sexta-feira, 2 de novembro de 2018

"Abandonado", sobre o conto de Arthur C. Clarke


Fora um erro lastimável. Apanhado pela tempestade furiosa, com ventos de um milhão e meio de quilômetros por hora, fora lançado dezesseis mil quilômetros acima de seu habitat, as profundezas da fotosfera. O ser que vivia na fotosfera do Sol havia se descuidado, se deixado levar pela correnteza. Era tarde, agora. O funil que se abrira neste local poderia engolir cem mundos... O frio que se avizinhava era mortal. Havia uma mancha — uma mancha solar, pela qual se estendia uma labareda monstruosa, as chamas da explosão solar colossal. Logo, o ser atingiria a mancha. O vórtice pelo qual era lançado, de milhares de quilômetros de profundidade, agora o arremessava para fora do Sol, para fora da mancha. Encontrava-se no espaço, a uma temperatura inacreditavelmente gélida, em comparação com a fotosfera.

Perdia pouco a pouco sua energia, liberada em contato com o frio. Em sua consciência vaga, o ser compreendia que agora jamais poderia voltar. Uma segunda vaga de tormenta se seguira à primeira, o início de uma nova explosão solar. No espaço sem vida, ou calor, ou energia que pudesse mantê-lo coeso, cedo ou tarde se dispersaria no vácuo.

Porém, fora preso em um campo magnético, que lhe deu novo ânimo. Para um ser nascido no calor e luz extremos da fotosfera do Sol, a energia do campo era ínfima — e de uma natureza desconhecida para ele. Havia se contraído, no espaço, ao máximo, para conservar sua energia, e era agora tão denso ou pouco menos do que o ar. Penetrou na atmosfera da Terra, caindo vagarosamente, levando horas para se encontrar com as ondas do Oceano Atlântico. E lá ficou, paralisado no frio descomunal que o entorpecia.

A quinze mil quilômetros de altitude, um avião de carreira aproximava-se da costa da Irlanda. Seu feixe de radar provinha de uma cabine aerodinâmica por baixo da aeronave e varria o oceano. Nada surgia em sua varredura, a não ser pontos azuis — grandes navios navegando no mar. Na seção dos passageiros, o senhor Lindsey acompanhava ora o grande visor de um metro e meio de largura, que fornecia aos passageiros uma visão dada pelo radar do Oceano e da costa, ora a janela do avião. Mas a camada de nuvens que flutuava abaixo do nível do voo da aeronave só dava a opção de se visualizar algo que valesse a pena pelo visor do radar.

O visor apresentava um limiar de alcance de quinhentos quilômetros. Podia ser ajustado para fornecer detalhes de cem e quinze quilômetros. A cerca de oitenta quilômetros de onde estavam, o radar acusou uma mancha débil de dezesseis quilômetros de extensão. Os Açores estavam muito ao Sul; não havia nenhuma ilha dentro desse alcance de radar. Lindsey alterou o visor, por uma chave seletora que ajustava os detalhes mostrados para cem quilômetros, ou seja, a imagem que surgiu poderia mostrar detalhes de cem quilômetros de extensão na superfície do mar, e não mais quinhentos quilômetros. A mancha tornou-se mais detalhada. Havia filamentos a partir do centro e algo pulsava nesse local, muito lentamente.

O objeto pulsante encontrava-se agora a trinta quilômetros de distância. O subcomandante Armstrong fora chamado por Lindsey, mas não podia acreditar no que o radar informava. Pela janela, o Oceano estava limpo; não havia nada que indicasse que alguma coisa flutuasse nas ondas.

O feixe de radar vasculhava, vasculhava, e era de intensidade suficiente para acabar de dispersar a energia de que o ser da fotosfera do Sol era composto. Lindsey assistiu quando os filamentos do ser se desfizeram na tela do visor, até que nada mais fosse encontrado, nem pelo radar e muito menos pela visão dos dois homens, através da janela do avião.

Eles olharam-se sem poderem falar, como se cada um tentasse perceber o que o outro estava pensando. Lindsey teve um impulso de piedade, como se percebesse que algo diferente, vivo, fora irremediavelmente perdido.


Relatei, nessas poucas linhas, a sinopse do conto “Abandonado” (“Castaway”), publicado pela primeira vez na revista “Fantasy”, em 1947, por um dos maiores gênios da Ficção Científica, o cientista Arthur C. Clarke. Foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do radar, na Segunda Grande Guerra; foi o inventor dos satélites de comunicações; foi dado à órbita com que se posicionam os satélites geoestacionários (que acompanham a rotação da Terra) o seu nome; foi um dos primeiros presidentes da British Interplanetary Society; em sua obra “Areias de Marte” (“The Sands of Mars”) sugeriu pela primeira vez a possibilidade de se “terraformar” um planeta, convertendo suas condições hostis em um ambiente terrestre, em que o homem possa viver como na Terra; sugeriu pela primeira vez a possibilidade — hoje tornada realidade — de se aproveitar a energia gravitacional para se impulsionar naves e sondas interplanetárias, através do “estilingue gravitacional”. Enfim, foi um escritor de divulgação científica (leiam “Um Dia na Vida do Século XXI” — “JULY, 20, 2019 — A DAY OF JULY OF 21º CENTURY”, que prevê muitas das maravilhas que se tornaram realidade, hoje, na paz e na guerra), de Ficção Científica (por exemplo: “2001-Uma Odisseia no Espaço” – “2001, a Space Odissey” e “As Canções da Terra Distante” – “The Songs of Distant Earth”) e um cientista do mais alto nível.

A fotosfera — ou cromosfera, a atmosfera solar — é uma região do espaço próxima à superfície do Sol, onde a temperatura média está situada na faixa do milhão de graus Kelvin. A superfície solar apresenta, por sua vez, temperaturas de 6.000 graus Kelvin. E o centro do Sol, onde ocorrem as reações de fusão nuclear de transformação de Hidrogênio em Hélio, possuem temperaturas de 15.000.000 de graus Kelvin. Não é à toa que um ser que nascesse e vivesse a vida inteira na fotosfera não pudesse enxergar nada no espaço; a intensidade da luz das estrelas, vista do espaço, e a do Sol, vista da superfície da Terra, seria infinitamente menor do que a que o ser poderia captar com seus órgãos da visão. Ele não poderia enxergar nada.

Daqui a cem anos, estima-se que colônias espaciais sejam comuns na órbita da Terra, apesar do fantasma sombrio da descalcificação dos ossos dos homens que deixam os efeitos da gravidade na superfície da Terra para trás. Mas eu, particularmente, tenho esperanças de que isto seja resolvido, mais cedo ou mais tarde. Das estações espaciais, poder-se-ia evoluir para um anel em torno da Terra, em que famílias nascidas no espaço pudessem viver, deslocando-se para a Terra, e desta, para o anel. Necessitaríamos de fábricas espaciais, para produzir bens de consumo para essas famílias.

Em centenas de anos, o Sistema Solar poderá ser colonizado com folga. Luas de Saturno e Júpiter; Marte e o próprio planeta-anão Plutão, em um prodígio de engenharia e transporte espaciais, poderão servir como base para a construção de cidades espaciais. Asteroides escavados e ocos poderão servir como habitação. E, em uma fantástica incursão pela ciência especulativa — mas que muitos cientistas de peso acreditam ser possível —, construir-se-ia um anel em torno do Sol, como no romance do escritor de Ficção Científica Larry Niven “Ringworld”, em que a maioria, ou toda a população da Terra poderia viver em uma estação espacial em torno do Sol. Tal estação teria um bilhão de km de perímetro, 150 milhões de km de raio e 1,5 milhão de quilômetros de largura (quatro vezes a distância da Terra à Lua). Seria, na verdade, um elipsoide, e não um anel circular.

Em um futuro longínquo, daqui a milhares de anos, poder-se-ia construir uma esfera ao redor do Sol, aproveitando-se sua energia e surgindo uma nova e mais ampla civilização. O cientista Freeman Dyson, perito em assuntos espaciais, acredita ser possíveis a construção tanto de um anel, como de uma esfera ao redor do Sol.

Não se espera que encontremos seres inteligentes vivendo tanto na fotosfera do Sol, como no interior dele, muito menos em seu núcleo. Seriam formas de vida diferentes de tudo o que conhecemos. Seriam formas de vida constituídas de energia pura. Hoje em dia, na Terra, pode-se converter uma forma de energia em outra, mas criar energia não nos é possível, ainda. Cientistas falam em fontes de energia: a fissão do átomo nos dá a energia atômica, por meio das usinas nucleares — aproveitando-se a energia armazenada nos núcleos do átomo para nos dar energia elétrica —, os rios são represados para nos fornecerem energia hidrelétrica, pela conversão de energia mecânica potencial das águas armazenadas em diques em energia elétrica, o Sol nos supre de energia solar, pela conversão de energia térmica em eletricidade, os ventos nos proporcionam energia eólica, pela conversão de energia mecânica de movimento — dos ventos — em energia elétrica.

Mas não se sabe ao certo o que é energia. Diz-se “matéria é uma forma condensada de energia”. Mas o que significa isso? Na verdade, massa, ou quantidade de matéria, pode ser transformada em energia, em processos como a explosão de dinamite ou a explosão de uma bomba de hidrogênio. O contrário ainda não é possível, não se pode transformar a energia nuclear, ou elétrica ou eólica em matéria.

Haverá uma nova Revolução Industrial quando conseguirmos converter energia em matéria, eu uma nova Revolução Universal quando conseguirmos energia a partir do nada. Mas as leis físicas dizem, segundo Lavoisier e segundo a 2ª Lei da Termodinâmica: energia alguma é conseguida a partir do nada.

E mais uma vez pode-se afirmar: sem se conceituar o que é energia, não se poderá avançar mais na Ciência, a ponto de podermos realizar maravilhas, como a conversão de energia em massa, o que significaria que seríamos capazes de criar matéria, qualquer tipo de objeto, simplesmente instalando um conversor energia-matéria sob os raios do Sol.

Porém, eu afirmo: o que acontecerá daqui a mil anos? Poderemos ser capazes de criar matéria e energia a partir da ausência de matéria, ou em quantidades desprezíveis ou próximas a zero?


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem. 

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