terça-feira, 28 de março de 2017

Ainda sobre os clichês da literatura fantástica e o uso do folclore nacional




Durante a semana que passou um episódio interessante colocou o Listas Literárias no centro de uma polêmica, e achei interessante trazer para este espaço parte de discussão. Antes dela, porém, é preciso falar destes tempos malucos em que de repente ressuscitado pela timeline do Facebook algo volta à tona viralizando ou revitalizando uma notícia, às vezes até superada. O curioso caso tem relação com estes tempos, e não só do requentar de uma publicação antiga que acaba sendo nova, mas também da incapacidade de muitos em lidar com crítica ou até mesmo supervalorizar algo de menor relevância, afinal, os clichês estão aí, e não, não é ou não deveria ser recebido como ofensa como vi em alguns comentários apontar clichês de determinados gêneros. Mas antes de adentrar nessa questão vamos ao caso.

Em julho de 2013 publiquei o post 10 clichês da literatura fantástica. Àquela época já houve certa discussão como pode se ver nos comentários, entretanto foi durante essa semana que o post ganhou certo ar viral atingindo milhares de pessoas e muitos compartilhamentos através do Facebook, em geral com posições revoltadas se escritor, ou então o velho embate sobre o estrangeiro e o nacional se discussões de muitos leitores. A partir disso, e dos milhares de acessos ao post iniciou-se então um grande e endurecido debate nas redes sociais, que diga-se, mantive-me alheio mas acompanhei algumas coisas, a respeito da literatura fantástica. Logicamente vi muita besteira, mas também opiniões importantes sobre o tema.

Dentre as discussões que surgiram, creio que uma das melhores que vi está no post com 10 problemas de quem escreve ficção folclórica no Brasil  no Blog Colecionador de Sacis. De cara, digo que concordo com a maior parte da problematização ali apresentada, ainda que neste outro post, desta semana em uma lista apresentei 10 livros eficientes no uso dos elementos nacionais em suas narrativas de fantasia, suspense e horror., conjunto que aqui tem sido chamado de literatura fantástica pelos autores. Aliás, essa é uma questão presente nas discussões a respeito do tema e que gera uma certa confusão, especialmente porque mercadologicamente e mesmo por desconhecimento dos gêneros vem se chamando de literatura fantástica tudo que agregue elementos da fantasia. Isso, por momentos gera atritos visto que para os gêneros, realismo fantástico ou realismo maravilhoso  é o que vemos nas obras de Jorge Luis Borges, Cortázar e aqui no Brasil, Érico Veríssimo, José J. Veiga e Murilo Rubião. Digo isso porque tais confusões ficaram presentes nas discussões, inclusive, e o que é mais discutível, confusão entre alguns proclamados autores de literatura fantástica.

Mas vamos adiante, creio estar alongando a discussão, aliás, aqui é o espaço para tal, de modo que ainda que válida a crítica do Colecionador de Sacis "É que não fiquei satisfeito com a postagem original, assinada por Douglas Eralldo. Primeiro por que a discussão sobre clichês não me parece levar a lugar nenhum. Segundo por que o tom de deboche que permeia o texto e a abrangência indefinida de cada item fazem a lista ser apenas um grande dedo apontado na cara de todo mundo, sem dizer a quem" penso que antes de mais nada é preciso observar-se a intenção de um texto, e no caso daquela lista e mesmo do próprio formato do Listas, é um espaço para apresentação de algo, não necessariamente um fórum mais amplo, sequer mesmo buscar chegar a lugar algum. 

Digo isso porque não tinha a intenção alguma de ir a determinado lugar com a lista, ali expus simplesmente algo que a mim, como leitor do gênero (e também autor, que vejam, publico logo sobre zumbis) vinha incomodando, e que inclusive, naquele momento me deixava com a sensação de que poderia enfraquecer o movimento de literatura fantástica. Não deixou de ser também uma posição nacionalista (ainda que eu fuja do nacionalismo burro) de alguém que procurava encontrar em suas leituras elementos reconhecíveis de sua cultura. Do mesmo modo, nãos sei se escrevi a lista apontando o dedo, mas certamente tinha em mente um conjunto de leituras que reunia os elementos ali listados. Muitas obras desse conjunto inclusive tiveram "almejado" sucesso e mesmo fizeram presença entre listas mais vendidas (aqui também deixo claro que a este leitor não se usa lista de bestseller ou sucesso de público para encontrar qualidade numa obra, às vezes é até o contrário). Contudo, talvez o post tenha sido um chapéu jogado e que curiosamente encontrou muitas cabeças pelo que acompanhei pelas redes.

Mas então, enfim, depois disso tudo, quais seriam os problemas da literatura fantástica? Ora, são muitos, assim como são suas virtudes. Há muita gente boa no anonimato e muita porcaria no estrelato como é verdadeiro também o inverso. Todavia, são diferentes os problemas de hoje e os de ontem, digamos os de 2013. Não se vê hoje a quantidade de publicações como entre os anos de 2011 e 2013 especialmente. Também vivenciamos neste período o surgir e o desaparecer de editoras específicas do que vinham chamando "literatura fantástica". Selos especiais abriram e fecharam, e muitos autores andam silenciosos e outros seguem a luta que nunca foi fácil, mas que porém, por algum tempo parecia melhorar. Assim, não faltam desafios ao escritor de fantasia, horror, etc. Inclusive, conviver com as críticas, entretanto isso não apaga que entre bons, médios e ruins há uma série de problemas, e muitos daquela lista prosseguem, outros foram superados.

Para finalizar, cabe ainda dizer que as discussões da semana também serviram para fundamentar um pouco mais minhas percepções da intolerância brasileira e da incapacidade de se lidar com críticas. Lógico que as reclamações mais ferrenhas vieram de autores que reconheceram os elementos da lista em suas obras, sendo estes os mais indignados. Isto também mostra a incapacidade de leitura de muitas pessoas, mesmo as que trabalham com ela, porque em nenhum momento diz-se que por ser ou não clichê não se é publicável. Meus queridos, num país em que Cinquenta Tons de Cinza, Crepúsculo e a Bíblia são as principais referências de leitura de sua população, há espaço para tudo, o que não impede, afinal é democrático, que haja quem procure por mais do que se oferece, e isso tampouco é uma declaração de guerra. Ou é? Por fim, insisto que se é possível ir além, outras listas do Listas Literárias demonstram isso, contudo é preciso acima de tudo, especialmente, que os autores mais indignados com os clichês ampliem suas cargas de leitura, porque o que mais incomodou na feitura daquele post foi justamente reconhecer as referências pobres ou repetidas que à época inflava a chamada "literatura fantástica brasileira".  Ao fim, foi aquele um post de um leitor que procurava apenas novos caminhos e novas identidades e não coisas tão próximas de suas fontes estrangeiras e bestsellers. Para encerrar então, vale ressaltar mais uma vez que aos que incomodaram-se com a lista ou os que falaram da não possibilidade de se utilizar o folclore nacional, autores como Christopher Kastensidt e Eneas Severiano são bons exemplos do contrário. Além disso vale lembrar que no caso da ficção científica, sem abandonar referências estrangeiras, há tempos os autores já conseguiram trazer para o Brasil especulações tão espetaculares quanto as de fora tendo nossa realidade e nossos cenários como ponto de partida, o que leva-me a questionar se estaria assim a referida lista tão problemática.


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