sexta-feira, 24 de agosto de 2018

A irremediável despedida - Idianara Lira Navarro

Caminho calmamente e a cada passo que dou sinto adentrar-me na escuridão da noite. As sombras me possuem e envolvem cada vez mais. Sobre meus ombros caem grossos pingos de chuva e por meu rosto, passam longos dedos de um vento gélido e cortante. Como um mero espectador da vida, observo as folhas desprenderem-se das árvores numa espécie de suicídio coletivo. 

De repente, vislumbro um grupo de pessoas que em círculo dirigem olhares pesarosos para algo estendido sobre o asfalto.  Aperto os olhos na ânsia de vislumbrar o que é, então entre a nebulosa dos faróis, descortina-se algo que me surpreende: ali jazia meu corpo caído sobre um grande manto escarlate que se estendia pouco a pouco pelo chão.

Olho ao meu redor e não consigo encontrar significado em nada do que vejo. De repente ouço um grito dilacerante e entre aqueles que observavam a lastimável fatalidade, surge minha esposa aos prantos. Ela então, senta-se no asfalto molhado de chuva e de sangue e carinhosamente aconchega minha cabeça em seu colo e sussurra em meu ouvido: 

- Não vá por favor! O que será de nós sem você? O que será de mim sem seu amor?!

Tento lhe dizer que também a amo, muito, que a vida ao seu lado fora incrivelmente bela e permeada de todos os sentimentos e alegrias que apenas um lar repleto do mais puro e intenso amor pode alcançar, mas infelizmente minha voz já não é audível. Neste instante, penso no maior presente que ela me dera: nossa filha, uma criança tão doce e amável que era capaz de acalentar até os mais duros de coração. Em minha mente, recordo seu esplendoroso sorriso de criança sempre que eu abria a porta de casa e ela corria para me abraçar.

Ah como queria agarrar esta vida e tê-la para toda a eternidade! Em pé na chuva assistindo minha despedida deste mundo chorei, mas não eram lágrimas de tristeza, eram de agradecimento e alegria por tudo pelo qual eu fora agraciado, afinal poucos são aqueles que assim como eu, chegam ao fim de suas vidas ostentando um coração repleto de amor e infinita felicidade.

Em seguida, notei que o negrume da noite se intensificara, as estrelas apagavam-se uma a uma e eu já não sentia o toque da chuva em minha pele. Chegara o irrefutável momento de minha partida. Fechei os olhos e tomado pela crescente nostalgia de tudo que eu vivera durante meus 30 anos, fui invadido por uma imensa saudade e a certeza plena de que no coração dos que me amavam eu para sempre existiria.


* Pintura de Leonid Afremov
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