sexta-feira, 12 de outubro de 2018

A insignificância do ser em Vidas Irrisórias, de Jonatan Magella

Publicado pela Luva Editora em 2018, Vidas Irrisórias, livro do escritor Jonatan Magella, tem 85 páginas e é uma das publicações que integram o projeto Incubadora de Sonhos, desenvolvido pela Luva para investir em autores da baixada fluminense.

Trata-se de um livro de contos que coloca o leitor em contato com personagens que vivem nas periferias cariocas, mas que se pode ver em quaisquer periferias por todo o Brasil. Os contos presentes na obra revelam histórias intrigantes e que expõe facetas humanas. Ora nos assustam, ora nos trazem reflexões, ora nos perturbam por sabermos que o que ali está contado (embora seja um texto ficcional) é vivido por muitos e muitos e muitos e muitos brasileiros. 

É da noção da irrelevância da vida, sobre amplos aspectos, que surge a constituição da história de cada personagem que há presente no livro. Quando notamos que a vida é irrisória tomamos ações diferentes, de acordo com a personalidade de cada um, ou talvez da formação cultural, que não podemos negar, nos influencia. Algumas pessoas, ao ter a noção de sua irrelevância agem com ferocidade, outras seguem de maneira tranquila, reforçando sua invisibilidade diante dos outros, e há aqueles que tendem a buscar alguma transformação, por menor que possa parecer (ou de seu íntimo ou dos que estão a seu redor).

A marginalidade que toma conta do indivíduo, o abuso sexual infantil, a violência que ronda jovens de dezesseis anos e aterroriza professores, o erro que leva a mortes e causa uma falsa sensação de justiça, o confronto que parece inevitável, mas que torna-se um encontro. O som alto que é para divertir, mas incomoda, o desejo de melhorar de vida, a presença ainda real do analfabetismo. Todos esses são assuntos que são tratados nos contos de Magella.

Os acontecimentos podem parecer “naturais” (grifo meu) quando devem despertar em nós indignação: “Morreram três essa noite...”. O conto do qual esse trecho foi tirado e que leva o mesmo nome é um exemplo disso. A vida do outro ganha insignificância diante do desejo cotidiano de poder ir embora mais cedo de um lugar que, era para ser visto como algo bom. Quer ir embora dali, demonstra algo além do simples fato de ir embora. De tão corriqueiro que é o acontecimento, a vontade única e exclusivamente individual se sobrepõe a dor, que mais do que a expressão da dor individual, demonstra a veemência da violência que toma conta de uma sociedade.

Os temas são contundentes, como o do trabalho escravo fazendo contraponto com as brincadeiras de crianças. E há ainda a história de um homem que faz favores para se livrar de remorsos, o que o leva a ver a morte como um alívio, uma oportunidade de que agora possa viver mais para si.

Percebemos que os personagens que aparecem nos contos tem de lidar com a insignificância. Ou suas vidas não tem valor ou, para eles, a vida dos outros não tem valor. Aqui temos um aspecto importante para reflexão do leitor. O fato de olharem para o outro como insignificantes, por vezes não acontece de forma premeditada. Essa visão que os humanos tem em relação ao outro, muitas vezes se dá pelo ambiente no qual está inserido, pela vida rota e pela cultura de uma sociedade que valoriza o “eu”, a individualidade, o cuidar do próprio umbigo. No entanto, há que se frisar que a vida irrisória que levam também advém do ambiente, da condição social e econômica, da cultura e até de aspectos pessoais, traços próprios da formação da personalidade do indivíduo.

Os contos tem um ar de crônica, pois vemos neles a percepção aguçada de quem traça fatos cotidianos, que observa gente comum com situações das mais diversas pelas quais passam. Fatos e sentimentos que permeiam a vida de gente simples e que revelam o lado demasiadamente humano. 

Mesmo quando há uma tinta forte na ficção que nos é contada, Jonatan Magella consegue transmitir a humanidade de seus personagens, com suas mazelas, anseios e visões acerca da vida. E também traz ao texto a provocação da reflexão para o que se vive nas periferias e na sociedade como um todo.

O livro conta ainda com fotos de Gabriel Daras Lourenço. Fotos que realçam o clima da obra e que causam impacto.

Vidas Irrisórias traz personagens que vivem seu mundo, como todos nós. Neles estão a insignificância ou o poder de serem quem são. Suas vidas podem parecer irrisórias para quem não os vê, mas eles demonstram uma vida como a de muitas pessoas reais. Passam despercebidos pela maioria, como se tivessem vivendo num mundo paralelo. Suas dores, lamentos, aflições recebem a indiferença. São irrisórias. Mas também, pelo seu olhar a vida dos outros se tornam insignificantes. Fica a mensagem. Recomendo a leitura.

Sobre o autor

Jonatan Magella é escritor, roteirista, dramaturgo e professor de História pós-graduado em relações étnico-raciais. Publicou a novela Tempo Severo em 2017. Colaborou por anos nos portais Baixada Fácil e O Melhor da Baixada, como cronista dominical. Venceu Festival de esquetes FAMA com o melhor texto de dramaturgia. Atualmente ministra oficinas de escrita criativa no SESC Madureira, integra o Núcleo de Dramaturgia do SESI.

Ficha Técnica

Título: Vidas Irrisórias
Escritor: Jonatan Magella
Editora: Luva
Edição: 1ª
Número de Páginas: 85
ISBN: 978-85-93359-12-2
Ano: 2018
Assunto: Contos brasileiros

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