sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Circuito de Compaixão, por Roberto Fiori


Janet Shand, em um futuro não tão distante, foi acometida por stress e teve de ser internada. Seus afazeres domésticos haviam sido demasiado difíceis e pesados para ela, que não suportou o trabalho de manter a casa e cuidar do marido. Todos na vizinhança já possuíam um robô doméstico, que os livrava da tediosa e cansativa tarefa de limpar suas casas, fazer a organização das contas, cuidar dos filhos e do marido.

Janet não era uma mulher preconceituosa. Mas, por mais que seu marido insistisse, não aceitara nunca ter um robô-criado. Pensava que ele iria perturbar sua vida particular, imiscuindo-se em assuntos pessoais e lhe causando o mal-estar que sempre sentia quando estava perto de um robô, na casa de amigos ou nas ruas. Mas agora, o próprio médico particular que a atendera no hospital onde fora tratada recomendara efusivamente um robô — ou Janet estaria de volta àquele lugar em dois meses.

Durante sua internação, Janet convivera por dias com seu robô-enfermeira e mudara de opinião quanto àqueles dispositivos mecânicos. Com prazer, aceitara a ideia de ter uma máquina daquelas em sua casa. Concordara que o motivo de ter sido internada e tratada fora o de nunca ter aceito passar as responsabilidades mais cansativas da manutenção de seu lar para um robô-criado.

Hester era um robô de última geração, assim como o robô-enfermeira que cuidara de Janet Shand. Incansável, com força sobre-humana, ainda assim era amável e cuidadosa com relação à sua proprietária. Passava horas ouvindo seus problemas e, atenta ao menor sinal de fraqueza, levava Janet no colo para o andar de cima da casa, embalando-a e colocando-a para descansar na cama. Hester não desejava ver sua dona — depois de alguns dias de convivência, era mais do que sua dona, era uma amiga verdadeira — exausta ao receber o marido, que vinha do trabalho cansado no fim do dia, e se preocupava como ninguém com o bem-estar da esposa.

Um dia, Janet se sentiu muito cansada. Falou para Hester que lhe invejava a sua disposição incansável e ser tão terna e amiga com ela, tão atenciosa. Disse que estava preferindo a morte a viver naquele corpo humano frágil e sempre fatigada. Hester falou francamente a Janet que tinha pena dos seres humanos, por terem de viver em seus conchas corpos frágeis e tão precários. Disse a Janet que os robôs possuíam, além de força superior, a característica de nunca sentir dor e sempre poderem substituir seus membros e componentes eletrônicos, mantendo-se como novos. Janet chorou. Falou que daria tudo para não viver mais em um corpo orgânico, não queria mais viver, se fosse daquela maneira. Hester compreendeu. E Janet foi submetida a uma operação, com recomendações da robô doméstica, operação que foi concordada pelo marido, apesar de nunca lhe terem dito que tipo de procedimento seria efetuado. Ele assinou o impresso para permitir a operação no hospital onde a mulher fora acomodada, sendo preparada para ser operada, mas estranhou os médicos terem lhe dito que não poderia visitar sua esposa, pelo menos não até a operação ter sido executada.

Quando Janet teve alta, após ser operada, e levada para sua casa, o senhor Shand correu para vê-la, interrompendo seu trabalho no emprego e cometendo uma dúzia de infrações de trânsito, para chegar o mais rápido possível para junto de sua esposa enfraquecida. Chegando a sua residência, ignorou o apelo de Hester, que queria avisá-lo sobre o caráter da operação. Subiu o lance de escadas e entrou no quarto de casal.

A mão de Janet estava gelada. Seu braço também. Era como se... o marido afastou um pouco a blusa de sua esposa e gritou. Gritou e correu como se tivesse demônios nos calcanhares. Correu para fora do quarto. Escorregou no alto da escada e caiu de cabeça, batendo-a nos degraus enquanto despencava até o andar térreo. Hester examinou-o. Constatou fratura na espinha, além de ferimentos graves nos membros. Uma leve concussão cerebral não era problema, o crânio não fora severamente afetado.

Então, telefonou para o hospital e requisitou uma ambulância para levar o senhor Shand até lá. Janet assinaria o impresso de concordância em fazer a mesma operação que ela havia sido submetida: substituir seu corpo humano decrépito por um mecânico, cuja pele se diferenciava da humana por ser mais perfeita, e ainda viver com muito mais força e incansável disposição para as tarefas pesadas do que quando possuía um corpo humano meramente orgânico.

Um circuito de compaixão avaliava o quanto de benefício um ser humano teria, caso um robô tivesse de tomar uma decisão que afetasse o homem. Este conto, “Circuito de Compaixão” (“Compassion Circuit”) é uma pequena história de horror envolvendo robôs. Publicada na antologia “The Seeds of Time”, do excelente escritor John Wyndham, veio a ser traduzida para o português pela Editorial Caminho Ficção Científica, em 1985, sob o título “As Sementes do Tempo”

Em uma sociedade onde o trabalho monótono, tedioso, ou muito desgastante era deixado a cargo de robôs, os seres humanos possuíam muito mais tempo para se dedicar a atividades intelectuais, tomada de decisões ou simplesmente para o lazer. O máximo do bem-estar era proporcionado pela tecnologia de ponta, em um nível tão elevado, que podia construir robôs que pensassem como seres humanos e cuja aparência fosse semelhante — ou mais — aos homens e mulheres.

Neste conto de John Wyndham, nem tudo era perfeição: Hester, um dos mais modernos robôs já construídos, conseguido pelo senhor Shand através de pressão sobre as autoridades competentes pelo médico que tratara do stress de Janet, em um pedido de urgência especial, falhara em algumas ocasiões. Começara a andar em círculos sem parar, uma vez. E em outra, apanhava e manipulava objetos que estavam a cinquenta centímetros à esquerda de sua mão. Ora, isso fora o de menos, um mecânico de robôs, mais parecido com um médico de humanos que com um técnico de robótica, cuidara de tudo e consertara Hester. Ela voltara a ser a mesma de antes.

Isso me faz pensar em algo mais sério. Em fins do século passado, foi a público uma quase-catástrofe nuclear envolvendo os Estados Unidos e a antiga União Soviética. Computadores do NORAD, o centro de defesa dos americanos, apresentaram falhas. Falhas gravíssimas, que teriam posto fim à Humanidade e a toda a vida na Terra. Registraram um ataque vindo da União Soviética e armaram seus mísseis balísticos intercontinentais de longo alcance. Por muito pouco, eu não estou redigindo hoje este artigo. Por muito pouco o Homem não se destruiu completamente. A falha foi detectada a tempo e foi cancelado o contra-ataque contra os soviéticos. A causa foi um erro na programação dos computadores, que mais cedo ou mais tarde levaria a uma guerra nuclear. Não havia nenhum ataque nuclear vindo dos soviéticos.

Os sistemas de defesa nucleares dos países detentores de armas atômicas são todos controlados por computadores. Computadores são máquinas ultramodernas, em especial os supercomputadores. Ainda assim, o ser humano é quem os programa. E o homem é passível de erro. Erros humanos na programação de computadores são comuns. Ora, em dispositivos de lançamento de mísseis nucleares, o erro não pode existir. Qualquer falha nos computadores, devido ao homem que os programa, ocasiona situações de risco altíssimo.

Um robô é um dispositivo que se movimenta, apanha objetos, conversa com crianças e adultos, auxilia na educação de crianças, pelo menos os poucos mais avançados que existem hoje. Ainda assim, sua Inteligência Artificial (I.A.) está tão abaixo do nível intelectual de uma criança, que ele não consegue distinguir dois objetos que não estão registrados em sua memória. Ele os ignora. Para que um robô possa agir de modo semelhante ao ser humano, teria de se valer de uma memória vasta, muito mais vasta do que a que está implantada atualmente nos melhores modelos.

Mais: não custa lembrar de um fato muito importante: um robô não terá nunca emoções. Emoções verdadeiras. Pode-se programar um robô para que ele simule o choro e verta lágrimas compostas dos mesmos componentes da lágrima humana, vindos, digamos, de um reservatório interno a ele que libere o líquido para os olhos artificiais do robô. Pode-se fazer o robô chorar a cada vez que veja uma determinada situação, uma discussão violenta e apaixonada, por exemplo. Mas sentimentos são parte integrante do inconsciente humano. O inconsciente humano é o reservatório onde estão armazenados sentimentos, emoções, lembranças reprimidas, enfim, é nossa parte psíquica.

Não se pode programar com números, ou letras, ou símbolos um robô para que possua sentimentos de compaixão, como os robôs de Wyndham. Em primeiro lugar, sentimentos não são computáveis, são abstratos. Em segundo lugar, o inconsciente humano é algo tão complexo, que só é possível acessá-lo mediante técnicas psicanalíticas que envolvem a Psicanálise dos Sonhos, entre outras ferramentas psicológicas.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem. 

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
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