terça-feira, 17 de julho de 2018

A humanidade que brota na liberdade das palavras, em Agora sapiens, de Camila Mossi


Por Alexandra Vieira de Almeida

Neste livro de crônicas, de Camila Mossi, Agora sapiens (Penalux, 2018), temos uma crítica ácida sobre nossa própria humanidade, naquilo que nos caracteriza como “sapiens” após muitos séculos de evolução. A escritora vem nos dizer da necessidade de buscarmos a sabedoria em meio a atitudes infantis e ingênuas que traduzimos ao longo da vida. Apesar do grande desenvolvimento tecnológico, o psicologismo humano nos deixou um legado anêmico de atitudes pueris e castradoras de nossa verdadeira identidade. Ainda somos “simulacros” e não conseguimos dar o grande salto humanístico de que precisamos. Parece-nos que ainda estamos na idade da pedra, apesar de tanto desenvolvimento político, econômico, social e tecnológico. Precisamos atar as pontas de nossa sabedoria com o desejo de liberdade, ultrapassando nosso mundo sufocante e paralisante. No Dicionário de símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, vejamos como eles caracterizam esta espécie, o homem: “O homem não deixou de a si mesmo se conceber como símbolo também. Em inúmeras tradições, desde as mais primitivas, ele é descrito como síntese do mundo, modelo reduzido do universo, microcosmo”. Mas para isto, Camila Mossi busca a completude entre o homem e àquilo que o rodeia. Mas o que vemos são choques e guerras, brigas e lutas, pela sobrevivência e pelo nosso próprio egoísmo. 
Numa linguagem cotidiana, como a crônica requer, a autora não deixa de ter o poder analítico afiado. Sua crônica vai além da superfície cotidiana para, a partir do aspecto filosófico, nos fazer pensar sobre nossa humanidade. Mossi leva o leitor aos labirintos tortuosos de nossos dilemas pessoais com grande argúcia e elaboração de uma linguagem perspicaz. Nas primeiras crônicas, ela tem uma crítica mordaz de como tratamos nossa sexualidade, que deveria ser válida não por seu caráter apenas animal, mas também pela sua característica implícita de erotismo, ou seja, o pensar sobre ela de maneira mais madura e adulta. Foi dessa forma que pensou o grande teórico Georges Bataille, que criticava a sexualidade puramente restrita aos instintos quando ela deveria ser tratada filosoficamente como dom erótico, de Eros, e toda sua simbologia rica e presente no nosso interior também, pois não só no externo que ela se verifica. Vejamos como Massad Moisés caracteriza a crônica na sua bela obra elucidativa Dicionário de termos literários, para percebermos a eternidade que extrapola o meramente convencional: “Modalidade literária sujeita ao transitório e à leveza do jornalismo, a crônica sobrevive quando logra desentranhar o perene da sucessão anódina de acontecimentos diários, e graças aos recursos de linguagem do prosador”. Camila Mossi ultrapassa o meramente convencional ao lançar seu grito de resistência, buscando uma realidade livre do moralismo pequeno e massacrante. E é através daquilo que nos torna humanos que temos de nos humanizar cada vez mais, fugindo de nossos instintos primitivos.
Outra marca exemplar nas crônicas de Mossi é sua capacidade de recontar, de reescrever o passado com os olhos do presente, como a crônica necessita. Numa das crônicas, ao pai explicar para o filho sobre políticos, Mossi retoma o mito de Camelot para recriar todo um cenário pós-moderno com tintas medievais, para mostrar que as coisas se repetem ao longo do tempo. E na crônica sobre a escrita, que fecha o livro, é magistral o recorte que a autora dá à linguagem que, ao mesmo tempo, que nos devora, nos ressignifica. Ela diz: “E a escrita vira a reprodução impessoal do mundo. E só. Cotidiana e necessária, mas banal”. A escrita, como disse Derrida (repensando Platão), no livro A farmácia de Platão, leva à diminuição de nossa memória, quando a oralidade reforçava nossas lembranças. A escrita é phármakon, tem seu remédio, por ser uma necessidade humana, mas traz também seu veneno, por nos escravizar a coisas medíocres e banais, como a autora nos revela na crônica “Não sabia, agora sapiens”. A linguagem da autora é uma lâmina que corta os véus da memória, trazendo à tona nossos segredos mais recônditos. Tudo é exposto no terreno da referência a partir da literatura. As veias humanas são expostas. Nossa identidade é revelada por uma linguagem clara e metamorfoseante. Seu texto é múltiplo e eficaz, desenrola a magia de nossa dualidade, que nos aponta para nossa própria humanidade e aquilo que se esconde nas nossas peles internas.
A autora traduz a relação entre o homem e o mundo no seu livro exemplar. O leitor busca essa totalidade a partir da síntese de suas crônicas que servem como metonímia da equação humanidade x universo. O grandioso Umberto Eco, em Seis passeios pelos bosques da ficção, assim disse sobre o papel do leitor na ficção: “Afinal (como já escrevi), todo texto é uma máquina preguiçosa pedindo ao leitor que faça uma parte de seu trabalho”. A autora aqui em questão torna estas lacunas possíveis de serem preenchidas pelos leitores argutos. A literatura seria uma forma de ultrapassar nossa bestialidade, a idade da pedra, e avançarmos por uma floresta de signos e símbolos que devem ser decifrados pelos leitores. Mossi faz um trabalho perfeito nas suas crônicas de verdadeiros diálogos com os leitores. É o questionamento que ela faz de nossa humanidade e o que devemos buscar para que o humano se torne cada vez mais possível num mundo que nos aprisiona com suas TVS que nos domesticam.
Mossi segue a grande máxima barthesiana que dizia que a Literatura tem que ultrapassar suas próprias fronteiras, aceitando o risco de extrapolá-la. Vejamos Barthes: “Ela também deve indicar alguma coisa, diferente de seu conteúdo e de sua forma individual, e que é o seu próprio fechamento, aquilo pelo que, precisamente, ela se impõe como Literatura”. A autora não foge a esta perspicácia ao utilizar no seu livro o conhecimento da mídia, da tecnologia, da história, da política, do mito, do bíblico e muito mais. A Literatura derruba seus muros de introspecção para se tecer como pontes de possibilidades através de seu viés transdisciplinar. Mossi rearranja tudo de maneira exemplar, fazendo de seu livro uma conjunção de conhecimentos outros. 

Portanto, Camila Mossi arquiteta seu livro com maestria e domínio da técnica da escrita com uma linguagem rica e plena de conhecimentos. É uma Literatura com “L” maiúsculo que nos faz pensar sobre nossa humanidade tão corroída pela sociedade tão cruel e ferina. Seu voo feérico alcança outras margens, nos faz enxergar sobre o quanto o homem precisa de outro ser para que a rede não se desfaça e que os nós da língua nos levem para aquilo que nos humaniza a partir das artes e dos saberes que nos devem tirar das gaiolas e nos lançar ao voo pleno dos pássaros livres numa sociedade mais justa e libertadora. Mossi vai fincar raízes no nosso lado humano e nos fazer olhar mais para dentro do que para fora, fazendo-nos acordar do sonho de nossa desumanidade. O olhar do ser é o olhar do outro que deve buscar a harmonia em meio ao caos circundante. Esta é a humanidade que brota na liberdade das palavras.

“Agora sapiens”, crônicas. Autora: Camila Mossi. Editora Penalux, 122 págs., R$ 36,00, 2018.
Disponível em: http://editorapenalux.com.br/loja/agora-sapiens
E-mail: vendas@editorapenalux.com.br

A resenhista:
Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux.
Contato: alealmeida76@gmail.com
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