quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Marina – Carlos Ruiz Zafón

“... a gente só se lembra do que nunca aconteceu. Ainda ia passar uma eternidade antes que eu pudesse compreender essas palavras.”

Marina é o quarto livro publicado pelo escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón. A obra foi lançada no Brasil em 2011 pela Suma de Letras (189 páginas) com tradução de Eliana Aguiar. Originalmente o livro foi publicano no ano de 1999.

Óscar Drai é o personagem que assume a narrativa da história. Ele é um menino de quinze anos que mora num internato e, certo dia, resolve andar pela rua e se depara com um casarão de dois andares. O personagem descreve que “o local me apareceu um pouco sinistro”. Mas a aparência sinistra não o fez manter-se longe daquela residência. Ele adentra o imóvel e ao se ver pego de surpresa, foge do local carregando um relógio, que por um tempo virou seu companheiro inseparável.

Ao retornar ao imóvel para devolver o objeto ele vê uma menina, que vem andando em sua direção numa bicicleta. Com ela conversa e depois vem a saber que se chama Marina. O relógio que estava em posse de Óscar pertence ao proprietário da casa, Germán, o pai da menina.

Uma pergunta aparentemente inocente que surge no diálogo de Marina e Óscar leva os dois a se embrenharem numa aventura. “Você gosta de mistérios?” Ela o leva até o Cemitério de Sarriá, “um dos lugares mais escondidos de Barcelona”. Como Marina diz ao garoto: “aqui estão as lembranças de centenas de pessoas, suas vidas, seus sentimentos, suas ilusões, sua ausência, os sonhos que nunca conseguiram realizar, as decepções, os enganos e os amores não correspondidos que envenenaram suas vidas... Tudo isso está aqui, preso para sempre.”

No cemitério, esse lugar que provoca certo fascínio, eles avistam uma mulher de preto e resolvem segui-la. Ela parece ter algum segredo. Numa estufa eles encontram várias figuras e um álbum de fotos que revela pessoas de corpos defeituosos.

Óscar recebe um bilhete de um carregador na estação de trem que teria sido entregue também por uma mulher. Ali há um nome e um endereço. Começa então uma jornada de mistério que Óscar faz ao lado de Marina; envolvendo a Velo-Granell, uma empresa que fabricava produtos ortopédicos e próteses médicas, uma borboleta negra que aparece em alguns elementos, a morte de um homem e personagens que vão surgindo, na medida em que a busca dos jovens por respostas avança.

Quando o personagem começa a narrar a história, quinze anos já se passaram e ele lembra-se do tempo em que havia sumido por “sete dias e sete noites” até ser encontrado por um policial. A memória havia voltado e o nome de Marina é o gatilho para que ele possa nos contar tudo que envolveu o seu desaparecimento. Esta aí a história que é narrada no livro de Carlos Ruiz Zafón.

Marina é um livro que nos lança em meio ao mistério que os jovens anseiam solucionar, e também nos permite ver a relação de amizade que os dois constroem com cumplicidade, cordialidade e espírito de proteção.

Um dos personagens desperta fascínio em Barcelona acerca de como ele havia conseguido constituir a sua fortuna, além de sua vida pessoal e sua identidade, sempre cheia de mistérios e enigmas. Uma morte coloca uma pitada a mais de suspense na história.

Juntando peças e numa trama que nos envolve desde o início, Óscar chega até a pessoa capaz de explicar toda a história que é apresentada ao leitor. Surpreende em vários aspectos. Chegamos a um detalhamento claro e bem amarrado, o clima de mistério permeia até mesmo o relato que nos explica muitos acontecimentos e a história que já impressiona ao longo da narrativa se apresenta ainda mais fascinante quando caminha para o desfecho.

Algumas camadas da história tratam de outros temas, além da jornada de busca dos jovens pela solução do mistério. Temos a solidão e a dor da perda que aparece em Germán, que se apoia em Marina, sua filha e seu forma de encarar o luto pela morte da esposa. A solidão aparece ainda na própria história de Óscar, que vive sozinho no internato e vê em Marina uma amiga com quem pode compartilhar sua vida. Até com Germán ele sente-se mais seguro, capaz de revelar sonhos e expor sentimentos.

“Não tinha dito nada a respeito deles a ninguém (...) Em algumas semanas apenas, Germán e Marina tinham se transformado em minha vida secreta e, a bem da verdade, na única vida que eu desejava viver.”

Outra camada do livro trata de arte. Ela se faz presente em diferentes aspectos. A mãe de Marina cantava, o pai era pintor e Marina quer tornar-se escritora. Há outra personagem, Eva Irinova, que é atriz; e o gato da menina carrega o nome de um escritor, Kafka. 

Um recurso interessante utilizado pelo autor é nos colocar em contato com Barcelona em locais inusitados. Como cenário das cenas do livro, passamos pelo casarão que foi adjetivado pelo garoto como sinistro, o teatro, os túneis de esgoto, o cemitério, a estufa, a estação de trem e outras tantas ambientações. Todas elas parecem dar ao leitor um ar soturno na história. 

Outro aspecto tratado é a relação do ser humano com a morte. Como a negamos, como lidamos com ela de diferentes maneiras. Quando ela se aproxima cada um tem um jeito diferente de trata-la. Notamos que os personagens têm históricos de perdas e que cada um reagiu à morte ou à espera dela de modos distintos.

Marina é um ótimo livro. E pelos diversos elementos que compõe a história é difícil coloca-lo em apenas um gênero. Ele mescla mistério, suspense, terror, drama, romance e fantasia. Já a capa da edição da Suma remete muito aos livros espíritas.

A narrativa do autor é bem elaborada, os personagens são bem construídos, o mistério permanece ao longo da história – o que prende a atenção do leitor e o faz querer devorar cada uma das páginas que seguem, e ainda há uma abordagem que causa emoção. Esteja preparado para um desfecho surpreendente. 

Marina é um livro de múltiplas interpretações. O fato de ser uma história que não se fixa em apenas um gênero literário e ter elementos que se cruzam, nos deixa aspectos para que possamos interpretar o que os personagens vivenciam. E não restam dúvidas de que nas entrelinhas e nas frases que aparecem de maneira quase despretenciosa, está um pouco do que o leitor pode interpretar sobre a trama que o escritor apresenta. 

Zafón é realmente um ótimo contador de histórias.

Sobre o autor:

Carlos Ruiz Zafón nasceu em 25 de setembro de 1964, em Barcelona, cenário de seus romances A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo, mas vive em Los Angeles, onde trabalha como roteirista. Nos anos 1990, escreveu a trilogia O Príncipe da Névoa (1993), O Palácio da Meia-Noite (1994) e As Luzes de Setembro (1995), além de Marina que foi publicado em 1999. Lançado originalmente em 2001, A Sombra do Vento vendeu mais de dez milhões de exemplares em todo o mundo. 

Ficha Técnica

Título: Marina
Escritor: Carlos Ruiz Zafón
Editora: Suma de Letras
Edição: 1ª
Número de Páginas: 189
ISBN: 978-85-8105-016-4
Ano: 2011
Assunto: Ficção espanhola


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