sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Sobre o conto “Moscas” (“Flies”), de Robert Silvergerg

*Por Roberto Fiori

O que sobrara de Cassiday estava em uma mesa em algum lugar, sob uma atmosfera adequada. Apenas uma caixa craniana, um pequeno cordão nervoso, um membro. Mas isso era o suficiente, para os “importantes”. Em Jápeto, eles sabiam como consertá-lo: não eram feitos de protoplasma, então, podiam realmente executar procedimentos  para regenerar células e tecidos de estruturas orgânicas.

E o fizeram. Mas alteraram as emoções de Cassiday. Agora, ele era um receptor de emoções e um transmissor delas para os que o haviam salvo. Porque os “importantes” desejavam aprender. Aprender sobre os humanos. Na Terra, ele iria começara a utilizar suas novas capacidades. Passou por Marte e por Luna, onde fizeram uma bateria completa de exames e descontaminaram-no. Na Terra, procurou Beryl, sua primeira esposa. Ela estivera à beira da morte, viciada em drogas que quase a destruíram. Agora, permanecia em tratamento de recuperação. A pele do rosto era um pergaminho velho, esticado sobre ossos proeminentes. Precisava de amor e compaixão. Pediu ajuda para que Cassiday a ajudasse a superar o que estava passando. Ele a concedeu. Comprou-lhe três cubinhos de tóxico e, quando os colocou na mão de Beryl, ela choramingou: “Não!”. A dor que sentiu em sua alma esfrangalhada o atingiu. E ele a retransmitiu para os “importantes”. Ela, então, apertou os cubos e entrou em um estado de tranquilidade imediato.

Mirabel casara muito bem, pela terceira e última vez. Era raro que amasse algo, ou alguém; em geral, os outros é que a amavam. Vivia em uma mansão suntuosa. Fora uma intelectual, a mais intelectual das esposas de Cassiday, e apreciava muito o conforto. Que agora tinha de sobra. Recebeu o ex-marido com um cãozinho de Ganimedes no colo. Quase humanos, ela lhe dissera, a coisa mais importante de sua vida. Totalmente dedicados, amorosos ao extremo. O animal tinha muitos olhos, era dourado, felpudo e macio ao toque. Cassiday pediu para segurar o bichinho. Mirabel entregou-o, não sem demonstrar alguma preocupação.

Cassiday pediu que a mulher repetisse o verso de Shakespeare, o que falava de moscas. De moscas e rapazes travessos. Rugas surgiram na testa pálida de Mirabel. “Está em Lear. Diz: Como moscas para os meninos travessos, somos nós para os deuses. Eles nos matam para se divertirem”, ela falou. Cassiday apertou a coisa entre suas grandes mãos e a largou no tapete, morta. Mirabel chocou-se, a onda de horror e pena que atingiu Cassiday quase o aturdiu, mas ele a recebeu e a retransmitiu para os “importantes”.

Lureen estava grávida de sete meses. Seu quarto em Nova York era pequeno e austero. Fora uma garota gordinha nos dois meses em que convivera com Cassiday, fazia cinco anos, e agora era mais gordinha ainda. O quanto se devia à gravidez, o ex-marido não podia afirmar com certeza. Ela havia se esforçado ao máximo para ficar grávida. Dois anos de inseminações, um gasto enorme em consultas, máquinas a espetando, tudo para estimular a fertilidade. O filho era amado; havia lutado duramente para tê-lo. Cassiday disse-lhe o que havia feito com as duas outras ex-esposas: “Visitei Mirabel e Beryl e, a seu modo, cada uma tinha o seu bebê. Mirabel tinha um animalzinho de Ganimedes. Beryl, um vício em drogas que se orgulhava em mostrar. E você tem um filho que colocaram dentro de si sem qualquer ajuda masculina. Interessante”. Lureen perguntou se ele estava bem, achou que Cassiday tinha uma voz muito inexpressiva. Como se apenas desenrolasse as palavras. E se assustava um pouco com isso. Cassiday respondeu: “Sabe o que fiz com Beryl? Comprei-lhe três cubos de tóxico. E agarrei o cãozinho e Ganimedes de Mirabel e torci-lhe o pescoço. Fiz isso com a maior calma. Nunca fui um homem apaixonado”.

Lureen acho que ele tinha enlouquecido. Estava assustada, mas, para Cassiday, o medo não interessava. O que interessava era a tristeza, essa sim, valia a pena ser analisada. Disse que queria estudar a tristeza. Ajudar eles a compreenderem. Ele a segurou suavemente pelos pulsos e levantou três vezes o joelho contra o ventre de Lureen. Podia ter arranjado de forma mais fácil, uma pílula de ergotina, um provocador rápido de ação espasmódica... mas Cassiday não viera com abortifacientes. O que aconteceria era que o bebê não nasceria morto, mas provavelmente aleijado... e teria de ser destruído. Lureen teria de recomeçar os tratamentos de fertilidade novamente. Era triste!

— Por quê? — Lureen murmurava. — Por quê?

Até seres superiores como os “importantes” podiam cometer erros. Haviam dado a Cassiday o dom de receber emoções e retransmiti-las a eles. Mas isso tinha seu preço: o humano se tornara insensível às emoções dos outros. Era aceitável que os “importantes” de Jápeto tivessem o seu divertimento, mas não Cassiday. Então, telefonaram para ele e ordenaram que voltasse para Jápeto, para ajustes. Cassiday objetou, mas não podia escolher. Voltou e peguntou: “O que irão fazer comigo?”. Eles responderam: “Você não será mais sensível às emoções alheias. Vai relatar-nos suas próprias emoções”.

E alteraram-no, voltaram suas percepções para o exterior, de modo que ele pudesse se alimentar se sua própria desgraça, como um abutre rasgando as próprias entranhas. “Não deveriam ter feito isso comigo”, pensou ele, lembrando-se dos rostos de Beryl, Mirabel e Lureen. “Estão me torturando, como se tortura uma mosca”.

Mandaram-no de volta ao mundo das torres terrestres de travertino e às calçadas rumorosas, à casa de prazer da Rua 385, às ilhas de luz que fulguravam ao céu, aos onze bilhões de pessoas... deixaram-no livre para vivenciar e relatar seu sofrimento, até que fosse libertado.

Mas isso não ocorreria hoje, e sim, no futuro.

Este conto, “Moscas” (“Flies”, 1967), surgiu pela primeira vez em “Again, Dangerous Visions”, antologia organizada por Harlan Ellison, muito famosa. Robert Silverberg nos traz a história de um astronauta sem liberdade de escolha, sem livre-arbítrio, marionete de alienígenas que o usam para “aprender” sobre as emoções dos humanos. Ocorre isto à custa de três existências: as das ex-esposas do astronauta Cassiday. Ele não tem culpa, pois foi deixado sem o controle de suas emoções — um verdadeiro psicopata, que não sente remorso, nem a dor provocada por suas ações reflete em seu julgamento moral. Ele é amoral. Ele é, por fim, “consertado”, fazem ajustes em sua “psique”, tornando-o consciente de seu sofrimento. Agora, ele sofreria.

Por quê? Por que deveriam fazer sofrer e sentir sofrimento atroz, dessa maneira tão ignóbil? Porque um grupo de alienígenas decidiu “aprender” sobre a raça humana e, ainda por cima, se dar a liberdade de se divertir, com a desgraça dos humanos? Há muito a ser explorado no Universo. Alienígenas que não teriam nada em comum com os humanos, feitos de algo diferente do protoplasma celular que nos caracteriza, seriam ignorantes em relação às emoções de seres como nós. Querendo tomar conhecimento de nossa essência psíquica, levaram um homem a realizar crimes e, depois, julgando terem errado, provocaram sofrimento indizível a ele, que provavelmente seria julgado e condenado, passando por experiências traumáticas e indevassáveis em uma prisão. O que serviria muito bem aos “importantes”, pois eles aprenderiam muito sobre o sofrimento do corpo e da mente humana, por este método.

O que é condenável.

Robert Silverberg (nascido em 1935 e morando atualmente em São Francisco), foi o mais jovem escritor a ganhar o principal Prêmio por uma obra de Ficção Científica:  o Hugo. Como Silverberg escreveu muito, seus editores, no princípio de sua carreira, sob a alegação de saturar o mercado editorial, sugeriram a ele que adotasse pseudônimos. Assim, Calvin M. Knox, Ivan Jorgenson e David Osborne foram alguns deles. Para nós, escritores comuns, não fazemos ideia de como Silverberg podia escrever: ele escrevia sob encomenda, terminando uma obra de ficção científica em um dia ou pouco mais, somente. Ele tinha medo profundo de não conseguir se sustentar somente escrevendo, o que acontecia com outros autores, portanto, entre 1957 e 1959, ele produziu 220 contos curtos e 11 romances, além de literatura de mistério, westerns e literatura erótica.

Hoje, separado de sua primeira mulher, Barbara, é casado com Karen Haber. Suas obras mais importantes são “Nightwings” (“Asas na Noite”, 1969), “Dying Inside” (“Uma Pequena Morte”, 1972 ), “Tower of Glass” (“A Torre de Vidro”, 1970), “Majipoor Chronicles” (“Crônicas de Majipor”, 1982), “Lord Valentine’s Castle” (1980), “Valentine Pontifex” (1983), “The Book of Skulls” (1972) e outros.

Assim como em “Crônicas de Majipoor”, ele escreveu Fantasia em seu mais alto nível, descrevendo com realismo uma sociedade fantástica, comparável às obras magníficas de Jack Vance.
Em 2004, após ter vencido em sua vida vários Prêmios Hugo e Nebula, além dos Prêmios Apollo (1976) e Júpiter (1974) a “Science Fiction and Fantasy Writers of America” concedeu a ele o Prêmio “Damon Knight Memorial Grand Master Award.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem. 

Para adquirir o livro:
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