sábado, 1 de setembro de 2018

Érika Suzuki e a VI Feira de Troca de Livros da EE Profa. Inah de Mello, por Sérgio Simka e Cida Simka

Equipe da Feira de Troca de livros - foto divulgação
Fale-nos sobre você.

Sou formada em Letras. Já fiz especialização em Administração Escolar e em Educação Especial, esta última minha atual paixão na área da Educação, motivo de meu envolvimento em cursos e projetos de pesquisas até hoje.
Atualmente, trabalho na E.E. Profa Inah de Mello, em Santo André (SP), há exatos 18 anos, e sou professora coordenadora desde 2007. E um ponto de trabalho muito interessante desta unidade é sua atuação em excelência no atendimento ao aluno deficiente visual, com um aparato de recursos técnicos para este público-alvo da educação especial (PAEE).

ENTREVISTA:   

Fale-nos sobre a feira de troca de livros.

Nos últimos anos, tem se tornado cada vez mais presente a tecnologia em nosso dia a dia. Este é um avanço que colabora e auxilia a vida moderna. Isto é fato, e incontestável. Mas em um país com o histórico de não ter o hábito da leitura introjetado em sua cultura, o atrativo tecnológico não permite ao brasileiro que ele se torne nem mesmo um leitor mais assíduo na era digital. Para esta preguiça em ler, a escola se vê na tentativa incessante de criar condições de leitura ao jovem aluno. Ainda que consideremos que ele leia no celular ou em qualquer outro aparato tecnológico, nem todos têm este acesso disponibilizado ou mesmo quando têm, não costumam utilizá-lo para a leitura de um livro.
Além desta preocupação diária de estimular e de fazer com que os jovens leiam, os padrões engessados de cobrança da leitura de um livro sempre foram algo penoso para os que estão na escola. “Tem de ler inteiro?”, “Vai ter prova?!”, “A gente pode ler só um capítulo?!”, ou mesmo o clássico “Vou ler o resumo na internet!!!”. Enfim, nestes moldes, é chato e não há nenhum prazer nisso. E eu concordo com os alunos.
Todo este perfil do jovem, atualmente, nos fez criar na escola a feira de troca de livros, um evento mais atrativo e mais convidativo para este público no intuito de criar o início de uma relação: manusear, folhear, se divertir e ler fora do ambiente opressor que é uma sala de aula que ainda se limita a mesas, cadeiras e uma lousa. Triste, mas real. Assim, o evento se tornou um motivo para ler e trocar experiências de uma forma mais divertida e descontraída. E parece que tem dado certo.

Como surgiu a ideia?


Quem é formado na área da educação e tem adoração por livros, acaba sempre atento às ideias de promover diferentes oportunidades de acesso aos alunos. A prática da troca de livros não é inusitada, nem de nossa autoria. Tudo isso é sabido. Com as nossas experiências em visitar os espaços com os mais variados moldes, um dia a ideia acendeu quando vimos alunos que tinham acabado de ganhar títulos nobres dos clássicos literários, em excelentes publicações, encaminhadas pelo governo, jogarem estes exemplares no cestão de lixo, ao ir embora. O quê? Como assim? Não poderia ser verdade. Mas era.
O hábito inexistente do gosto pela leitura, pelos livros, provoca mesmo estas reações: o desprezo por um presente tão rico e cheio de possibilidades. E não havia nem tempo hábil de se analisar as obras para montar projetos de leitura. Os livros já tinham sido abandonados no lixo, no banco da praça, no fundo da sala, e até nas sucatas de casa. Era uma quantidade muito pequena de alunos que ficavam com os livros.
Foi a partir deste incidente que nasceu a nossa feira, uma tentativa de conquistar este jovem prodígio em leitura em gostar, pelo menos, de lidar com os livros.
A primeira edição da feira aconteceu dentro da sala de aula. Propusemos que trouxessem um livro (aqueles recebidos pelo governo) ou um gibi usado e em bom estado para trocar por um outro título com os amigos da sala, ou se não quisessem trocar, que pelo menos presenteassem quem gostasse de livro. E a feira foi crescendo.
Hoje são arrecadados milhares de livros. Eles são distribuídos em bancas, como em feira livre. Tem banca de poesia, de contos, de literatura estrangeira, de clássico nacional, de gibis..., recheadas de títulos trazidos pelos alunos e advindos de doações. 


Como se elabora a programação?


Outra preocupação que nos ocorreu nas edições posteriores deste evento era a de não ter a troca pela troca e não torná-la outra cobrança desagradável entre os muros da escola.
Para isso, começamos a partir da segunda edição a convidar palestrantes, escritores (você, inclusive, Simka, foi um dos primeiros a aceitar o desafio, lembra?), contadores de história e outros profissionais ligados ao mundo dos livros para compor atividades temáticas para ampliar o mundo de reflexão dos nossos alunos no dia da feira. No ano passado, outra personalidade que aceitou o desafio foi o escritor Frei Betto. Adoraram o bate-papo com o Frei, alunos, professores, funcionários e convidados. Já passaram por lá tanto escritores do ABC, que fazemos questão de que marquem presença, como novos nomes da literatura fora do Grande ABC: Renata Kyrillos, Thales Mendes, Edmir Camargo, Wanderlei Grenchi e Ricardo Lísias, este já ganhador de prêmios como o Telecom, dentre outros.
Todo ano, meses antes da data da feira, enviamos os convites a nomes de destaque no tema escolhido para os trabalhos e elaboramos nosso cronograma. E concomitante às oficinas, aos debates, e aos bate-papos literários, os alunos também são motivados a desenvolver trabalhos para o dia do evento.
Hoje em dia, é bem divertido, começa o ano, já tem sempre um grupo de alunos ou de professores que vem cheio de novas ideias para compor na Feira de Troca de Livros.
Acabou se instaurando uma cultura. Dizemos que pelo menos uma barreira conseguimos derrubar. Não basta, mas faz muita diferença.

Quantas pessoas estão envolvidas?


Como todo projeto em escola, os que melhor terão êxito e frutos positivos são aqueles trabalhos que conseguem mobilizar um maior número de adeptos. Temos uma direção bastante flexível e incentivadora destas práticas inovadoras, o que nos movimenta em uma dinâmica pedagógica além da sala de aula. Uma coordenação muito entrosada e professores muito gabaritados.
Na nossa escola, se envolvem até os funcionários da limpeza. Temos uma funcionária que entre a limpeza das salas de aula e outras milhares de tarefas de um turno para o outro, fica numa das mesas do pátio lendo... Agatha Christie, Machado de Assis, e outros. E a cada ano, fica enlouquecida para saber e ver os novos títulos que chegam para compor a feira.
Pais, parentes e amigos de alunos e de professores também se tornaram frequentadores que marcam suas presenças.
É uma delícia.    

Como analisa a questão da leitura no país?

Recentemente, fiquei de queixo caído. Na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada em 2016, aponta: “44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro”. Não deveria, conhecendo todo o nosso histórico, mas eu ainda me assusto com os números relacionados à leitura no Brasil. Em considerando que hoje somos mais de 210 milhões... puxa, é gente pra caramba que não lê!
Como citei, para uma população que não tem o hábito de leitura em sua cultura, nem a tecnologia vai tornar estas pessoas mais leitoras, nem mesmo o aumento do seu poder de compra.
E o hábito de ler não é algo que só depende do berço esplêndido. A escola também é um facilitador e tem sua parcela de contribuição para criar oportunidades de contato com este mundo de forma mais acessível.
Não atingimos ainda, na E.E. Profª Inah de Mello, este nível de satisfação, mas acredito muito que estamos no caminho certo. Já é um respiro em meio ao naufrágio que enfrentamos.

Como professora e coordenadora pedagógica, qual a dica para incentivar o aluno a ler?

Costumo abordar o incentivo à leitura como uma prática que vem de modelos, de exemplos, de atrativos. Funcionamos assim.
Não se pratica leitura sem ter sido provocado. E se crescemos num ambiente em que não há o estímulo, é comum desistirmos e ter esta habilidade deixada num canto. Precisamos ser estimulados. O tempo todo.
É interessante observar a reação de uma pessoa que diz não gostar de ler, e chega alguém contando muito empolgado que acabou de ler um livro bacana, com uma história cheia de surpresas, enfim, este entusiasmo tende a contagiar ou, no mínimo, provocar a curiosidade do outro. Acredito e invisto muito neste caminho.
Outra ação que funciona bem é provocar o aluno, saindo do senso comum, criando novas possibilidades de ler e de ter fruição. Rubem Alves costuma ressaltar que para se obter êxito na arte de educar é preciso saber estimular, conquistar, provocar o prazer. É um ofício parecido com o do namoro. Se não houver paixão, o relacionamento não avança.

O que tem lido ultimamente?


Sou fã dos clássicos. Há tantos clássicos da literatura nacional e da estrangeira que dá desespero: “Quero ler todos!!!”. Dentre os meus prediletos: Shakespeare, Machado de Assis, Dostoiévsky, Cecília Meireles, Gabriel García Márquez, o Gabito (já li tudo dele), João Guimarães Rosa, Julio Cortázar, e por aí vai, para não ser injusta com os demais que também aprecio.
E confesso que sou bem resistente a abordar os novos escritores, as novas safras. Mas tenho me lançado mais a este desafio ultimamente, por culpa da influência e estímulo contínuo do Léo Bueno, meu marido, que sempre me presenteia com alguma novidade editorial (ó a gente falando de estímulo de novo). E me dei bem, segundo minhas predileções de leitura (o autor tem de ser um bom contador de história), descobri, há pouco tempo, três escritores muito contidos, sem apelo às imposições de modas, e com boa habilidade narrativa, e que provocaram em mim muita fruição: Ricardo Lísias (O Céu dos Suicidas, Divórcio, Anna O. e outras novelas, Inquérito Policial: Família Tobias), Michel Laub (Longe da Água, Segundo Tempo, O Diário da Queda e Maçã Envenenada) e Bernardo Carvalho (Nove Noites, O Sol se Põe em SP, Onze: uma história). Acabei de acabar o Maçã Envenenada, e a próxima vítima é “O Homem Que Amava os Cachorros”, de Leonardo Padura Fuentes.
E uma vida não será suficiente para abraçar todos que eu queria!

*Sérgio Simka é professor universitário desde 1999. Autor de cinco dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a coleção Mistério, publicada pela Editora Uirapuru. Membro do Conselho Editorial da Editora Pumpkin e integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.

Cida Simka é licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Coautora do livro Ética como substantivo concreto (Wak, 2014) e autora dos livros O acordo ortográfico da língua portuguesa na prática (Wak, 2016), O enigma da velha casa (Uirapuru, 2016) e “Nóis sabe português” (Wak, 2017). Integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.
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