sexta-feira, 15 de março de 2019

Sobre o Conto de Ficção Científica “Os Desajustados”, do genial Robert Silverberg

Robert Silverberg - Foto divulgação
Web Foss, adido terrestre ao Governo Civil de Egri V, tinha um problema. Sua mulher, Carol, havia perdido a cabeça em uma discussão com ele, no planeta Egri V, e se mandara para um outro. Não sabendo que este era um planeta pesado, um planeta para homens adaptados viverem, não para homens comuns. A Terra havia fundado colônias espaciais em muitos mundos pela Via Láctea e, entre eles, havia planetas pesados, com uma gravidade maior que a da Terra. Planetas que você, se pesasse aqui na Terra setenta quilos, num mundo adaptado pesaria cento e quarenta quilos ou mais.

Para colonizar tais planetas inóspitos, foi necessária uma intervenção da engenharia genética. Para criar pessoas especiais. Para criar homens e mulheres tão fortes, de constituição física tão desenvolvida, que poderiam viver 100 anos em um planeta que possuísse duas vezes a gravidade da Terra, ou “2g”. Carol Foss estava em um desses mundos já há duas semanas desaparecida.

Contatando o Capitão dos Correios, Web Foss descobriu que Carol estava em Sandoval IX. Ele descera em uma das mais de vinte colônias do planeta, contatara Haldane, o Oficial da colônia, e expusera o problema. Após falar com ele por cinco minutos, Haldane dissera que sabia onde Carol estava. E quando Web Foss falou que, se ele sabia onde sua mulher estava, por que não contava a ele onde, Haldane respondera que Foss era um terrestre. Um ser superior. Então, que tratasse de encontrá-la.

Os homens adaptados eram motivo de zombaria e chacota na Terra e nos mundos onde a gravidade era normal. Muitos haviam sido adaptados de forma que pudessem respirar com cinco por cento do oxigênio existente na Terra. Com uma atmosfera de vinte por cento de oxigênio, como aqui, sentiam-se permanentemente embriagados, respirando tanto oxigênio puro. Eram mal recebidos na Terra, a eles eram destinados hotéis e restaurantes de segunda categoria. O preconceito era arraigado. Os adaptados, em Sandoval IX, tinham por volta de um metro de altura por uma envergadura bastante sólida e larga, de modo a suportarem o “1,8g”, que era a gravidade daquele planeta.

Os adaptados não ajudaram Web Foss em nada. A não ser um deles, que informara que Carol se encontrava a dezesseis quilômetros de distância, na colônia vizinha. Dissera isso para que Web permanecesse o mínimo possível em Sandoval IX, onde estava atrapalhando a vida de todos. Aliás, para os adaptados, a simples presença de um terrestre entre eles já os desagradava em muito. Uma viagem até a colônia onde Carol estava, através da nave de Web, era impossível. Sendo um planeta de alta gravidade, Sandoval IX tornava a partida das naves um processo difícil. Pois consumia demasiado combustível partir, chegar em órbita, para depois aterrissar novamente no planeta, para depois subir, mais uma vez, e escapar da gravidade daquele mundo. E seguir de volta para Egri V. Web Foss não dispunha de combustível para tanto. Tentara conseguir um transporte, que alugaria de um dos homens adaptados da colônia onde descera, mas ninguém alugava transportes para terrestres. Todo esse tratamento que estavam dando a Web era o troco, pelo tratamento cruel que os adaptados recebiam, cada vez que visitavam um planeta de gravidade normal.

No bar, onde resolvera pedir aos clientes que alugassem um transporte para ele, e fora negado, Web Foss falou que iria caminhando até a colônia mais próxima, e voltaria trazendo sua mulher. Disso eles tinham a sua palavra!

Dezesseis quilômetros. Depois de três quilômetros e meio, Web estava mais que exausto. Resolveu parar e descansar, encostado a uma árvore na beira da estrada. Sua pulsação estava aceleradíssima. Sentia tonturas. A gravidade exercia seus efeitos devastadores contra ele. Ainda assim, levantou-se assim que se sentiu melhor. Tinha setenta e sete quilos e pesava em Sandoval IX cento e trinta e nove quilos.

Continuou a “caminhada”. Mais três quilômetros e estava cansadíssimo, mas repetia para si que era somente questão de continuar. Um pé à frente do outro. Arrastando-se. Até que, sem ter ideia da passagem do tempo, chegou ao povoado onde sua mulher estava. Conduziram-no até um casebre, onde ela se encontrava deitada em uma cama, em estado inconsciente. Quando acordou, contara a Web que não sabia que Sandoval IX era um planeta pesado. Quando dera por si, a nave dos Correios já havia partido e demoraria muito para voltar. Então, caminhara por alguns metros, caindo. Fora alvo de troça dos adaptados, até que desmaiara com o esforço. E então, alguns ajudaram-na, assim como se ajuda um animal ferido.
Deram-lhe comida e bebida alcoólica. Bebera, para passar o tempo sem sofrer com a terrível gravidade. Web disse a ela que voltariam para a nave dele, distante dezesseis quilômetros. Apenas dezesseis quilômetros. Web poderia ter aterrissado a trinta quilômetros. Ou duzentos. E voltariam para Egri V. Dormiram um pouco e, quando acordaram, na manhã seguinte, puseram-se em marcha. Era meio-dia quando chegaram à colônia onde a nave de Web aguardava.

No início, encontraram um grupo de adaptados. Entre eles, Haldane. Era óbvio, pelo rosto e os olhos deles, que estavam desapontados. Haviam deixado ele e sua mulher para morrerem no deserto de Sandoval IX, isso era mais que claro. Três deles barraram o caminho do casal de terrestres.

— Saiam de meu caminho. Deixem-nos passar — dissera Web asperamente, não querendo mais encrenca, mas sentindo a raiva subir à face. Haldane disse para darem passagem. Na nave, ajudara Carol a subir na escotilha. Encarara o grupo dos homens adaptados, não acreditando que conseguira voltar vivo da caminhada. Agora, eles teriam mais respeito ao lidar com um terrestre.

— Adeus! — disse ele, sorrindo largamente. Então, entrou na nave, colocou-se por trás dos controles e partiu para casa.

Robert Silverberg nasceu em 1935, nos Estados Unidos. Escritor de Ficção Científica, Fantasia e Não Ficção, recebeu inúmeros prêmios, como os tão cobiçados Hugo e Nebula. Quanto aos prêmios Hugo, os mais importantes do gênero, pode-se citar “Nightwings” (novela “Asas da Noite”) e os romances “Lord Valentine’s Castle” e “The Stochastic Man”. Quanto aos prêmios Nebula, cito o romance “Time of Changes” (romance “Tempo de Mudança”), “Dying Inside” (romance “Uma Pequena Morte”), o romance “Thorns” (“Espinhos”) e o romance “The Tower of Glass” (“A Torre de Vidro”). Este conto, “Os Desajustados”, foi lançado no Brasil na antologia de contos do autor “Rumo aos Mundos do Futuro” (“To Worlds Beyond”), lançada pela Edameris (Editora das Américas), em 1967.

No futuro distante, salvo alguma catástrofe, a Humanidade terá avançado o suficiente para colonizar inúmeros planetas em nossa galáxia. Como lidará com problemas de atmosfera, pressão, gravidade? Poderá ser o Homem como civilização uma raça suficientemente criativa para resolver todos os seus problemas, no espaço?

O Homem engatinha, em sua missão de viajar pelo espaço e colonizar mundos alienígenas. Problemas aparentemente impossíveis de contornar levam a raça humana sequer conseguir a ir a Marte, seu planeta vizinho, fundar uma colônia e voltar, deixando lá sua semente. A Lua foi o máximo que já conseguimos alcançar, em missões perigosas, mas que deram ao desenvolvimento da Ciência um passo gigantesco. A tecnologia da Era Espacial fez com que tivéssemos ao nosso dispor uma evolução na computação, em novos materiais revolucionários, como o grafeno, fizeram o homem até mesmo avançar na biofísica, criando novos dispositivos, como próteses e técnicas de recuperação em acidentados e deficientes físicos. A mais nova tecnologia que surgiu foi a de paraplégicos e tetraplégicos, conectados a um computador, serem capazes de se movimentar e manipular objetos por próteses artificiais. Isso era um sonho de Ficção Científica, até vinte anos atrás.

Mas... o que se fará diante do desafio de vencer a gravidade pesada, em planetas de grande massa? Quando maior a massa — ou “quantidade de matéria” — que um planeta possui, maior a sua gravidade, mais se sente dificuldade em se locomover sobre sua superfície.

Em planetas com o dobro da aceleração da gravidade “g”, um homem que na Terra pese cem quilos, nesses planetas pesará duzentos quilos. É algo muito complexo. Teríamos de inventar um modo de sobrepujar as dificuldades de viver nesse tipo de planeta “pesado”.

Robert Silverberg imaginou homens modificados geneticamente, muito mais fortes, tão fortes que um único soco forte desses homens poderia matar um terrestre muito facilmente. Esses indivíduos, de constituição física fora do comum, seriam os colonos em tais mundos. Mundos que seriam ricos em minérios raros, seriam muito férteis e valiosos para o governo da Terra poder investir neles pesadamente. No conto “O Planeta Pesado”, de Milton A. Rothman, publicado em “... Para Onde Vamos?”, antologia editada por Isaac Asimov (“Where Do We Go From There?”, lançado pela Hemus Editora, em 1979), estamos em um planeta de alta gravidade, em que uma nave terrestre cai em um de seus oceanos. Um agente secreto da Terra, nascido neste planeta, deve recuperar um objeto na nave, antes que inimigos o façam. Ele arranca placas rebitadas de aço do casco da nave como se fossem feitas de papelão, por exemplo. A gravidade é gigantesca, sendo que a nave está a ponto de ser destroçada pela ação das pequenas ondas desse oceano “pesado”.

Mas talvez a engenharia genética não consiga produzir homens com tais características físicas tão especiais, afinal. Talvez mundos de alta gravidade sejam inacessíveis ao homem, mesmo que possuam atmosfera respirável.

Talvez o homem esteja destinado a, primeiro, resolver os problemas desta velha e cansada Terra, da qual tanto se tem tirado e tão pouco se tem dado a ela. E somente depois de solucionar os desafios de controlar a poluição, diminuir o aquecimento global, mitigar a fome, acabar com os fantasmas da violência e criminalidade, da guerra, o homem possa estar livre para lidar com outro tipo de problema. O mistério de como viajar até Alfa Centauri seria secundário, e colonizar seus planetas, a quatro anos-luz de distância, talvez devesse esperar.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
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