quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Vintém de Cobre – Cora Coralina


“Seu Vintém de Cobre é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não se pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia (...)”

Carlos Drummond de Andrade – Rio de Janeiro, 7 de outubro de 1983


Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha, de Cora Coralina, foi publicado pela Global Editora em 2013 (10ª edição).

A Ana do subtítulo é a própria autora, cujo nome de batismo é Ana Lins dos Guimarães Peixoto. Na obra ela nos conta casos que se passaram na cidade de Goiás – uma cidade que nasceu no ciclo do ouro e teve seu auge no século XVIII. Ali já acontecia a tradição de contar casos.  Tradição que ganhava ainda mais força com as lendas que permeavam as construções do local. Os mais velhos contavam casos para as crianças e isso, decerto, ajudou na formação dos pequenos que aprenderam a contar histórias. Cora Coralina traz em sua obra muito dessa oralidade que era transmitida nessas contações. Vale também dizer que a obra da autora traz em seu cerne a questão da tradição passada, fixando-a no presente e deixando-a registrada para o futuro. 

Em Vintém de Cobre, Cora Coralina nos leva a conhecer personagens que fizeram parte de sua vida e reconstrói (ou melhor, reconta) a história de sua cidade, de sua infância, de seus sentimentos, das vivências na Fazenda Paraíso e traz ao leitor uma gama enorme de hábitos interioranos e da vida de gente simples, mas com grandes ensinamentos. 

Estão expressos também em seus poemas a visão sobre determinados hábitos, como a forma com que os adultos tratavam as crianças, a forma com que os viajantes eram recebidos, os traumas de uma infância cheia de percalços. Aninha, a pequena menina, não era tida como inteligente por sua professora, inclusive chegando a ter sua capacidade de escrever questionada. Então, o livro passa por momentos felizes, mas também demonstra aqueles momentos tristes e emocionantes que ficaram marcados na infância de Cora Coralina e como ela conseguiu superá-los.

“... saborosa me pareceu sempre a linguagem dos simples.”

Em seus poemas há muito de uma simplicidade que nos toca, que mexe com memórias e imaginários. Clarice Lispector dizia: “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”. E, Cora Coralina, é assim. Suas palavras traçadas uma a uma nos levam para um caminhar na literatura que parece simples, mas é muito bem contado, costurado, engendrado. E a força de sua poesia está, creio eu, na simplicidade que consegue alcançar o leitor de um jeito único.

“Detesto os que escrevem mal e publicam livros.
A maior dificuldade para mim sempre foi escrever bem.
A minha maior angústia foi superar a minha ignorância.
Confesso com humildade essas verdades simples e grandes.”

O livro percorre “da infância longínqua à ancianidade presente”, como diz um verso de O Cântico de Aninha. Divide-se em três partes: Livro I – Meias-Confissões de Aninha; Livro II – Ainda Aninha...; Livro III – Nos Reinos de Goiás e Outros.

Cora Coralina, ao mesmo tempo que nos conta algumas passagens de sua vida, expressa observações tenazes que deixam um sabor de reflexão. Ela mesma o faz em seus poemas. As palavras ganham ritmo pelas frases que soam cantadas, com aquela oralidade de quem conta casos sem, no entanto, ser um conjugado de rimas.

Alguns vocábulos que usa estão em desuso, foram próprios de um tempo e de uma região, mas foram por ela herdados da avó. Reflete-se, pois a tradição de um passado que toma nota de nostalgia nas lembranças de quem escreve e ressoa, para quem lê, como uma viagem para o passado.

Cora fala do nascer antes do tempo, de gente antiga (“sábia, sagaz e dominante”), do seu melhor livro de leitura, do peão e seus deveres, da Fazenda Paraíso,  da escrita, das práticas do povo da roça, das pessoas da família, dos sonhos de infância, dos medos, das normas de educação, de presidiários, de  carreiros, de lavadeiras, de moços e de homens, da vida.

Muitas pessoas devem ter tido algum encontro casual com Cora Coralina, em frases que são espalhadas pelas redes sociais. Mas, adentrar o universo literário da autora, dá outra sensação. Uma sensação de estar imerso em boas e bem traçadas palavras. A simplicidade a que me referi antes dá um toque especial, pois é um livro que pode ser lido e compreendido por qualquer pessoa. Seus poemas tornam-se aqueles que gostamos de ler e reler. Com Vintém de Cobre essa foi a minha experiência. 

Mesmo depois de concluir a leitura, voltei algumas vezes para reler alguns poemas. E cada mergulho novo na leitura conseguimos detectar mais do que está ali implícito, da mensagem que ela transmite, da singela forma com que constrói seus versos e toca o leitor.

“... nós temos medo de ser originais. Sermos os primeiros.
Preferimos a estrada palmilhada, a retaguarda cômoda.
Temos medo de conquistas novas no campo do idealismo.
Vamos chanfrando, rotineiros.”

Ler Cora Coralina é uma experiência rica, uma lição de vida. É também um querer mais e dá vontade de mergulhar fundo em toda sua obra.

Sobre a autora:


Cora Coralina é o pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto (1889-1985). Nasceu na cidade de Goiás, antiga Villa Boa de Goyaz. Filha de Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, desembargador nomeado por D. Pedro II, e de Jacinta Luísa do Couto Brandão. Foi criada às margens do rio Vermelho, em casa comprada por sua família no século XIX, quando seu avô ainda era uma criança. Estima-se que essa casa foi construída em meados do século XVIII, sendo uma das primeiras construções da antiga Vila Boa de Goiás. Aos 15 anos de idade, Ana vira Cora, derivativo de coração. Coralina veio depois, como uma soma de sonoridade e tradução literária.

Poeta e contista brasileira de prestígio, tornou-se um dos marcos da literatura brasileira. Cora Coralina iniciou sua carreira literária aos 14 anos com o conto “Tragédia na Roça” publicado no “Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás”.

Casou-se com o advogado Cantídio Tolentino de Figueiredo Brêtas e teve seis filhos. O casamento a afastou de Goiás por 45 anos. Ao voltar às suas origens, viúva, Cora Coralina iniciou uma nova atividade, a de doceira (conheça a obra Doceira e Poeta). Além de fazer seus doces, nas horas vagas ou entre panelas e fogão, Aninha, como também era chamada, escreveu a maioria de seus versos.

Publicou o seu primeiro livro aos 76 anos de idade e despontou na literatura brasileira como uma de suas maiores expressões na poesia moderna. Em 1982 – mesmo tendo estudado somente até o equivalente ao 2º ano do Ensino Fundamental – Cora Coralina recebeu o título de doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Goiás e o Prêmio Intelectual do Ano, sendo, então, a primeira mulher a receber o troféu Juca Pato. No ano seguinte foi reconhecida como Símbolo Brasileiro do Ano Internacional da Mulher Trabalhadora pela FAO. Morreu em Goiânia, aos 95 anos, em 1985.

Após a morte da poetisa, amigos e parentes se reuniram e criaram a Associação Casa de Cora Coralina em 27 de setembro de 1985, mantenedora do Museu Casa de Cora Coralina. Entidade de direito privado, sem fins lucrativos, regido por um Estatuto, que tem como finalidade: “ projetar, executar, colaborar e incentivar atividades culturais, artísticas, educacionais, ambientais, visando, sobretudo, a valorização da identidade sociocultural do povo goiano, bem como preservar a memória e divulgar a vida e a obra de Cora Coralina.

Ficha Técnica

Título: Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha
Escritor: Cora Coralina
Editora: Global Editora
Edição: 10ª
ISBN: 978-85-260-1888-4
Número de Páginas: 240
Ano: 2013
Assunto: Poesia Brasileira


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