sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Sobre o conto “Espere, Por Favor”, do maior humorista da Ficção Científica, Ron Goulart

Ron Goulart - Foto divulgação

*Por Roberto Fiori

Dan Padgett tinha um problema: transformava-se, todo feriado nacional, em um elefante cinza, de médio porte. E foi pedir ajuda a Max Kearny, desenhista de arte de uma agência de publicidade, na véspera do Natal. Max era um detetive do oculto, conhecia livros e pessoas ligadas ao esoterismo e ao ocultismo. Dan estava querendo se casar com Anne Clemens, uma loira com corpo estilo modelo. Mas aí residia o principal problema de Dan: ele não podia casar-se com Anne, transformando-se em todo Dia de Ação de Graças em um elefante. E Kenneth Westerland, o animador que criara o Major Bowens, um personagem da televisão, se encontrava também com Anne Clemens. Padgett havia dito à sua família que iria passar o Natal com Anne, e dito a Anne que iria comemorar o Natal com sua família, para que ninguém suspeitasse de suas transformações. Ken Westerland estava com o caminho aberto, portanto.

Max começou a trabalhar. Na vigésima-quarta hora do dia 24 de Dezembro, Dan Padgett viraria um elefante. E, assim, aconteceu. Max Kearny estava com ele, quando se deu a transformação. Mas Dan não passou fome, ele havia comprado um bom fardo de feno, para quando desse a transformação, após a primeira que tivera, no último feriado. Enquanto Max pensava e falava com o elefante, este comia seu feno, partindo-o com a tromba. Era culpa de algum mago, que desejava que Dan se transformasse em qualquer coisa. Dan era o caso típico de “elefantisomem”, uma variação de lobisomem. Max descobriu que, na altura em que se dera a primeira transformação, em uma festa na praia no Halloween, Dan se encontrara com um sapateiro, que todos diziam ser mágico. Este dissera a ele que lhe faria um favor, e houve um lampejo, antes da transformação.

Consultando a atendente do serviço telefônico — Dan havia comido a lista telefônica, na última vez que se transformara — encontrou o número dos anfitriões da festa que, por sua vez, lhe forneceram o telefone de Claude Waller, o mágico da festa. Na loja de Waller, que era sapateiro, Max descobriu que ele queria fazer um favor a Dan. Queria pôr um feitiço nele, para salvar uma moça de um perigo. Mas não sabia qual seria esse perigo. Waller combinou que entraria em contato com Max Kearny, logo que tivesse outro lampejo.

Depois de conversar um pouco com Anne Clemens, que Max achava que não era tão magricela, assim vestida com uma calça muito justa de ginástica, Max decidiu esperar um pouco do outro lado da rua do prédio de Anne, em seu carro. Logo, Ken Westerland apareceu no prédio de Anne. E Max resolveu colocar-se em ação. Pelo lado do edifício, subiu em uma lata de lixo e trepou para a escada de incêndio, não subindo os degraus para não fazer barulho. Subiu até o telhado do prédio e observou o que acontecia, pela claraboia que dava para a sala de Anne.

Ken estava hipnotizando a jovem, balançando um medalhão na ponta de uma correntinha. Anne possuía um talento inconsciente nato: fazia várias vozes, de diferentes personagens. Mas não se lembrava de nada, depois. E Westerland gravava tudo em uma fita de rolo, anotando as falas de Anne. Esse era o personagem do Major Bowens, o segredo mais bem guardado da indústria do entretenimento.

Na Sexta-Feira, descobriram que Anne não fora trabalhar todo o dia, nem atendia a ligações em sua casa. Max arrombou os apartamentos de Anne e Westerland, e não o encontrou. Mas, no mesmo dia, Max recebeu uma ligação de Claude Wallens, o sapateiro-mágico, que o informou que deveria ir, com Dan, para Sausalito. Era um de seus lampejos. E Max sabia que Westerland possuía uma casa em Sausalito. Anne podia estar correndo perigo.

Na casa de Sausalito, foram surpreendidos por Lloyd, o pistoleiro profissional de Ken. Westerland acabara de gravar a trilha sonora para o último episódio do Major Bowens, com a ajuda de Anne. Mas começaria um outro projeto de série para a televisão, e não precisaria mais de Anne Clemens. Agora que Max sabia pela própria boca de Ken sobre o segredo dele, ele os trancaria no porão de sua casa, para decidir o que fazer com os dois mais tarde. Enquanto isso, hipnotizaria Anne, alcoolizada, na festa de alguns amigos, os Leverson. Ela pensaria que é uma acrobata, dirigiria até a ponte Golden Gate, onde ensaiaria um número de acrobacia. Tomando consciência, porém, de que não o era, cairia na baía. E tudo se resolveria, pois Ken se sentia disposto a eliminar Max e Dan, depois.

Era véspera de Ano Novo. E Max esperava que, no último segundo antes da passagem do ano, Dan se transformasse novamente em elefante. Estavam presos em uma adega, no fundo do porão de Westerland, um espaço de 3 metros quadrados por 3,5 metros de altura. Quando se deu a badalada final, Dan se transformou. Max subiu para o lombo do elefante e ele arrombou a porta da cave. Derrubou Lloyd, desarmando-o, e expulsaram-no de lá. Arrombaram outra porta e saíram pela rodovia, abrindo passagem pelos carros da autoestrada. Chegaram à casa dos Leverson, e lá, Westerland disparou um tiro que quase atingiu Max e Anne. O elefante desarmou Ken e desapareceu noite adentro.

O que aconteceu é que a polícia chegou. Antes, porém, Dan Padgett reapareceu, normalmente, sem estar transformado em elefante. E constatou que não mais iria se transformar em um, pois as transformações demoravam sempre 24 horas para passarem, e não se decorrera nem mesmo três horas depois que se transformara, na passagem do Ano Novo.

E Anne, o que era melhor, ficaria com ele.

“Espere, por favor” (“Please, Stand by”, 1961 — publicado pela primeira vez em “The Fantasy and Science Fiction Magazine”), um conto humorístico tratando da transformação mágica de um homem em elefante, foi publicada no Brasil pela Editora Melhoramentos, em 1990, na coletânea “Isaac Asimov apresenta: Magos — Os Mundos Mágicos da Fantasia” (“Isaac Asimov’s Magical Worlds of Fantasy: Wizards”).

A transformação de um homem em elefante é algo novo. Já se falou na transformação de homem em lobisomem, ou a “licantropia”, abordada em tantos textos, como em “A Hora do Lobisomem” (“The Cycle of the Werewolf”), de Stephen King, que possui ilustrações originais, na edição da Francisco Alves, de Bernie Wrightson. O caso da maldição do lobisomem pode ser explicada pela mordida de um lobo infectado ou por um “vírus da licantropia”, ou que já possui características mágicas, que o possibilitam passar essa maldição aos seres humanos. Como descrito em livros sobre o assunto, o lobisomem pode ser morto, através de um tiro com uma bala de prata.

No caso do conto de Ron Goulart, o “elefantisomem” surge após o homem que se transforma no elefante ser enfeitiçado pelo mago. O mago, homem de mil poderes, mil qualidades mágicas, tem o poder de ler obras ocultas, interpretá-las e aplicá-las em outros homens comuns, ou em animais; o mago também pode desfazer feitiços, encantamentos. No conto “Espere, Por Favor”, o desastrado sapateiro mágico Claude Wallens queria somente ajudar Dan Padgett a proteger uma jovem em perigo. O problema é que ele não tinha uma fórmula mágica para desfazer o feitiço. Nem mesmo sabia como o tinha feito!

Neste conto, o feitiço se quebrou por si só. As coisas poderiam ter se passado de outras formas: Dan Padgett poderia jamais deixar de se transformar em elefante, nos feriados nacionais dos Estados Unidos, e Anne Clemens, sua escolhida para casamento, não se casaria com ele. Também, Ken Westerland poderia ter se saído bem e conseguido matar Anne, Max e Dan. Poderia ou não ser preso.

As infinitas possibilidades que a Ficção, em particular a Ficção Científica e a Fantasia, bem como o Horror/Terror, nos apresentam, tornam esses gêneros literários tão atraentes. Você poderia estar rumando em uma nave para um planeta distante, quando os propulsores de antimatéria sofrem um colapso e você se torna parte de uma explosão de supernova... ou então, simplesmente piratas espaciais abordam-no, roubam sua nave e deixam você vagar no espaço, com suprimento de ar de seu traje espacial para um dia, apenas. Mas você poderia conseguir chegar no planeta, colonizá-lo e fundar uma Nova Terra, um planeta mais acolhedor que a Terra ultratecnológica que o enviou ao espaço.

O que conta, ao se escrever Literatura Fantástica, é a imaginação tornada possível em palavras. Fazer acontecer, fazer tudo se encaixar, este é o objetivo da boa Literatura de Antecipação.

E que só pode ser alcançado pela projeção mental de um escritor no que há no porvir, no que o Futuro nos reserva...

*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem. 

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
Na editora, pelo link: Clique aqui.
No site da Submarino: Clique aqui.
No site das americanas.com: Clique aqui.

E-book:
Pelo site da Saraiva: Clique aqui.
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