quinta-feira, 14 de junho de 2018

A solidez do humano, em Não temos wi-fi

Foto divulgação
*Por Alexandra Vieira de Almeida

O que une os quatro autores neste livro de crônicas Não temos wi-fi (Penalux, 2018) é o poder da crítica em vários campos do saber: a crítica literária, a política, a social e até mesmo a pessoal, extrapolando os limites de um saber específico e recriando-se no subjetivo, com as impressões sobre o universo contemporâneo que os cerca e, voltando no tempo, na experiência habitável de tais escritores. A linguagem se faz morada, casa habitada por cada autor em sua vivência com o real. O externo se torna habitação das impressões recorrentes destes quatro autores que compõem o livro, que entre a crônica, o ensaio e a poesia, expõem a nervura da realidade sem medo da exposição.
São eles autores já com uma larga trajetória pela literatura, com vários livros publicados entre romances, contos, crônicas e poesias. O livro é dividido em quatro capítulos, um para cada autor: “O avesso da medida”, de Cyelle Carmem; “Um sol vermelho no fundo turvo do espelho”, de Lau Siqueira; “Lupas de elefante”, de Letícia Palmeira e “Conversas de rodapé”, de Linaldo Guedes. O título não poderia ser mais convidativo e irônico. Autores com larga experiência nas redes sociais convidam os leitores a darem um stop na rede internética para falarem de coisas humanas, o que revela nossa humanidade em face do tempo, quando ainda não tínhamos esta febre de internautas. Não temos wi-fi é um louvor à nossa humanidade, tão corroída pelo preconceito, pela corrupção, pela desumanização e liquidez do ser, que nos tornaram reféns da crueldade e do medo. Esse belo livro nos vem falar da solidez do ser, dos laços imprescindíveis dos afetos, o que nos torna ao mesmo tempo, semelhantes e diferentes nessa rede inextrincável da vida.
Na crônica “Despertador literário”, Cyelle Carmem diz: “Mas na verdade a poesia me deixou acordada para sair de mim, libertar-se de mim”. A tônica maior de suas crônicas é despertar o ser sobre sua verdadeira identidade em face do mundo. Questões ligadas às minorias, como o teor da negritude, uma voz que não quer ser abafada e esquecida pelo preconceito de uma sociedade preocupada com seu próprio umbigo e que não vê no irmão a máxima maior da fraternidade que uniria todos os seres sem maiores violências e objeções. Cyelle Carmem levanta sua voz de liberdade perante a incompreensão humana. Suas crônicas são carregadas de críticas ao racismo, mas também aponta para outros temas, como as relações entre os casais, a sua experiência de viajante e o mundo virtual. Também discursa sobre cotidianidades, como o gênero da crônica requer, mostrando temas atuais e presentes na sua vida, regredindo, ao mesmo tempo, ao seu próprio passado para contrastá-lo com o nosso dia a dia, pois cronos é tempo. Tempo que nos circunda, nos envolve. “O avesso da medida” é o grito da libertação, daquilo que é limitado pelo olho da desrazão opressora.

Em “Um sol vermelho no fundo turvo do espelho”, Lau Siqueira nos convida para um debate profundo em torno de vários temas, como o cenário político atual, com suas mazelas, o papel do escritor no passado e no presente, o cinema, as artes em geral, a mídia, a lei do mercado, o papel da escola na disseminação e riqueza da literatura. Ou seja, este sol vermelho no fundo turvo do espelho é a nossa esperança que sobrevive em meio ao caos, a escuridão de uma sociedade obscurecida pelo preconceito e pelo medo. O mito de Pandora nos deixa ver este lastro de esperança que é o sonho utópico da humanidade em meio ao trágico destino dos seres que são assombrados pela crueldade do real que nos açoita covardemente. Lau Siqueira busca esse sonho utópico que nos faz desbravadores de horizontes para que a potência do humano, sua solidez em meio à liquidez da fraqueza, se eleve como revolução necessária em solo fértil. Na crônica “Canção da esperança incontida”, ele diz: “A esperança sempre será um caminho, um germinar de iluminuras - jamais uma espera. Estamos caminhando sobre navalhas”. Este mar de coisas pontiagudas a nos ferir será coberta pela delicadeza de nossa humanidade, parece nos dizer o autor.
Em “Lupas de elefante”, Letícia Palmeira vem responder às nossas questões filosóficas – quem somos e para que viemos - trazendo à lume questões presentes nas nossas relações em torno da vida. As lupas de elefante parecem bem dizer dessa maximização de nossa vista. O olhar é recorrente em seus textos, o olhar totalizante sobre as coisas do nosso universo cotidiano. Fala desde as miudezas (salão de belezas, novelas, amor virtual) aos temas mais sublimes como a amizade, o amor e a espiritualidade. Como uma arguta observadora da realidade, revela aos leitores as camadas superpostas do real sem temer represálias. Com ironia, sarcasmo e doçura, tudo misturado, faz de algo minúsculo uma coisa grandiosa, como se fosse possível cobrir a crosta dura da nossa realidade com o véu fino da poesia. Assim, suas crônicas se enchem de beleza pelo dom de observar com lupas de elefante, hiperbolizando o cotidiano com a lupa introspectiva de seu ser transbordante e aberto à imaginação mais fecunda.
Por fim, temos “Conversas de rodapé”, de Linaldo Guedes, que apresenta o lado mais humorístico do livro, como conversas que estendem os discursos críticos sobre várias temáticas nos rodapés da vida, fazendo a ponte entre a escrita (o miolo) e os rodapés (real), o que se expande do texto à sua continuidade e desdobramento no espaço exterior. O papel do escritor e do receptor, longe dos holofotes editoriais. Ele diz, em “Futurologia”: “Literatura não é o que você escreve. É o que os outros leem (mesmo que seja num futuro em que não sabemos qual)”. Com uma crítica mordaz, o autor nos fala sobre o universo da literatura com grande empenho, nos mostrando os acertos e mazelas do trabalho literário. Também discursa sobre música, política, sociedade e os relacionamentos humanos. O escritor aqui em questão faz um verdadeiro mergulho neste mar abarcante da literatura, descortinando para nós, leitores, o que se esconde por trás de suas dobras movediças, que, por lado, pode nos afundar, mas que por outro, pode nos libertar da nossa pequenez a partir não de uma vaidade ou bajulação empolgante, mas no nosso poder de criar e inventar através da mais bela poesia, o que nos torna sólidos como uma rocha em meio ao mar tempestuoso e contrário aos nossos sonhos.
Portanto, nestes quatro autores geniais, temos a expressão rica e original da criação literária, no terreno da crônica, trazendo para nós, leitores, os valores mais humanos, o que nos torna seres especiais, não em navegar no terreno movediço da liquidez imprecisa, mas no que nos solidifica enquanto pessoas que somos e nos adentramos na carnadura libertadora. Uma voz que não se afunda no mar vacilante do cosmos, mas que, humanamente, nos funda como uma fortaleza em meio à vastidão do real, que por ser flutuante, teme em fincar a solidez em lugar infértil. Mas pela força das palavras, da própria poiesis, tais escritores fundam castelos firmes como a utopia do visível sobre o invisível, da força sobre a fraqueza do nosso mundo ondulante e escorregadio. Não temos wi-fi nos conecta não através de senhas desconhecidas, mas a partir do familiar e habitual, da chama que reside em nosso interior.

“Não temos wi-fi”, coletânea de textos em prosa. Autores: Cyelle Carmem, Lau Siqueira, Letícia Palmeira e Linaldo Guedes, 90 págs., R$ 35,00, 2018.
Link para compra: http://editorapenalux.com.br/loja/nao-temos-wi-fi
E-mail: vendas@editorapenalux.com.br

*SOBRE A RESENHISTA

Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux.
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