sábado, 3 de fevereiro de 2018

Jean Pierre Chauvin e o livro Crimes de Festim: Ensaios sobre Agatha Christie, por Sérgio Simka e Cida Simka

Jean Pierre Chauvin é professor e pesquisador de literatura da Universidade de São Paulo. Atualmente, tem se dedicado à cultura luso-brasileira, especialmente aquela produzida entre os séculos 18 e 19. Além disso, oferece as disciplinas "O Romance Policial de Agatha Christie" e "A Prosa de José Saramago, na ECA. Como ensaísta, tem publicado artigos e livros, relacionados a esses e outros temas, dentre os quais, O Alienista: A Teoria dos Contrastes em Machado de Assis (2005), O Poder pelo Avesso na Literatura Brasileira (2013) e Crimes de Festim: Ensaios sobre Agatha Christie (2017), publicado pela editora Todas as Musas.

ENTREVISTA:

Fale-nos sobre o seu livro Crimes de Festim.

Crimes de Festim reúne quatro estudos sobre romances da autora: Poirot Perde uma Cliente, Encontro com a Morte, O Caso dos Dez Negrinhos e A Mansão Hollow, publicados entre 1927 e 1946. Trata-se de artigos, que já apareceram em periódicos, revisados e republicados em um único volume. Há poucos estudos sobre Agatha Christie no país. Portanto, o livro tenta preencher essa lacuna, por aqui. Como se sabe, há algum preconceito por parte da crítica tradicional, em reconhecer as qualidades dos livros de temática policial. Um dos porta-vozes (e paradigmas) dessa postura, digamos, avessa ao romance popular está no historiador e crítico literário Edmund Wilson, que escreveu artigos severos contra o gênero detetivesco na década de 1940. Crimes de Festim aponta elementos literários e reivindica um novo lugar para a rainha do mistério. Dentre as pesquisas mais relevantes sobre a escritora, devem-se mencionar o importante trabalho da psicanalista francesa Sophie Mijolla-Mellor e a biografia de Tito Prates - considerado um dos maiores conhecedores da obra de Christie, não só no país.

Fale-nos sobre seus outros livros.

A Teoria dos Contrastes em Machado de Assis, publicado em 2005, é a versão em livro da dissertação de mestrado em que estudei a novela "O Alienista", de Machado de Assis, à luz de seus contos. No trabalho sugeri pistas sobre a origem do poderoso médico de Itaguaí, relacionando a Revolução dos Canjicas à Revolução Francesa. Um dos interesses da narrativa machadiana está na aproximação de Simão Bacamarte com a religião maometana e com a filosofia do matemático árabe Averróis. Já O Poder pelo Avesso na Literatura Brasileira, nova versão da tese de doutorado, envolve estudos comparados entre Manuel Antônio de Almeida (Memórias de um Sargento de Milícias), Machado de Assis (O Alienista) e Lima Barreto (Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá), a partir da denominação cunhada pelo crítico Astrojildo Pereira de que seriam obras de "romancistas da cidade". A ideia foi aproximar tais narrativas da história brasileira, pelo viés da sociologia da literatura.

Como incentivar o brasileiro a ler?

Os baixos índices de leitura, no Brasil, refletem-se em muitas coisas: o empobrecimento da linguagem; a dificuldade para se concentrar nos textos, de modo geral; a desvalorização da cultura; a negligência frente ao nosso passado cultural etc. Um dos maiores rivais da literatura, em nosso país, é alardeado pelo senso comum. É comum ouvir que o ato de ler é mero passatempo, como se o hábito da leitura fosse algo secundário, refém da falta de tempo e dos demais afazeres. É curioso que a mesma pessoa que alega falta de tempo, para se dedicar à leitura, passe horas no videogame ou em frente aos seriados (muitos deles, repletos de clichês, enredos pouco convincentes e finais previsíveis), empenhado em preencher o ócio e curar o tédio com ocupações. Ler também é ocupação e, por sinal, de grande relevância. Quase tudo cabe na literatura: a distopia, o ciúme, o crime, o amor, a morte etc. Muitos narradores e personagens agem com mais sabedoria e coerência que nós, pretensamente pós-racionais. A história não morreu, apesar do que afirmam alguns sujeitos. Especificamente no caso da literatura, a tarefa mais importante (para o professor) é estimular a leitura. Uma saída, que tem se mostrado produtiva, é convidar os alunos a ler. Para isso, sirvo-me de trechos breves ou capítulos cativantes de determinados livros. A análise das obras, em prosa ou verso, pode estimulá-los a dar continuidade à tarefa e redescobrir o gosto pela literatura.

Por que ler literatura?

Há que se lembrar que os livros em geral acontecem em determinado tempo e lugar. Quero dizer, é fundamental que, além de considerar os fatores estéticos, éticos e ideológicos, tenhamos em mente que as obras foram/são produzidas por determinada camada de um país, em seu tempo; que essa obra pode, ou não, seguir modelos, dialogar com outros autores, períodos e espaços. A literatura não nasce do além. De modo geral, a boa obra literária é que suscita o aparecimento de novos talentos. O fato de apreciarmos o "romance policial", o "romance distópico", a poesia árcade ou a prosa oitocentista não inviabiliza a apreciação de outros gêneros, temas, modelos e épocas. Repare numa questão curiosa: os mesmos que questionam o descritivismo, supostamente excessivo, num romance de José de Alencar, podem ser aqueles que devoram, com tranquilidade, as longas descrições de um autor como John R. R. Tolkien ou George R. R. Martin. A meu ver, há algum preconceito, por parte dos brasileiros, quando diante da incumbência de ler excelentes autores nacionais. A elevada qualidade artística de Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Moacyr Scliar, João Ubaldo Ribeiro, Luís Fernando Veríssimo, Martha Medeiros etc. não pode ser reduzida ao discurso puramente impressionista: "gostei/não gostei". É que a boa literatura demanda leitores de qualidade, também. A questão é saber se o investimento em conversas "para passar o tempo", nas redes sociais, equivale ao prazer da poesia e da prosa, sejam elas do século 17, sejam aquelas produzidas por um blogueiro. Como disse o defunto-narrador Brás Cubas: "Matamos o tempo; o tempo nos enterra". A literatura permite, inclusive, questionar a si mesma. Mas, para isso é preciso que o leitor se desnude das ideias preconcebidas e se afaste, temporariamente, do roldão eletrônico-virtual em que está inserido. Dentre outras vantagens, a literatura nos desautomatiza, pois é capaz de sacudir as nossas percepções e estimular nossa esquecida  solidariedade.

*Sérgio Simka é professor universitário desde 1999. Autor de cinco dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a coleção Mistério, publicada pela Editora Uirapuru.

Cida Simka é licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Coautora do livro Ética como substantivo concreto (Wak, 2014) e autora dos livros O acordo ortográfico da língua portuguesa na prática (Wak, 2106), O enigma da velha casa (Uirapuru, 2016) e “Nóis sabe português” (Wak, 2017).
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