domingo, 1 de abril de 2018

Francisco J. S. A. Luís e o livro “Travestis Brasileiras em Portugal” (Chiado)

Francisco J. S. A. Luís - Foto divulgação
Francisco J. S. A. Luís nasceu em Lisboa em 1971. É investigador do Centro em Rede de Investigação em Antropologia, Doutorado em Antropologia Social e Cultural e, Mestre em Direito Administrativo e Administração Pública. Travestis Brasileiras em Portugal, foi certamente o seu primeiro grande exercício antropológico de integração concetual e humana do “outro” diferente. Trata-se de um trabalho de campo de 8 anos, que finalmente cumpre o seu propósito; dar voz a quem não a tem, procurando contribuir para o encurtamento das distâncias que abriram e remexem em feridas de difícil cicatrização.

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?


Francisco J.S.A. Luís: Penso que devemos sublinhar um aspecto relevante, este meu livro, não é ficção, nem romance ou policial. Ele inclui um pouco de tudo, pois tudo o que nele é interpretado e transportado para o leitor, corresponde a vidas reais de seres humanos, que por uma ou outra razão, se colocam ou são relegados para as margens societais. Existe sem dúvida uma pretensão de tornar a escrita académica acessível a todos, de um modo que já ouvi classificar como pós-moderno. As sociedades evoluíram e o conhecimento, seja ele de que ramo for, vê-se compelido a integrar essa transitividade fluída que o impulsiona pelos caminhos da vida de todos os dias. O meu início no meio literário correspondeu, portanto, e grosso modo, ao momento em que tive que realizar uma tese de doutoramento a partir de arquivos compilados e classificados, correspondentes a 8 anos de trabalho com atores sociais refletores de uma riqueza incomensurável. Aquela riqueza que apenas encontramos nos processos subversivos e de transformação. Entendo que, as travestis brasileiras colocam em causa inúmeras noções, bem arreigadas, vigentes nas sociedades modernas, sendo que paralelamente se convertem elas próprias num testemunho dessa modernidade.

Conexão Literatura: Você é autor do livro “Travestis Brasileiras em Portugal” (Chiado), com publicação prevista para abril ou maio. Poderia comentar?

Francisco J.S.A. Luís: Infelizmente, um dos meus vários projetos paralelos, colocou-se de permeio, enquanto procurava encetar as derradeiras afinações neste meu desiderato literário, o que motivou um ligeiro atraso na publicação. Um projeto de investigação sobre as migrações sul-asiáticas para Portugal, de resto, como tive que fazer quando iniciei esta minha pesquisa com Travestis Brasileiras. Neste livro argumento no sentido que, as Travestis Brasileiras se constituem como um marco da riqueza cultural brasileira e que em nenhuma outra parte do globo, existe uma figura retórica que lhes corresponda. As transvestites Anglo-Saxónicas, as crossdressers ou mesmo as transexuais medicamente acompanhadas, enquadram-se numa taxonomia distinta. As travestis Brasileiras adquirem esse caráter de unicidade, pelo facto de a sua identidade comunitária se construir, não apenas a partir da sua experiência transgénero, mas também através do empirismo compartilhado com outras travestis, nas ruas onde se transformam também em trabalhadoras do sexo. Apenas as Travestis Brasileiras colocam silicone industrial entre a carne e a pele, arriscando as suas vidas. Em mais nenhum local do mundo, existem as bombadeiras e cafetinas conforme aquelas que operam Brasil.

Conexão Literatura: Como foram as suas pesquisas e quanto tempo levou para concluir seu livro?

Francisco J.S.A. Luís: Este trabalho iniciou-se em Outubro de 2007 e culminou com a defesa da tese de doutoramento em Março de 2016. Entretanto, no decorrer destes dois últimos anos, a ideia da publicação foi ganhando força e sendo cozinhada em lume brando, até que, a morte da minha mãe - provocada por um cancro que nos derrotou em 4 meses - se constituiu como derradeiro impulso para que partíssemos para a sua concretização.  Este trabalho é um agradecimento a quem o tornou possível, as travestis Brasileiras imigradas em Portugal – gente que apenas aspira a ser gente - e acima de tudo à minha mãe. É um agradecimento e simultaneamente uma homenagem.

Conexão Literatura: Poderia adiantar e destacar um trecho do qual você acha especial em seu livro?

Francisco J.S.A. Luís: "Discriminadas em casa, na escola, pela vizinhança e na rua, ansiando por transformações que apenas podem executar com dinheiro, que não possuem, a cidade grande afigura-se como destino provável e acima de tudo já experimentado por outras manas. Contudo, a vida na cidade grande não é fácil. Tem as suas regras, os seus códigos de conduta e suas informalidades, que tarde ou cedo se evidenciam como acentuadamente severas para aquelas que se iniciam na rua. Para estas não resta alternativa, senão a de tentar aceder a uma teia de relações sociais onde se gerem e disponibilizam recursos, o campo social onde as travestis o conseguem atingir é a prostituição. O que implica de certa forma uma nova socialização e incorporação de normas, comportamentos ou expectativas do grupo e o conhecimento das potenciais sanções, face a desvios perante o que delas é esperado. (...) (…) tinha umas seis assim na esquina conversando. Cheguei e fui falar com uma delas…cheguei e disse assim - oi gente, tudo bom? Boa noite para vocês! - Uma delas se virou para mim, fiquei sabendo que o nome dela era não sei quê Bahiana, era da Bahía…e cuspiu na minha cara! Ela escarrou catarro na minha cara! Falou que não tinha que estar naquele ponto, que ali era delas. Eu pedi desculpa, limpei o rosto porque lá é aquele negócio, quando se mata uma travesti a polícia agradece, até uma travesti que mata uma outra, a polícia nem sequer procura saber quem foi, fazem aquela cena da hora e depois abafam o caso."

Conexão Literatura: Como o leitor interessado deverá proceder para saber mais sobre você e o livro?

Francisco J.S.A. Luís: Meu caro, disponho de uma página no facebook https://www.facebook.com/Travestis-Brasileiras-em-Portugal-Trans-migra%C3%A7%C3%B5es-e-Globaliza%C3%A7%C3%A3o-169088303724938/?modal=admin_todo_tour especificamente criada para divulgação do livro, paralelamente podem fazê-lo contatando comigo diretamente através do meu facebook https://www.facebook.com/franciscoluis.luis.5
Por estes meios posso elucidar dúvidas ou satisfazer curiosidades relativamente à obra. Acrescento ainda, que no futuro poderão adquirir o livro online ou diretamente em livrarias seguindo as indicações presentes no seguinte link: https://www.chiadobooks.com/distribuicao

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta?

Francisco J.S.A. Luís: Como disse ao meu caro amigo, no introito a esta entrevista, não deixando de lado o aprofundamento da questão debatida no livro em liça, pretendo em breve levar a cabo uma investigação das migrações sul-asiáticas para Portugal, nomeadamente as provenientes da Índia, Bangladesh e Paquistão. As difíceis condições de vida nesses países de origem – terrorismo, guerras religiosas e défices estruturais -  as dificuldades em se legalizarem noutros países Europeus – que os/as obriga em certos casos a ficar uma década sem ver mãe, pai, esposa e filhos – a exploração implícita ao tráfico de seres humanos consubstanciada em redes bem estabelecidas na Europa – ramificadas a partir dos países de origem e com a colaboração de autóctones de vários países Europeus - e a minha especial atenção para questões que envolvam direitos humanos, tornam este projeto bastante apetecível em termos de realização pessoal e profissional, enquanto investigador do Centro em Rede de Investigação em Antropologia.

Perguntas rápidas:

Um livro: 100 anos de Solidão
Um (a) autor (a): Gabriel Garcia Marques
Um ator ou atriz: George Washington
Um filme: O Patriota
Um dia especial: O dia 10 de Dezembro de 2007, data do meu casamento com a Vanusia, que por acaso é Brasileira.

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário?


Francisco J.S.A. Luís: Talvez apenas um comentário ao atual cenário político internacional, pleno de instabilidades e incongruências, que me impelem a dizer, que as diferenças nunca nos subtraem nada, apenas acrescentam. A vida, enquanto arte do possível, aconselha-nos mais à aproximação do que à segregação e discriminação. Neste contexto e como alguém que acompanha avidamente o que se desenrola no palco internacional, gostaria também que no Brasil as coisas acalmassem e que o povo pudesse receber dos políticos aquilo que tem dado ao mundo, alegria e simplicidade.
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