sexta-feira, 27 de julho de 2018

Conversa de ônibus, um conto de Lorrayne Saraiva


*Por Lorrayne Saraiva

Eu não tenho o hábito de ouvir a conversa alheia. Em fato, eu tinha; mas mamãe e vovó fizeram o favor de aniquilar essa repulsiva mania de mim, desde que fui pega ouvindo atrás da porta e, precisei passar a tarde inteira ajoelhada no milho. Fiquei tão apavorada com o estado de minhas rótulas depois, que nunca mais espichei as orelhas para a conversa de ninguém... Até hoje.

Vivi uma manhã tumultuada: filhos chorando, marido reclamando, o relógio correndo mais do que eu, o encanamento dando problema, o telefone ficou mudo, e pra completar, queimei minha blusa favorita pois a esqueci debaixo do ferro de passar roupa... O atraso para o trabalho foi apenas consequência de uma corrente de infelizes acontecimentos. Quando cheguei no ponto de ônibus, estava em tal estado de estresse que, ao subir em um ônibus lotado – muito lotado – nem me incomodei com o aperto de corpos, casacos e bolsas – eu só desejava que aquele ônibus me levasse para longe dali, de mim, e de todo aquele caos pessoal.

Quis o destino que, o assento ao lado de uma mulher à minha direita ficasse vago. Rapidamente, sentei acomodando minha sacola com guarda-chuva e alguns livros no colo, e minha cabeça no encosto. Fechei os olhos, e respirei. O ônibus parou no sinal, mais alguns passageiros entraram, e assim ele seguiu seu caminho. Dentro de mim, uma fresta de alegria se abriu no meu muro de mau-humor; um agradável sol entrava pela janela do veículo e beijava minha face amorosamente com seu calor. Era bom. Relaxante. E de repente, entrei nesse estado de quase meditação: sentindo o calor, o balançar, o silêncio, até este último ser cortado pelo estridente toque de celular da mulher sentada ao meu lado. Ligeiramente irritada pela interrupção da calmaria que eu começava a conservar em mim, reparei na moça: tinha um comprido cabelo alaranjado, e uma franja cheia sobre os olhos verdes escuros, que ficavam por trás de óculos fundo de garrafa. Vestia talvez mais de dez tons de verde e, seu perfume parecia ser de chiclete, ou qualquer algo muito doce.

Ela disse ''alô'' com uma voz fanha, e arrastada que fez os pelos da minha nuca se eriçarem. Depois soltou um pigarro, e a voz melhorou.

Contrariada, virei para o lado da janela, e decidi bloquear o que a outra dizia ao meu lado, mas em dado momento, não pude mais deixar de ouvir:

— Maristela, eu te disse... Eu te disse que o sujeito não prestava! Ele abriu a cabeça da pobre Lígia com o facão de cortar carne da mãe dela! Foi uma desgraça... Foi, foi... Terrível! O homem é um Nosferatu, sabe? 

Repentinamente, todo o meu mundo entrou em desfoque total, e eu senti que havia nascido apenas para ouvir mais sobre o triste fim da pobre Lígia, e de seu Nosferatu.

E aquela naturalidade em narrar aqueles fatos... 

— Não, querida Mari, e você não sabe o pior!

Gelei! O que podia ser pior que partir o crânio de alguém em dois?!

— Isso mesmo! As calcinhas! — ela disse como se confirmasse um número de bilhete de loteria.

As calcinhas? Pensei com meus botões. O que tinha a ver calcinhas com o caso?

— Creio que foram duas calcinhas sujas, que ele encontrou penduradas na torneira do chuveiro. Encontraram-nas depois poucos metros do terreno da casa. Sim, foi com elas que limpou suas impressões digitais no facão.

Calafrios percorreram minha espinha. Pensei em todas as minhas calcinhas: a surrada bege muito usada, a fio dental vermelha, a azul turquesa estilo biquíni... Nenhuma delas serviria dignamente para limpar uma impressão digital. Não pareciam heroicas o suficiente.

— E depois, o Orlando passou mal, e por pouco não morreu também. — ela continuou a conversa no telefone. — Sim, o pobrezinho comeu os miolos da morta que ficaram caídos pelo chão.

O quê?! Senti o estômago embrulhar. O que diabos estava pensando esse homem em comer os miolos da morta?! Eu estava inteira arrepiada — era de longe, a pior história que eu já havia ouvido.

— Sim, sim. Levaram ele a tempo pra emergência do veterinário. E o bichano sobreviveu!

Deixei escapar um suspiro de alívio: era um gato, afinal.

— A gente tem que ter muito cuidado com esses homens. É verdade, Mari! Veja só você: o tal Alberto parecia ser um partidão, e era: acabou partindo a cabeça de Liginha. Pois sim, no começo era ''eu te amo'' pra lá, ''minha princesa'' pra cá, romance puro. Eles não se desgrudavam. Mas bastou um ato falho de Liginha e puff! Acordou no beleléu!

Àquela altura do campeonato, eu não sabia se queria saber o que raios a tal Liginha tinha feito pra acabar morta, na cozinha de casa, com a cabeça partida, tendo seu gato comendo-lhe os miolos. 

Imaginei-a muito branca, com os olhos vivos e castanhos emoldurados por cílios grossos e cumpridos. Em minha mente, ela vestia seu habitual vestidinho azul de florezinhas brancas, antes de morrer. Talvez estivesse na cozinha cozinhando o almoço - quem sabe, uma refeição para aquele que viria a ser seu assassino. Eu a vi, muito nitidamente: barriga encostada no fogão, boca cantando uma antiga cantiga, enquanto espiava, tranquila, um sol forte e claro entrar pela janela, acompanhado de uma leve brisa que fazia dançar as cortinas finas e rosas. Quando cozinhava, mexia os quadris, como sua mãe. Mas a especialidade da mãe era doce; Lígia quando menina se deliciava com os doces de abóbora, canjica, arroz doce que dona Mariana fazia. Era até meio gorducha. Depois que ficou moça foi que emagreceu – tomou corpo, e fisgou Alberto. Quem sabe eles tenham se conhecido na fila de algum parque de diversão. Se apaixonado na roda-gigante. Tomado milkshake de morango juntos. Depois, Lígia se desapaixonou de Alberto, e se encantou por Renato. Alberto não aceitou e, esperou sua deixa para pegar Liginha sozinha em casa, e acabar com a vadia.

— Acredito que suas palavras antes da condenação foram ''ela partiu meu coração. Então eu lhe parti o crânio!'' — concluiu a mulher à Maristela que provavelmente ouvia aquele relato tão horrorizada quanto eu. — Isso, isso! Em dez minutos chego aí! Vou descer do ônibus agora.

E com um movimento de erguer o braço, ela puxou a cordinha que sinalizava ao motorista uma parada, levantou do meu lado, e desceu.

E depois nada. Fiquei a sós com o fantasma de Lígia e sua cabeça aberta. De repente, me vi profundamente triste pela morte daquela mulher que eu jamais conheci — e que jamais conheceria. E quando o ônibus seguiu, chorei até chegar no trabalho.


*Lorrayne Saraiva escreve profissionalmente há 5 anos. Romancista, contista e poetisa, tem dois livros publicados: ''A Ajuda Veio do Céu'' (2014), Editora Schoba, e ''Sobre Vivência''  (2018), Editora Multifoco''. Além de publicar diversos artigos em sua página no Medium, e em outros veículos online.
medium.com/@lorraynesaraiva
Lorsaraiva21@gmail.com
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