quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Andri Carvão e o livro Um sol para cada montanha, por Sérgio Simka e Cida Simka

Fale-nos sobre você.

Nasci em São José do Rio Preto, interior paulista, mas moro em São Paulo desde criança. Cursei Artes Plásticas na Escola Fego Camargo em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA – Escola Panamericana de Arte em São Paulo. O desenho foi a minha primeira forma de expressão artística. Mas aos treze anos, por influência familiar, por conta do projeto do ônibus biblioteca no bairro e também da biblioteca do colégio, as palavras passaram a invadir, ou melhor, a ocupar os meus desenhos, até que tomaram todo o espaço na folha.
Durante o processo da produção de mais de 400 poemas, entre os 15 e os 21 anos, participei do Sarau do KVA e do grupo Trem Lúdico, onde expus pela primeira vez minha produção poética na virada dos anos 90 para 2000.
Depois de 15 anos sem estudar, fiz três anos de cursinho popular (ou seja, o ensino médio de novo) e ingressei na Universidade de São Paulo em Letras com habilitação em espanhol. Por que escolhi espanhol? Por ativismo político e cultural, porque conhecemos mais sobre a Europa e os EUA do que a respeito de nuestros hermanos, nossos vizinhos.
O ingresso na universidade me propiciou contatos que me permitiram a publicação de meus textos. Por conta disso, tenho publicações nas revistas digitais Labirinto Literário, Libertinagem, Gueto, Aluvião e Originais Reprovados, fui colunista do site Educa2 e participei das antologias Gengibre – diálogos para o coração das putas e dos homens mortos, Embaçadíssima – antologia tirada de uma notícia de jornal (ambas pela Appaloosa Books) e 7 Dias Cortando as Pontas dos Dedos – um manifesto contra o fascismo (organizado por Rojefferson Moraes). Publiquei Polifemo em Lilipute e outros contos (também pela Appaloosa), O Poeta e a Cidade (Coleção Breves Gueto), Puizya Pop & outros bagaços no abismo e organizei a antologia Marielle’s (ambos pela Scenarium).
Acabo de publicar Um Sol Para Cada Montanha.

ENTREVISTA:

Fale-nos sobre o seu livro.

Um Sol Para Cada Montanha é uma seleção dos primeiros 20 anos da minha produção poética. O livro é dividido em três partes temáticas:
- um sol para cada montanha – poemas de introspecção;
- ócios do orifício – poesia visual ou poemas concretos; e
- espírito periférico – poesia de crítica social.
O livro abarca os mais de 400 poemas gestados durante a minha adolescência e juventude. Ao me debruçar sobre essa produção, percebi a frequência das três vias temáticas. A princípio era uma trilogia poética. Mas devido à dificuldade em se lançar um livro deste gênero (poesia) no Brasil, enxuguei ao máximo esta seleção de maneira a compor apenas um livro com a tal divisão tripartite de poemas de formação, relacionados a essa fase específica da minha vida.
Os poemas de Um Sol Para Cada Montanha tratam sobre essa fase tão conturbada por natureza que é a adolescência e que compreende os anos de formação do indivíduo – e do poeta. Escrito entre 1993 e 2013, ou seja, dos 15 aos 35 anos, só foi publicado em novembro de 2018. Fiz um lançamento entre amigos e familiares no Espaço de Convivência Estudantil da Letras FFLCH-USP no prédio Antonio Candido (Candinho) numa espécie de comemoração aos 25 anos de poesia, regada a vinho e petiscos.

O que o motivou a publicá-lo?

Creio que chega um momento em que, mais cedo ou mais tarde, acontece uma grande explosão e não há mais como guardar para si, não faz sentido algum deixar engavetado, mesmo porque a arte para cumprir a sua função (uns afirmam que a arte não tem função nenhuma), enfim, é preciso compartilhar com o outro e ver no que vai dar.
Publicar é tornar público e é o que venho fazendo desde 1999 quando participava do sarau que mencionei. Afora isto, publiquei em blogs, sites, revistas digitais, antologias, cartonera. Penso que seja um caminho natural chegar ao livro físico. Tenho a impressão de que somente agora com o objeto livro em mãos passo a ser visto como autor.

Como você analisa a questão da leitura no país?

Com tristeza. O país não cresce, não progride tendo a maioria da população excluída do acesso à leitura, à arte, à cultura e ao ensino público de qualidade. É uma elite intelectual que lê no Brasil. E essa elite intelectual, não necessariamente é composta pelos mais ricos, mas por uma classe média, e mesmo assim por uma parcela muito pequena dela.
A elite do atraso (para usar um termo do Jessé Souza) é responsável pela manutenção da ignorância. O filho não lê porque o pai não lê, assim como o avô e o bisavô não liam. É algo hereditário, não é culpa dos professores. Quando numa turma de 40 alunos de uma escola pública de periferia, o professor consegue formar 2 leitores, é uma vitória. Muitas vezes você entra em casas modestas, ou mesmo de classe média, e encontra aparelhos eletrônicos de última geração: televisão do tamanho da parede da sala, home theater, videogames, computadores na sala, no quarto, tablets, celulares... e simplesmente não há uma pequena estante de livros. O trabalho intelectual sempre foi desvalorizado no Brasil. Quem estuda sofre bullying, é cdf, nerd. No nosso país parece que o normal, o aceitável, é ser xucro. Conforme o conceito popular, o trabalho que dignifica o homem é braçal, ou seja, é ser escravo. Isto é uma herança histórica de um país que vive os reflexos da opressão desde a colonização, passando pela escravidão e pela ditadura militar. A escola pública forma trabalhadores para as fábricas, a indústria e o comércio, não forma pensadores.
Os maiores esforços de incentivo à leitura que se fazem não dão conta da carência nesse setor. Por exemplo: numa distribuição gratuita de livros nas escolas sem a devida orientação, sem uma amostra efetiva do prazer da leitura, inevitavelmente boa parte destes livros será jogada no lixo, pois para o aluno despreparado aquilo não significa nada.
Os livros infelizmente não fazem parte da cesta básica do trabalhador. 44% da população brasileira não lê e 30% nunca compraram um livro na vida. O problema não é o preço do livro, a questão é a falta do hábito de leitura. Não ter dinheiro para comprar um livro não impede o cidadão de entrar numa biblioteca pública. É claro que existem muitos lugares carentes de bibliotecas no Brasil. E isto é uma tragédia social.
Na região onde eu moro, na zona leste de São Paulo, fica o maior shopping da América Latina e, ao lado dele, a Biblioteca Pública Milton Santos. A qualquer hora do dia, o shopping está cheio e a biblioteca, às moscas.

O que você tem lido ultimamente?

Ultimamente tenho me dedicado a leituras acadêmicas da universidade. Mas quando me sobra um tempo, procuro conhecer a literatura brasileira contemporânea, principalmente a de autores independentes e de pequenas editoras. Este ano me dediquei a conhecê-los e li Trapaça (Marcelo Labes), Não o Convidei ao meu Corpo (Bárbara Lia), Memórias da Infância em que Eu Morri (Hugo Pascottini Pernet), O Enterro do Lobo Branco (Márcia Barbieri), Dicionário Cardiopoético (Mary Prieto), Tenho um Inferno Dentro de Mim (Caroline Fortunato), Use o Alicate Agora (Natasha Felix), A Lua é um Grande Queijo Suspenso no Céu (Claudio Parreira), Poética (Vanessa Musial), O Ditador Honesto (Matheus Peleteiro), O Peso do Pássaro Morto (Aline Bei), Reescritos (Felipe Mendonça), Uma Mulher à Beira do Caminho (Geraldo Lima), Diário da Casa Arruinada (Tiago Feijó), Poesia de Geladeira (Viviane de Freitas), Acúmulo (Lilian Sais) e Das Pequenas Corrupções Cotidianas que nos levam à Barbárie e outros contos (Rodrigo Novaes de Almeida). Por enquanto é isto.


*Sérgio Simka é professor universitário desde 1999. Autor de cinco dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a Série Mistério, publicada pela Editora Uirapuru. Organizador dos livros Uma noite no castelo (Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo melhor (Xeque-Matte, 2019). Membro do Conselho Editorial da Editora Pumpkin e integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.

Cida Simka é licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Coautora do livro Ética como substantivo concreto (Wak, 2014) e autora dos livros O acordo ortográfico da língua portuguesa na prática (Wak, 2016), O enigma da velha casa (Uirapuru, 2016) e “Nóis sabe português” (Wak, 2017). Organizadora dos livros Uma noite no castelo (Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo melhor (Xeque-Matte, 2019). Integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.
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