sexta-feira, 27 de julho de 2018

Entrevista exclusiva com o escritor Júlio Emílio Braz, por Sérgio Simka e Cida Simka

Júlio Emílio Braz - Foto divulgação
Nesta entrevista exclusiva aos leitores da revista Conexão Literatura, o laureado escritor Júlio Emílio Braz conta sua trajetória literária, os seus livros de bangue-bangue, escritos sob pseudônimos, e fala sobre o ofício de escritor. E, no final, dá preciosas dicas para quem deseja ser escritor de sucesso. Acompanhem.

Você publicou quase 200 livros voltados ao público infantojuvenil, inclusive mais de 400 livros de faroeste com cerca de 40 pseudônimos diferentes. Fale-nos um pouco sobre sua trajetória literária.

Minha trajetória é fruto do acaso e da necessidade. Começo em meados de outubro de 1980, quando fiquei desempregado e não encontrava uma recolocação por sete meses. Um dia, um amigo de meu irmão, que trabalhava na antiga Editora Vecchi, me falou que eles estavam publicando revistas de quadrinhos e procuravam novos autores. Eu já escrevi e tinha pastas e mais pastas com personagens e sinopses de histórias. Como não tinha nada a perder, fui até lá e conversei com o editor, o Otacílio Barros. Ele foi extremamente generoso e pacientemente me explicou que nada do que eu havia levado interessava, pois as revistas nacionais que estavam publicando eram praticamente só de terror. No entanto, ele encontrou um personagem entre os tantos que levei, Pedro Salvaterra, que seria interessante. Suas histórias contavam as aventuras de um jovem dono de engenho em Pernambuco do século XVII, durante a Insurreição Pernambucana, lutando contra os invasores holandeses. Ele sugeriu que eu transformasse o personagem em algo relacionado a terror, pois havia potencial no personagem. Pensamos juntos e Pedro Salvaterra se transformou na mesa dele em Jesuíno Boamorte, um jovem senhor de engenho que, traído por companheiros de luta, é enforcado pelos holandeses. A negra que o criou resgata o corpo e apela às forças do mal para trazê-lo de volta à vida e se oferece em sacrifício para isso. Jesuíno ressuscita e passa a enfrentar os holandeses como um morto-vivo. Era para ser apenas uma história, mas a revista Spektro tinha uma pesquisa de opinião dos leitores no final de cada revista e assim que saiu, a história foi bem avaliada (em boa parte por conta do primoroso trabalho de reconstituição histórica do excelente desenhista Zenival Ferraz) e o Ota pediu para fazer novas histórias. Topei e escrevi outras tantas para as várias revistas da Vecchi e, posteriormente, de editoras paulistas como D'Arte, Maciota, etc. Nesse período criei um personagem de bangue-bangue, o negro Cyprus Hook, que saiu como revista na Vecchi e um outro roteirista me aconselhou a procurar um editor na Tijuca, Juan Salmeron, dono da editorea Monterey, que publicava livros de bolso de bangue-bangue. Fui, ele me pediu um livrinho e eu escrevi Nakoma, um bangue-bangue publicado sob o pseudônimo Jonathan Fox. Ali eu escreveria mais quarenta e poucos livrinhos. Assim busquei outros editores do gênero como a Cedibra e a Nova Leitura, fechando 412 livros efetivamente publicados sob 39 pseudônimos diferentes. Neste período tive algumas primeiras experiências de publicação no exterior: quadrinhos mais exatamente. Publiquei várias histórias em pequenos editores norte-americanos em parceria com Deodato Borges Filho, duas histórias de personagem meu, Leo Protheus & A Ultradefesa, com o mesmo ilustrador, na editora Meribérica-Liber de Portugal, e no mercado belga, com vários desenhistas, através da agência Commu  destacando-se Tambatajá, em parceria com Mozart Couto, Aventureiros da Solidão (que na Bélgica foi rebatizado como Orinoco) em parceria com Rodval Matias e Os Cavaleiros do Estandarte Ardente, em parceria com Márcio José Monteiro. De maneira completamente inesperada, uma certa época fui ao programa Sem Censura na TV Educativa (hoje TV Brasil) para falar exatamente do Tambatajá, que estava saindo em álbuns de quadrinhos na Bélgica, alguém me viu, me achou engraçado e me convidou para um teste na TV Globo e acabei escrevendo sketches de humor para o programa Os Trapalhões.

Como a literatura infantojuvenil entrou na sua vida?

A literatura infantojuvenil entrou na minha vida ainda quando eu estava fazendo bolsolivros e quadrinhos. Um ilustrador muito amigo, o paulista Roberto Kussumoto, me apresentou a Lino de Albergaria, que na época era editor na FTD, e ele me pediu para mandar um original infantojuvenil. Escrevi e mandei, mas neste meio-tempo, o Lino saiu de lá e o novo editor não se interessou pelo livro. Eu então fiquei enviando para várias editoras até que a antiga Atual Editora, através de Paulo Condini, o contratou e ele posteriormente foi publicado por Sônia Junqueira, ganhando o Prêmio Jabuti de Autor Revelação em 1989. Daí para diante eu gostei da área e do gênero e fui ficando, publicando vários livros também fora do Brasil, onde ganhei prêmios principalmente com o livro Crianças na Escuridão (publicado durante anos pela Moderna e neste mês sairá pela Editora FTD) em sua versão alemã (Kinder im Dunkeln). Ganhei o Austrian Children Book Award na Áustria, o Blaue Brillenschlangue, na Suíça, e fui menção honrosa em outro prêmio na Alemanha, todos no mesmo ano, em 1997. Atualmente tenho quase 200 infantis e juvenis publicados, também em línguas como inglês, italiano, espanhol, alemão e até dinamarquês e flamengo.

Você recebeu o Prêmio Jabuti pela publicação de seu primeiro livro infantojuvenil “Saguairu”. Em que medida esse prêmio mudou sua vida?


Ganhar um prêmio não te faz melhor autor e no Brasil, nem melhora seu saldo bancário, pois como disse o Caio Fernando Abreu na entrega do Jabuti em 1989, a maioria dos prêmios no Brasil são honoríficos e quando rola grana, é incentivo ou gravita sempre nos mesmos círculos. No entanto, ganhar um prêmio te qualifica. Você envia um texto submetendo à análise e você não é um candidato a autor enviando um original mas o ganhador do Jabuti de 1989 mandando um original. Chama atenção, né? Mesmo em um país amnésico como o Brasil (historinha engraçada: muitos anos depois de ganhar o Jabuti, recebo um catálogo da Scipione e lá, com todas as letras, aparecia um livro sendo identificado como ganhador do Prêmio Jabuti de Autor Revelação de 1989 e não era meu livro. Estrilei e corrigiram, mas...).

Você é um escritor profissional, enquanto muitos brincam de escrever. Fale-nos sobre seu ofício.

Cara, minha mãe era lavadeira, mas você precisava ver a velha quando ia buscar a roupa suja na casa das clientes ou quando ia levar (eu sou testemunha ocular, pois como filho mais velho, sempre ia junto). Parecia a dona da roupa. Ela ficava fula da vida com aquelas lavadeiras que iam toda esculachadas e voltavam da casa das patroas carregando trouxas na cabeça (segundo ela, era uma trouxa carregando a outra). Ela insistia na dignidade, em receber o devido valor pelo bom serviço que entregava e isto me influenciou quando virei escritor. Respeito e até admiro quem consiga compatibilizar um emprego, seja qual for ele, com a atividade literária, mas quando decidi ser escritor, resolvi acrescentar a palavra profissional ao meu ofício. Vivo disso, leio e escrevo todo dia para me aperfeiçoar. Nunca ganharei o Nobel, mas além de me sentir compelido a escrever (parafraseando Stephen King), passo o tempo todo me aperfeiçoando para ser o melhor profissional possível, mesmo vivendo em um país periférico em termos de produção de cultura e grande importador e consumidor de cultura alheia, notavelmente norte-americana. Claro, pagando o ônus por essa escolha: amadorismo editorial, menosprezo à cultura de uma maneira geral (gosto sempre de um diálogo contado a mim por um escritor, Luís Antônio Aguiar, dele com um editor que lá pelas tantas o questionou: E você quer viver de livro? A resposta do Luís foi assaz oportuna e pertinente: Claro, você não vive?) e aquela visão paternalista de que cultura tem que ser de graça. Cultura, educação, artes não devem ser de graça simplesmente porque escritores, ilustradores, diagramadores, professores e até o caminhoneiro que transporta o livro comem, bebem e pagam impostos. Simples assim. Além disso, eles estudam, se aprimoram para serem o melhor possível no que fazem. Partilho outra opinião fundamental de minha mãe: o de graça não tem valor. Ninguém valoriza o de graça. Contraditoriamente, especialmente no Brasil, essa visão está presente na sociedade e alegremente cultivada por nossos governantes. Alguns até têm a pachorra de dizer que "o artista vive pelo aplauso" (um certo prefeito cujo nome me recuso a declinar mas que qualquer leitor de jornal carioca deve conhecer). Ao contrário do que disse uma ex-esposa, não sou um Dom Quixote delirando na crença de que posso viver de escrever, mas adoro a imagem de Sancho Pança, os dois pés firmemente apoiados no chão, realista a Bizarrice, acordando cedo e batalhando para viver de escrever, inclusive começando a me entregar à mais-valia absoluta, ou seja, a de vender também o que produzo, o que significa que imprimirei, divulgarei e distribuirei também meus livros (o que foi interpretado por um livreiro de Uberlândia como sinal de decadência do autor, pois para ele e para muita gente no Brasil, dentro do mais cristalino da nobreza falida ibérica, um artista tem que ser aquela figura aristocrática, venerada em sua ociosidade mesmo que criativa; ainda bem que sou um operário com O Capital em uma mão e A Riqueza das Nações na outra, o que muitos bobos acreditam ser livros irreconciliáveis, certamente porque não leram os dois direitinho). Claro que é difícil quando você sai da favela da Maré, passa a maior parte da vida vendendo o almoço para comer a janta e investe a partir do dinheiro que ganha sobre a venda de seus livros (acreditando que os valores apresentados são verdadeiros ou pior ainda, quando não ganham calotes), tendo que escrever velozmente para sobreviver, ou seja, assumindo a máxima de Thomas Alva Edson: criação é geralmente constituída por dez por cento de inspiração e noventa de transpiração. Inspiração é coisa que se busca quando o seu mês começa com um salário fixo. Quando seu mês começa no zero, transpira-se para criar ou produzir. A minha sorte é que, como todo ariano, sou teimoso, cabeça dura e como tal, queimei a ponte quando atravessei para este lado de minha vida. Sou técnico em Contabilidade, professor de História e já fui de office boy a jornaleiro, na boa. Todavia, a literatura é a minha vida. Ganhei bem com ela e esse papo-furado de que não dá para se viver de literatura no Brasil é o que é, papo-furado. Meu problema é que sempre acreditei que dinheiro não é um fim mas um meio e de vez em sempre exagerei, me obrigando a ser uma Fênix permanente, renascendo de tempos em tempos. Estou em mais um momento Fênix, já saindo dela com uma microscópica editora debaixo do braço. Não sou filho de pai assustado e sempre preferi errar com convicção a ficar na segurança pusilânime de minha covardia cotidiana.

Como analisa o mercado editorial no Brasil?

Como analiso o mercado editorial no Brasil? Semiprofissional como todos os setores profissionais no Brasil. País de panelinha não conseguirá nunca ser profissional em nada.

Como vê a questão da leitura no país?

Vou ser sincero: em termos de quantidade de livros, a leitura no Brasil melhorou demais. Sou do tempo em que os livros na biblioteca na escola eram velhos e raros. A biblioteca era rara e uma pessoa responsável por ela e pela leitura em si no ambiente escolar, algo mais alienígena do que os incas venusianos no seriado do Nacional Kid. Isso mudou e melhorou. O grau de interesse pela leitura é que ainda me deixa acabrunhado e não é o problema da má qualificação profissional do professor, do desinteresse do político, que ainda acredita que investimento em escola é construir o prédio da escola, mas da sociedade em si. Isso é histórico. Pegue qualquer bom livro de História e você vai encontrar isso na formação do país, quando o governo colonial proibia a população de ter e ainda mais, ler livros. Liberado mesmo, apenas a Bíblia, e como sabemos, ela era em latim, pois a missa também era. A primeira biblioteca chegou com a família real em 1808 e o primeiro jornal, idem. Um pouco antes, um gráfico português peregrinou um tempão pelo Rio tentando abrir uma gráfica e nunca obteve a bendita autorização. Desde sempre no Brasil leitura e conhecimento se fez como poder e as melhores escolas eram em Portugal e claro, apenas para a elite que nos governa até os dias de hoje. A grande maioria da população não ia à escola e consequentemente, não tinha nem acesso e/ou interesse em livros ou leitura. Os escravos, inclusive, desde a Constituição de1824, não tinham direito a qualquer tipo de educação e o dono de escravos que ousasse fazê-lo, ainda poderia sofrer sanções legais. Isso se reflete até na desumanização de nossa sociedade: recentemente eu li na revista Piauí uma matéria falando sobre a região do Calabouço no Rio, que nos tempos do império, tinha o dito-cujo calabouço onde os moradores da cidade, por lei, eram obrigados a levar seus escravos desobedientes para serem castigados. Castigo: 200 a 300 chibatadas. Amigos, romanos, concidadãos, vocês imaginam alguém recebendo tal castigo? Em termos estritamente econômicos, já que naquela época um escravo era uma peça, e não um ser humano com direitos e deveres, estava se danificando a sua propriedade. Só em termos de comparação, no sul dos Estados Unidos, cujo histórico de racismo e preconceito torna-se ocioso mencionar, o castigo máximo era de 25 chibatadas. O que tem a ver isso com a leitura? Uma sociedade que naturaliza um castigo brutal de 200/300 chibatadas é tudo menos humana, e como sabemos, filosoficamente, para se enxergar e enxergar-se no outro, é preciso enxergar a humanidade no outro tanto quanto em si mesmo. O único caminho é a leitura. Aliás, a leitura singulariza o humano e a sua ausência, avaliza o instinto, o pouca farinha, meu pirão primeiro tão tipicamente brasileiro e definido pela frase de Lima Barreto que dizia: "O Brasil não tem povo, mas tem apenas plateia". Enquanto não enxergarmos a leitura e a educação como um bem inestimável e isso não ocorre de modo minimamente aceitável no país, seremos essa grande confederação espúria de 220 milhões de Brasis, hobessiana pura, no sentido do todos contra todos.

Qual a dica que você daria para quem pretende ser escritor?

A dica para alguém que quer ser escritor é: leia sempre, leia tudo, principalmente o que não tem nada contigo, escreva, mas, antes de mais nada, reescreva sempre, seja insatisfeito consigo mesmo, e de tempos em tempos, ignore aqueles que perguntarão a ti o que você realmente faz para viver.

*Sérgio Simka é professor universitário desde 1999. Autor de cinco dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a coleção Mistério, publicada pela Editora Uirapuru. Membro do Conselho Editorial da Editora Pumpkin.

Cida Simka é licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Coautora do livro Ética como substantivo concreto (Wak, 2014) e autora dos livros O acordo ortográfico da língua portuguesa na prática (Wak, 2016), O enigma da velha casa (Uirapuru, 2016) e “Nóis sabe português” (Wak, 2017).
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