quarta-feira, 22 de março de 2017

Julia Lemos comenta sobre a publicação do seu novo projeto editorial

Julia Lemos
Julia Lemos é poeta e ensaísta, nascida em Caruaru e radicada no Recife. Graduada  em Comunicação Social e Jornalismo, pela UFPE é  mestra em Estudos Brasileiros pela Universidade de Lisboa, Portugal.  Estreou em literatura com o livro de poemas “ Carmem Antônia Migliacchio Enlouqueceu, em seguida publicou “ A Casa Estrelada”. Atriz, integrou  o elenco do Teatro Hermilo Borba Filho, bem como atuou junto à Companhia Práxis Dramática. O seu atual projeto editorial inclui “A Exposição dos Sóis” – poesia,  e os ensaios, “Patativa do Assaré, um trovador nordestino”, e o estudo sobre a poética de Manuel de Barros intitulado “ Sobre uma poesia de larvas incendiadas” .

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

Julia Lemos: Considero que meu início na literatura foi na minha infância, numa casa com muitos  livros e onde não faltavam os pequenos recitais domésticos depois do jantar. Meu pai era poeta e contista e mesmo ocupado com o trabalho da promotoria de justiça escrevia muito, além de recitar-nos os seus poetas preferidos, os parnasianos e os românticos.  Mas também  o ouvíamos recitar épicos de Camões a Gonçalves Dias. Cresci assim ouvindo a música do poema. Certo dia, ele lançou o desafio de um concurso de poesia para incentivar os cinco filhos. Eu tirei o primeiro lugar com um poeminha que versava sobre liberdade e  borboletas.
Continuei a escrever na adolescência mas sem o compromisso de me tornar poeta. Já  Desde  muito jovem trabalhava e estudava e, certo dia, já na Universidade cheia de tédio por ter me matriculado em um curso com o qual não me identificava, escrevia nos intervalos das aulas. Foi nesse período que produzi a maior parte dos poemas que integraria o meu primeiro livro. Na Biblioteca li em um livro de Stendhal a seguinte frase: “Vocação é a felicidade de ter como ofício a paixão”. Compreendi que escrever era a minha paixão, o meu ofício. Daí por diante começaria a publicar nos principais jornais da cidade: Diário de Pernambuco e Jornal do Commércio e a recitar poemas meus e de outros autores onde encontrasse uma oportunidade.

Conexão Literatura: Você está preparando a publicação do seu novo projeto editorial. Poderia comentar?

Julia Lemos: Este novo livro “A Exposição dos Sóis” apresenta-se mais denso e também mais extenso pois contempla o longo intervalo sem publicar. Contempla também uma gama maior de temas e de motivos, incluindo os poemas inspirados na cidade, Recife e aqueles co um acento mais romântico, para além dos poemas que se constituem como “falas” de personagens e que são recorrentes na minha poética assim como os de natureza místico-religiosa..No mestrado em Estudos Brasileiros, em Lisboa, o Professor João David Pinto Correia, de Literaturas Orais sugeriu como tema de minha pesquisa na disciplina a nossa  literatura  de Cordel - o Repente e a Cantoria. Identificamos o nome de Patativa do Assaré como aquele que mais nos representava no âmbito da poesia popular .
A pesquisa deu ensejo ao tema da minha dissertação que, por sua vez, foi adaptada para se tornar o livro “Patativa do Assaré, um trovador nordestino” e no qual faço uma abordagem biográfica do poeta enfatizando seu percurso de artista engajado nas lutas sociais. A análise de sua poesia engloba um estudo das soluções formais por ele adotadas para compor uma obra que mesmo sendo de cariz popular em sua essência, utiliza também os recursos próprios da poesia erudita.        
Meu primeiro contato com a poesia de Manoel de Barros, autor que tem suas raízes no pantanal mato-grossense foi através do livro Arranjos para assobio, que me causou uma grande surpresa, não só por sua escrita original mas pela ousadia em explorar temas inusitados e estranhos ao universo poético. Impressionou-me a liberdade do autor na utilização que faz das palavras, apresentando-nos um livro que parecia extrapolar os limites do gênero poesia. Assim é que lendo a obra de Manoel de Barros cheguei ao livro Memórias Inventadas, as infâncias de Manoel de Barros e foi sobre este trabalho do poeta voltado mais especificamente para o público infantil que escrevi o livro “Sobre uma poesia de larvas incendiadas”. O livro é escrito numa proposta didática mas que se mistura as opiniões e considerações de natureza poética próprias do ensaio, analiso as questões em torno da utilização de uma dicção infantil como forte característica dessa poética, aparecendo também como um símbolo de permanente inventividade em sua obra.

Conexão Literatura: Você é coautora do livro de receitas A Cozinha Estrangeira na Terra do Caju, com prefácio de Gilberto Freyre, 1985. Publicou os livros de poesia Carmem Antonio Migliacchio Enlouqueceu, (Edições Pirata- Fundação Gilberto Freyre) e A Casa Estrelada, pela Fundação de Cultura de Pernambuco, através da CEPE, além de ter participado em antologias. Algum desses livros lhe marcou de alguma forma ou é especial para você? Caso sim, por quê?

Julia Lemos: O livro de poemas “Carmem Antonia Migliacchio Enlouqueceu”, pelo fato de ser esta a minha primeira publicação. Lembro-me da emoção ao ver a capa: um rosto de uma mulher em traços que imitam o bico de pena e de, folheando o conteúdo, ver os poemas que escrevi numa solidão plantada em meio ao vozerio das pessoas de casa. Havia me inspirado nas reflexões sobre a loucura, o que representava um olhar mais para dentro, pelas  indagações existenciais cujas respostas não se achavam facilmente. Indagações que eram como se fossem fantasmas surgidos das leituras dos textos de Hermann Hesse, Clarice Lispector, Albert Camus, os mais frequentes. Isto numa idade em que se requer uma vivência mais para fora.
As experiências representadas naqueles poemas do primeiro livro são as que se extraíram das visões turbadas numa experiência de vida que mais demonstra recolhimento e perplexidade.  Relembro ainda nessa estreia a alegria de integrar, à partida,  um movimento como o dos “piratas” no Recife, capitaneado pelos poetas Jaci Bezerra e Alberto da Cunha Melo, e cujo projeto editorial se impunha, já naquela época, tão importante, congregando muitos dos poetas e escritores que permanecem até os dias de hoje no ofício. Desfrutávamos de uma espécie de comunidade, trocando livremente ideias sobre literatura, partilhando alumbramentos e apreensões.
Encontrávamos quase sempre na “Livro 7” nossa livraria mais midiática entre os anos 80 e 90.  Aos poetas do Movimento Pirata juntavam-se os de outras tendências, reunidos  quase numa mesma visão identitária nos temas referentes à Poesia, às artes e a ampliação de políticas culturais. Meu livro de estreia é, naturalmente, resultado de uma composição solitária, mas surge em meio a uma atmosfera de congraçamento contagiante entre os autores  de várias estilos e suas produções poéticas.   

Conexão Literatura: Você também é atriz, já participou de várias encenações, entre elas "A estória de Romeu e Julieta", pela qual recebeu o prêmio Samuel Campelo de atriz revelação na categoria comédia. Em televisão atuou no especial Morte e Vida Severina, com direção de Walter Avancini, Rede Globo, 1981 e O Boi Misterioso e o Vaqueiro Menino, Rede Bandeirantes de Televisão, direção de Maurice Capovilla, 1981. Você acha que existe uma ligação entre atuar, escrever e criar histórias? As atuações influenciaram sua carreira como escritora?

Julia Lemos: Sim e a ligação acontece em um nível não só de influência mas de interação. Para mim estas atividades situam-se todas na ordem da poesia, pois  se encontram no âmbito da inventividade- da recriação da palavra - e  toda linguagem artística possui sua poeticidade. A ênfase maior, contudo, é na palavra que, sendo recriada na Poesia, torna-se voz também. As emoções nessas comunicações, atuar, escrever e criar histórias se diferenciam: o público leitor não é flagrantemente visível, já no teatro a troca se dá instantaneamente, e é algo sublime. Sempre atuei muito no sentido de “dramatizar”, os poemas, “colocá-los de pé”, ou seja, trazê-los para o palco, tantas vezes improvisado. Representávamos tendo antes identificado um fio narrativo condutor, em que buscávamos os personagens apenas esboçados no poema, explorando o lado mais ficcional da Poesia.
O teatro, a televisão e a poesia interligam-se pelo veio comum de que estas linguagens são artes.  Lembremos Roman Jakobson, o pensador e linguista russo que em sua análise estrutural da linguagem, poesia e arte definiu suas funções. Uma dessas funções é a poética, mas esta não está confinada à Poesia. A função poética da linguagem extrapola, portanto, o âmbito da Poesia subsistindo nas várias linguagens artísticas.

Conexão Literatura: Quanto tempo você leva em média para concluir um livro?

Julia Lemos: O tempo de criação de um poema é relativamente curto. Sou meio  como um poeta repentista na captação do que “vem para ser escrito”. Percebo isto a influência da poesia popular própria do meio em que nasci e vivi parte da minha infância, Caruaru . O poema, em muitos casos, passará por outra instância, a do aperfeiçoamento, sendo esse processo inerente ao trabalho de criação artística.  O livro, então, se completará sem pressa. No meu entender ele estará pronto quando conseguir imprimir uma visão de conjunto, representando a sua própria tessitura tornando tensa e uma a sua mensagem.

Conexão Literatura: Como o leitor interessado deverá proceder para adquirir os seus livros e saber um pouco mais sobre você?

Julia Lemos: Os livros estão esgotados, mas mantenho no Facebook uma página que tem meu nome como título e na qual coloco um breve resumo biográfico, publico poemas antigos e estou sempre atualizando com alguns poemas que produzo atualmente.

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta?

Julia Lemos: Sim. O projeto que desejo realizar são os livros de poesia em prosa voltados para o público infantil. 

Perguntas rápidas:
Um livro: Grande Sertão Veredas- Guimarães Rosa
Um (a) autor (a): Gabriel Garcia Marques/ Cecília Meireles
Um ator ou atriz: Destaco os brasileiros, país de grandes atores e considero Renata Sorrah uma excelente atriz dentre os nomes que são, entre nós, unanimidade.
Um filme: Cartas para Julieta-( Letters for Juliet, 2010)
Um dia especial: o de minha estreia no teatro com o musical infantil “ Um pedacinho de lua”, pelo Grupo Piolim, 1976.

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário?

Julia Lemos:  O eminente poeta, crítico e teórico da Literatura, Carlos Felipe Moisés,
 disse ao ser indagado sobre o que há de mais atual e inovador na poesia brasileira, hoje:
“De um lado, uma ebulição extraordinária, auspiciosa; o país nunca teve tantos poetas em atividade; nunca houve entre nós tanto interesse por poesia. A cena poética brasileira jamais conheceu tal diversidade, tal heterogeneidade, tal mistura de timbres, formas e estilos. Vivemos um período áureo em matéria de poesia e não me preocupa nem um pouco saber que quantidade e variedade nem sempre correspondem a qualidade.De outro lado, indo direto à pergunta, o que vejo de mais atual, inovador e pujante na atual poesia brasileira é o Bandeira de Estrela da manhã, o Murilo de A poesia em pânico, o Drummond de Claro enigma ou o João Cabral de Uma faca só lâmina. São esses poetas que, antes dos demais, ajudam a enfrentar "o tempo presente, os homens presentes, a vida presente", hoje.

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