sábado, 15 de setembro de 2018

O autor português Francisco JSA Luís, comenta sobre o lançamento do seu livro "Travestis Brasileiras em Portugal"

Francisco JSA Luís - Foto divulgação
Francisco JSA Luís foi investigador colaborador do centro em Rede de Investigação em Antropologia, é Doutorado em Antropologia Social e Cultural – Migrações e Etnicidades – e Mestre em Direito Administrativo e Administração Pública. Os seus principais interesses recaem sobre as periferias societais e a necessidade de através do conhecimento, se promoverem sociedades inclusivas onde os mais fragilizados em termos de cidadania, sejam representados pelos demais, com a dignidade que merecem. Sem que tal se atinja, as democracias serão mera fachada. Daí que assistamos mais do queriamos, a derivas nacionalistas assentes numa ideologia da exclusão.

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Você é autor do livro “Travestis Brasileiras em Portugal” (Chiado Editora). O que o motivou a escrever o livro?


Francisco J.S.A Luís: No meu trajeto académico e na área em que me doutorei, necessitava de um desafio, desafio esse que só poderia ser enfrentado se eu próprio confrontasse o meu preconceito. Preconceito esse, que quase todos nós dizemos não exercer sobre ninguém, simplesmente porque vivemos nossas vidas em zonas de controlo e conforto. Foi precisamente isso que fiz, saí da minha zona de conforto e empreendi uma reflexividade crítica sobre a minha própria socialização, como forma de entender o “outro” diferente. Neste caso as Travestis Brasileiras em Contexto de prostituição. Se era para fazer uma tese de doutoramento, então, teria que ser algo de original em Portugal, onde este tema nunca havia sido abordado, não obstante, haverem inúmeros trabalhos sobre os fluxos de Brasileiros para Portugal, antes e depois de Schengen.

Conexão Literatura: Como foram as suas pesquisas e quanto tempo levou para concluir “Travestis Brasileiras em Portugal”?

Francisco J.S.A Luís: Não é fácil adentrar no universo travesti e de prostituição, pelo que, consegui-lo terá sido o mais difícil e demorado numa fase inicial. Paralelamente, cá em Portugal, com a obsessão com a redução dos défices, a ciência tem passado por algumas dificuldades, principlamente aquelas que não geram ganhos imediatos e consumo. Sinais dos tempos, em que o ser humano pode ou não ser viável em função dos números que sobre eles, se elaborem. Faz-me imensa confusão este sistema mundo, em que há vidas às quais não se atribui qualquer valor, nesse âmbito podem ser descortinados os migrantes de parcos recursos e os transgéneros. O estudo cruzado destas duas dimensãoes da fragilização ativa de franjas societais periféricas, tornou-se para mim um objetivo a atingir. Este trabalho durou cerca de 10 anos e ultrapassou o hiato de tempo necessário à realização do doutoramento.


Conexão Literatura: Você chegou a sofrer algum preconceito ou dificuldade durante a produção do livro?

Francisco J.S.A Luís: Durante a execução do livro, tive que ultrapssar inicialmente o fechamento do grupo travesti - composto na sua maioria por gente indocumentada – facto, que achei normal e não senti o dessa forma pejorativa. É uma forma de resistência dum grupo, que inquestionavelmente navega em àguas especialmente revoltas. Para ser sincero, sinto mais essa discriminação na relação que a generalidade das pessoas mantêm com o livro, através, por exemplo, do contato inicial com o seu título: Travestis Brasileiras em Portugal. Da mesma forma que a generalidade dos atores sociais, desinveste este e outros grupos da dignidade que merecem, deslocam essa sua representação duma determinada realidade para o livro, que até agora tem chamado à atenção apenas dos meios académicos, e não de pessoas comuns interessadas e sm aprofundar o seu conhecimento sobre as sociedades contemporâneas, infelizmente. Perante outros grupos transgéneros e transexuais, sinto por vezes alguma desconfiança, essa, ditada pelo facto de ser homem cis e heterossexual. No fundo o livro acaba por acolher, todas as tensões sociais que pretende retratar. Chamo à atenção para o facto de o processo através do qual o preconceito se exerce e faz sentir os seus efeitos, ser similar em várias àreas do social. Este livro aborda igualmente a família conforme a conhecemos, o parentesco, o feminismo, o patriarcalismo, uma sociedade em que as relações de poder são assimétricas, enfim, tudo o que torna os humanos, humanos ou por vezes, mais do que o desejável, inumanos. Não raras vezes, são estes grupos periféricos e com cidadania restringida, o objeto principal dessa crueldade, talvez porque, a própria estrutura, permita, ainda que de forma velada, que tal suceda. Veja-se o caso dos refugiados na Europa, provenientes de África, Ásia e Oriente ou agora, os Venezuelanos no Brasil. Ser Travesti Brasileira e migrante não foge a estes princípios, com uma agravante, a de serem também transgéneros.

Conexão Literatura: Poderia destacar um ou dois trechos do seu livro?

Francisco J.S.A Luís: Nesse enquadramento, Rubin propunha que talvez esses movimentos feministas seus contemporâneos devessem ousar algo mais, como Marx fizera ao estabelecer a luta de classes como um meio para atingir uma sociedade sem classes. Talvez devessem utilizar o conhecimento que haviam já adquirido relativamente às operações de poder e processos que estruturam e mecanizam a divisão de géneros, e ousar reclamar uma sociedade sem géneros. “Nós não somos apenas oprimidas enquanto mulheres, nós somos oprimidas por ter que ser mulheres, ou homens, conforme os casos. (…) Devo sonhar com a eliminação das sexualidades e seus papéis sexuais compulsórios.” (Rubin 1975 in Lewin, 2006:102)

O momento da saída de casa, acrescido também pela ruptura com a escola e alguma vizinhança, relega estes jovens para a rua onde irão ser iniciados num ethos travesti que ultrapassa a questão do género/ /sexualidade e se converte num estilo de vida determinado pelas possibilidades que se lhes deparam a partir desse momento. “Saem cedo de casa, em torno dos 14 anos, e geralmente iniciam uma vida noturna sustentando‑se através da prostituição” (Pelúcio, 2005:235). Larissa afirma sem rodeios nunca ter exercido qualquer outra profissão, “é assim, eu não preciso esconder de ninguém, sou uma pessoa indepen‑ dente! Sempre trabalhei com prostituição e no início comecei no Brasil.”

Conexão Literatura: Como o leitor interessado deverá proceder para adquirir um exemplar do seu livro e saber um pouco mais sobre você e o seu trabalho literário?

Francisco J.S.A Luís: Há várias formas de adquirir o livro, diretamente na Chiado on-line em https://www.chiadobooks.com/livraria/travestis-brasileiras-em-portugal-percursos-identidades-e-ambiguidades, em inúmeras livrarias no Brasil, como a Saraiva, a Cultura, a Travessa, a Martins Fontes ou a Galileu, em Portugal na Bertrand, Fnac, wook, etc. Se quiserem entrar em contato comigo podem aceder à seguinte página https://www.facebook.com/estudosdegenero, nela postamos as sessões de apresentação já realizadas e o agendamento dos eventos a realizar.

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta?

Francisco J.S.A Luís: Neste momento estou a fazer um trabalho sobre o papel das fundações públicas na organização administrativa dos Estados, dissecando este objeto de estudo sob uma perspetiva jurídica. Paralelamente, e no âmbito da antropologia continuo estudando as migrações Asiáticas para Portugal. Se vou publicar alguma coisa, sinceramente ainda não sei.

Perguntas rápidas:

Um livro: “Os filhos da Droga”
Um (a) autor (a): Gabriel Garcia Marquez
Um ator ou atriz: António Fagundes
Um filme:The Equalizer II – A Vingança
Um dia especial: Família…quando a vamos perdendo pelo decurso dos anos, mais lhe damos valor.

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário?


Francisco J.S.A Luís: Comprem e leiam o livro, estou certo que se vão surpreender, vai muito além daquilo que o título indica, não obstante, todos os livros têm que ter um título, não é? Um livro deve ser sempre mais que o título.
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