sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Flor Silvestre, sobre o conto de John Wyndham

O passeio de um astronauta no espaço: a troca de peças e equipamentos nos antigos ônibus espaciais e nas estações espaciais fazem desta imagem algo emblemático: não apenas a imagem da Terra nos traz à consciência que o globo azul é o único planeta conhecido com vida inteligente, como nos faz lembrar que a vida humana é efêmera e muito frágil, em nosso vasto Cosmos.
O trator, perto de Miss Fray, fazia um barulho irritante, assim como o jato que cruzava com barulho ensurdecedor os céus. Mas, mais do que irritação, para Miss Fray tudo o que provinha do avanço tecnológico era ruim e pernicioso. Ela entrou na sala de aula, onde os pequenos alunos esperavam pela professora. Olhou para a sala e cruzou seu olhar com a flor.

Estava sobre sua mesa, e era tudo, menos comum. Tinha um quê de orquídea, mas era mais delicada e diáfana. Textura muito aveludada, dando uma sensação de fragilidade sutil ao toque. A cor das pétalas era clara, mas sem tender ao amarelo, ao azul e ao vermelho, as cores primárias. Havia pontos de uma cor que se diria que a flor estava “ruborizada”. Elegante, sem ser sofisticada; nada igual às despretensiosas flores do campo ou às flores cuidadosamente cultivadas em um jardim.

Miss Fray olhou para ela quase hipnotizada por um tempo. Deu sua aula, como de costume, e depois chamou uma menina loura, que soubera ser a que tinha colhido e dado a flor à professora. Fray quis colher uma muda da planta e decidiu ir com a aluna até o local onde ela a havia trazido à escola.

Um acidente se dera, no local onde a flor crescera: um avião, levando combustível nuclear constituído de cobalto para um hospital no Oriente Médio, caíra. Quase matara a jovem professora, que durante algum tempo ficara em estado de choque e tivera mais ódio e medo da tecnologia que havia projetado o avião e todas as coisas de um nível de sofisticação moderna, como aviões e tratores.

Miss Fray chegou junto com sua aluna ao local onde a flor crescera, mas não poderia jamais plantar outra muda. Um assistente do fazendeiro daquelas terras onde a flor viera a crescer havia espalhado veneno sobre as mudas. Disse que as sementes daquela flor não podiam se misturar às de outras plantas.

Miss Fray detestava a tecnologia, mas esta havia dado origem à mais bela e delicada flor silvestre que jamais encontrara em sua vida.
Esta é a sinopse do conto “Flor Silvestre” (“Wild Flower”), do grande escritor inglês de Ficção Científica John Wyndham, autor de romances como “The Day of the Triffids”, adaptado para as telas do cinema e para a televisão, e “The Midwich Cuckoos”, um clássico na Ficção Científica de terror, traduzido como “A Aldeia dos Amaldiçoados”. “The Day of the Triffids” trata da ameaça aos seres humanos de grande parte da espécie vegetal do planeta, que devora e mata homens, mulheres e crianças. A água salgada do mar é a solução para deter as formas vegetais canibais. “The Midwich Cuckoos” nos fala de uma vila onde, após certo dia, os nascidos adquirem poderes paranormais — e, ao se tornarem crianças, dominam a mente das pessoas, fazendo-as agirem da forma como querem. E o que querem? Dominar o mundo. Também têm o poder de ler mentes, mas um homem, interpretado em uma primeira versão para o cinema por Gary Cooper, e depois em um “remake”, por Christopher Reeve, consegue derrotar as crianças, detonando uma bomba quando todos esses “estranhos seres” estão reunidos. Sacrifício, no mais puro dos sentidos.

O conto “Flor Silvestre” aparentemente é destituído de conteúdo aprofundado. Uma flor, crescendo sob a influência da radiação de uma amostra do elemento cobalto, exercendo atração irresistível sobre uma professora, devido à sua rara beleza.

O que está em jogo nessa obra é que, além de ser muito bem contada, é nos fazer pensar em algo que está latente em nós, desde o momento em que o ser humano inventou o fogo, a agricultura, a roda, a alavanca, a roldana. A tecnologia desenfreada, que faz com que através dos tempos venhamos a ter menos controle sobre ela, cada vez menos.

Homens, mulheres e crianças morrem todos os dias devido a falhas mecânicas de instrumentos, máquinas, dispositivos elétricos, acidentes automobilísticos e ferroviários/metroviários, queda de aviões e, o que é mais chocante e abominável: o uso indiscriminado de armas, tanto em regiões com ausência de conflitos armados, mas de criminalidade detestável, como nas guerras.

O homem lucra muito com a venda de armas. Um dos negócios mais lucrativos do mundo, ao lado da produção de drogas e de medicamentos. E a elaboração de armas é um dos flagelos da Humanidade, desde que o Homem utilizou uma pedra para ferir seu semelhante, ou uma tíbia de animal para matar seu irmão-humano. Existe algo na essência do ser humano que o torna agressivo e violento. Mesmo o mais pacífico dos homens pode ser acometido de um acesso de fúria e agredir uma outra pessoa. A genética é parte da explicação, além das influências do meio onde vive. O convívio com pessoas violentas no dia-a-dia torna um homem naturalmente pacato em alguém agressivo; pessoas sem estrutura psicológica e amadurecimento emocional podem —  e eu preciso reiterar nesse ponto, elas apresentam a probabilidade de — ser influenciadas por jogos de computador violentos e que estimulem a violência, ou por filmes e séries de televisão que mostrem comportamentos muito violentos.

Há os que dizem que a liberdade de expressão justifica a ausência de uma intervenção da censura nos filmes e séries de curta-metragem, bem como em desenhos animados violentos. Isso é controverso. Em no mínimo um caso documentado, houve o desencadeamento de crimes sexuais letais idênticos ao apresentado no filme “Laranja Mecânica” (“A Clockwork Orange”), de Stanley Kubrick. O genial diretor de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” se tornou amargurado por isso, não havia levado em consideração que cenas de estupro e sadismo do filme fossem imitadas à perfeição por indivíduos com tendências criminosas. Foram registrados muitos casos desse tipo, após o lançamento do filme, na década de 1970.

A violência da sociedade não é algo fácil de se lidar. Pode-se pensar que somente nas sociedades humanas, onde há tecnologia e genética que nos faz propensos a matar e ferir, isso ocorre. Na natureza, chimpanzés são capazes de caçar outros animais, atacando em bando, sendo invencíveis. Mesmo um gorila, nesse caso um único, não é páreo para dez chimpanzés enfurecidos. Somente o elefante e o hipopótamo são capazes de enfrentar um grupo de chimpanzés.

Entre os insetos, a violência é parte da vida. Na luta entre uma vespa do gênero Pepsis e uma tarântula, esta perde, sendo ferroada e devorada pelas larvas que a vespa inocula na aranha. Um louva-deus fêmea devora a cabeça do macho, logo após o acasalamento. Acaba comendo-o inteiro, por fim. Aranhas fêmeas de um certo tipo devoram o macho, este muito menor e mais fraco, se este não for cuidadoso e, após acasalar com a fêmea, não fugir apressadamente. Exércitos de formigas se enfrentam em uma guerra onde milhares, ou mesmo milhões de seres minúsculos dotados de veneno são a forma mais letal de vida que existe na Natureza. Agem em conjunto, e qualquer criatura que caia nas garras dessas formigas está condenada.

Mas, e o Homem? Ele pode converter a superfície da Terra em um deserto, basta alguém começar um jogo nuclear letal, provocando outra potência nuclear com um ataque. Também vimos cidades como Alepo, na Síria, serem convertidas em escombros, unicamente devido à guerra civil, entre o governo de Bashar al Assad e opositores a seu regime, fazendo milhares de vítimas entre civis. Neste caso, armas convencionais foram utilizadas somente, o que foi mais do que suficiente para transformar o maior centro comercial da Síria em destroços.

Nesse ponto, poderíamos pensar: a tecnologia, hoje, está a serviço do bem ou a serviço da destruição e morte? As duas coisas. Tanto em conflitos limitados convencionais, sem o uso de armas nucleares, mas com o uso de todo o tipo de armamentos, como armas químicas, como em hospitais, onde elementos radioativos são utilizados em marcadores que emitem radiação, em tomografias. Até mesmo um aparelho de Raios-X utilizado em consultórios odontológicos é exemplo de como a tecnologia nuclear pode ser usada na paz.

Ser completamente contra o uso da tecnologia, hoje, é desprezar os benefícios que ela nos traz. Como viveríamos hoje, sem a Informática e a Internet? Retrocederíamos anos e anos no tempo e nunca alcançaríamos milagres, como remédios que levam pacientes aidéticos a terem qualidade de vida por muito tempo, por exemplo. A Medicina, a Engenharia, a Astronomia, a viagem espacial não-tripulada por sondas espaciais, o estudo da superfície da Lua e de Marte por astronautas e veículos de superfície controlados remotamente, os satélites, os telescópios, a produção cada vez maior de alimentos, necessária para suprir as necessidades de pelo menos uma parte de nossa população excessiva, onde um bilhão de pessoas sofrem de fome crônica. Sem a tecnologia atual, desastres como a fome seriam de proporção infinitamente maior.

Quem poderá dizer o que haverá no mundo de amanhã? Podemos sobreviver com a ajuda da Ciência, bem como podemos nos destruir com seu lado negro — lado que é criado pelo Homem, através das armas.
Mas é lógico que nunca veríamos os milagres de vacinas como as contra a gripe e contra a pneumonia, e coquetéis anti-AIDS, ou vacinas contra a febre amarela, sem o uso consciente da tecnologia.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem. 

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
Na editora, pelo link: Clique aqui.
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E-book:
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