sexta-feira, 9 de novembro de 2018

“Dia de Juízo”, sobre o conto de Edmund Cooper

Edmund Cooper - Foto divulgação
*Por Roberto Fiori

Os dias de hoje... a Idade Negra, o que sobrou de uma civilização próspera e maravilhosa. As crianças de agora falam com reverência nos Grandes de Antanho, com admiração pelos seus heróis do passado. Mas, cinquenta anos após o Dia de Juízo, sou um velho, passando meus últimos anos no resplandecente vale inglês de Derbyshire, como tecelão. Sou o último em minha região dos que viveram o quase total holocausto.

Naquele dia fatídico, saíra de uma estadia de duas semanas internado no hospital, para me submeter a uma pequena operação no estômago. Minha esposa viera me buscar e, na volta, ganhei a discussão sobre como voltaríamos para casa. Eu havia escolhido retornarmos a pé, através do parque.

O cansaço de tanto tempo imobilizado, ou quase, na cama do hospital, se fazia sentir em meu corpo. Sentamos em um banco e apreciamos o calor se espalhando por nossos corpos, assim como muitas outras famílias o faziam. Súbito, uma sirene. No outro lado do parque, surgiu uma ambulância. Ela veio em alta velocidade, saiu do asfalto em que rumava e colidiu violentamente contra uma árvore. Um ajuntamento de pessoas se reunira ali perto.

Próximo a nós, uma menininha começou a ter acessos de vômito e convulsões. Justine, minha mulher, aproximou-se da criança, que passara a não mais vomitar, mas sim, apresentava tremores pelo corpo. Justine tentou consolá-la, dizendo que sua mãe logo estaria ali. Mas a menina murmurou algo muito triste, sobre sua mãe e, em seguida, seus olhos fitaram-nos sem vida. Minha esposa colocou a garotinha em seus braços e embalou-a, como a tentar reanimá-la. Ao redor, por todo o parque, homens, mulheres e crianças vomitavam e tinham convulsões. Para depois, estirarem-se mortos no chão.

Justine teve os mesmos sintomas, mas morreu de modo mais violento que a menina. Após os acessos de vômitos, começou a tossir fortemente, ao mesmo tempo em que tinha convulsões. Cheguei-me a ela, mas ela quis que eu fosse embora, dizendo que não queria que a visse naquele estado. Eu não tinha forças para sair de lá e a cicatriz da operação em meu estômago doía. Logo, Justine tossiu pela última vez, seu corpo esticou-se grotescamente e ficou paralisado.

Desfaleci. Quando acordei, dei com um carro do Exército perto de mim e um soldado, fitando-me. Soube pelo rádio do carro que uma guerra fulminante fora travada, onde os lados inimigos haviam lançado um contra o outro, armas nucleares, biológicas e químicas. O resultado foi que noventa por cento da população mundial tinha sido dizimada. O soldado disse-me que a toxina “Botulinus” havia sido lançada na cidade. Falou ainda que em Londres uma Bomba de Hidrogênio caíra. Fez-me apresentar documentos, sob a mira de sua pistola. E, sob seu conselho, saí da cidade, pois em breve os corpos dos mortos entrariam em decomposição e seria muito, muito ruim para quem permanecesse em qualquer cidade ou ajuntamento de corpos. Seria necessário que se usasse máscaras contra gás e lança-chamas, para limpar as ruas e os parques daquela e das outras cidades.

Aqui em minha casa, com a vista para o belo vale do Derbyshire, termino minha tarefa matinal de tecelão, em mais um dia que se passa. Ouço crianças falarem com grande respeito dos Grandes de Antanho, gigantes que faziam coisas hoje de sonho, como pontes entre continentes, objetos e máquinas fantásticas.

E penso que, mesmo que hoje somente restem grupos tribais pela Terra, um dia a Humanidade e sua Civilização retornarão, para mais uma vez estabelecerem a Ciência e o Progresso pela face da Terra.


Esta história pungente de Edmund Cooper, “Dia de Juízo” (“Judgement Day”), foi publicada na antologia “Novas de Algures” (“News from Elsewhere”), pela coleção Galeria Panorama, distribuída no Brasil pela Livraria Martins Fontes. Edmund Cooper (1926-1983) foi um poeta e prolífico escritor inglês de Ficção Científica, livros para crianças, ensaios e histórias policiais, sob os pseudônimos de Richard Avery, Martin Lester, George Kinley e Broderick Quain, além de trabalhos publicados sob seu próprio nome. Teve obras publicadas para o cinema, como “The Invisible Boy”, “The Uncertain Midnight” (na França) e “Death Watch” (parte de uma série italiana).

Vivemos em uma Era de insegurança. Vivemos em uma pré-Idade das Trevas, pelo que podemos constatar no que acontece em todo o mundo. Guerras no Oriente Médio, criminalidade maciça nas cidades, temor até mesmo de sairmos de casa à noite. Isso vem acontecendo há décadas, mas foi somente a partir do aumento desproporcional da população, a partir de fins do Século XIX, que o ser humano deixou um pouco de lado o conceito de “Ser Humano” e a luta pela sobrevivência nos centros urbanos se tornou mais acirrada.

A produção de armas para a guerra e para o uso do cidadão aumentou desenfreadamente após a Segunda Grande Guerra, o que levou o crime organizado a se armar de maneira caótica. Em certos países, como nos Estados Unidos, a adoção de leis bastante duras contra, primeiro, os crimes e o tráfico de drogas e, mais recentemente após a data de 11 de Setembro de 2001, contra o terrorismo, ajudaram a abaixar o nível de crimes violentos. Ao mesmo tempo, em um plano generalizado, a política anti-terrorismo dos E.U.A. acarretou uma série de guerras e conflitos, que puseram os norte-americanos em uma posição difícil entre o resto do mundo. Isso contribuiu para piorar a tensão internacional entre as superpotências e outros países.

No Brasil, talvez haja a adoção de medidas rígidas contra o crime organizado, em um governo novo que se formará a partir de 1º de Janeiro de 2019. Até agora, nenhuma medida policial foi efetiva contra a criminalidade, exceto quando se tomou medidas drásticas, como o estado de emergência na cidade do Rio de Janeiro.

Não se sabe se o Futuro reservará uma cultura de paz ou de violência entre a população de países como o Brasil. O fato é que não se concebe um país em que o cidadão é refém em sua própria casa, vindo a sofrer a ameaça constante de assaltos, sequestros e morte.

Algo precisa ser feito. O que não se pode é deixar o Brasil nas mãos de criminosos, mesmo porque hoje em dia a polícia começa a trabalhar em conjunto com o Exército, pois somente a força policial, mal armada para coibir o crime, não é suficiente para tal.

Espera-se que dias melhores virão. Espera-se que a segurança das pessoas seja de fato alcançada, o quanto antes.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem. 

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
Na editora, pelo link: Clique aqui.
No site da Submarino: Clique aqui.
No site das americanas.com: Clique aqui.

E-book:
Pelo site da Saraiva: Clique aqui.
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