser diferentes, mais humanos, mas será que há verdade nisso? Esse é um caminho que 2408 explora, eu mesclo a realidade deste mundo com a história das personagens, o ambiente faz parte do enredo e muda o nosso olhar.
Já a diversidade que eu citei nas perguntas anteriores é bem abrangente, as personagens de destaque são negras, indígenas, um dos coprotagonistas usa próteses de pernas e não apenas com jovens se sustenta a estória, e para além temos a orientação sexual que também faz parte desse conjunto, mas em 2408, o foco é a vida e o legado de cada um.
Todos têm algo a fazer e contar ao mundo, eles fazem a diferença.
Temos discursos de fazer largar o livro para bater palmas e momentos incríveis de fazer vibrar ou chorar, o que aliás digo com conhecimento de causa.

Conexão Literatura: Como os interessados deverão proceder para adquirir o seu livro e saber um pouco mais sobre você e o seu trabalho literário?

Lu Ain-Zaila: Como no mês de novembro se comemora Zumbi e a Consciência Negra, e sendo a Ena, a primeira heroína negra de uma duologia/trilogia na literatura brasileira de ficção, resolvi fazer uma promoção incrível....
Estou disponibilizando a obra (In)Verdades por 2,99!!!
A compra é mediada pelo Moip, um site seguro e a promoção vai até 20.nov.2016.
Não perca a chance de conhecer a Ena e a sua história.
Compartilhe o link de download da revista, pois ela será uma ferramenta para os sorteios de marcadores, blusas e outros souvenires de Brasil 2408.
http://brasil2408.com.br/index.php/loja/

O livro já está disponível em e-book na Amazon e na Saraiva, digite “brasil 2408” ou “(in)verdades” na busca e ele aparecerá.
Você também pode acessar no Skoob uma parte do livro até o capítulo 4.
Já no post fixo do facebook (@brasil2408) em 1.nov disponibilizarei um vídeo e um post falando de cada plataforma: acesso, forma de pagamento e o seu respectivo aplicativo.
E para ser informado da impressão de (In)Verdades que só acontecerá em março/2017, curta uma das redes sociais e fique atento.
     O site oficial do livro é www.brasil2408.com.br
E estou muito feliz por contar com o apoio da Pam Constâncio que em breve apresentará uma resenha sobre o livro em seu canal no youtube – Momento Literário.
    
Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta?

Lu Ain-Zaila: Pode contar com isso, tenho uma coletânea de contos africanos, afrobrasileiros e árabes que quero publicar.
     Vou dar continuidade ao material gratuito de escrita criativa voltado à diversidade que se encontra no site do livro. Acredito que só podemos mudar o quadro atual se formos os mentores de outras autoras e autores negros que ainda estão se firmando na escrita, precisamos doar o nosso conhecimento de como fazer a parte técnica, pois a imaginação é de cada um.
     E para além tenho uma obra mais densa que precisa de um trabalho de pesquisa maior, ainda somos novinhos no uso da história brasileira na literatura. Pronto, não posso contar mais nada.

Perguntas rápidas:

Um livro: A trilogia da Sombra do Vento... tem um visual literário incrível.
Um (a) autor (a): Prefiro citar uma instituição que publica livros, o IPEAFRO/RJ.
Um ator ou atriz: não tenho específicos.
Um filme: Selma – Uma Luta pela Igualdade (2014) que trata da marcha de Martin Luther King no Alabama pelo direito ao voto no estado.
Um dia especial: todos os que venço um obstáculo, um dia após o outro.

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário?

Lu Ain-Zaila: A insistência me trouxe até aqui com todos os percalços da vida, ainda tenho muito a fazer e vou fazer independente do medo que as editoras ainda tem de abraçar a diversidade. Acredito que temos a chance de construir um caminho melhor para a literatura, melhor e maior, pois há público, porém o acesso é o que complica tudo, talvez eventos nacionais e anuais de autores independentes, mesmo online possam fazer a diferença, precisamos descobrir o que fazer, não há outro jeito...
Minha entrada na literatura foi tardia, a escrita idem, mas não precisa ser assim, precisamos inovar ou talvez precisemos readaptar o que já temos.
O celular é uma ferramenta incrível, mais acessível para muitos do que um computador, mas o e-book ainda vive a dificuldade de se firmar como uma opção viável, não apenas por uma questão de qualidade, isso é uma questão de crescimento do autor no lado técnico, eu estou melhorando a cada dia.
O pior mesmo é a informação, sobre como usar, as lojas ainda não estão investindo nisso e só pensam em vender seus e-readers específicos sem maiores explicações funcionais, mas se eu não posso experimentar no meu celular o aplicativo com orientação, vou comprar para depois ter dor de cabeça, depender da sorte no “Fale Conosco” da loja? Do fabricante? Não dá.
O e-book precisa se tornar amigável assim como tem trabalhado o livro com crianças, os leitores do futuro querem compreender a ferramenta, entender os ganhos em se usar isso ou aquilo, faz parte da evolução do consumo e ainda não temos isso, então não podemos reclamar do mercado simplesmente, a questão é muito outra.

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