sexta-feira, 22 de março de 2019

Sobre o Conto de Ficção Científica “Vitória Involuntária”, de Isaac Asimov

Isaac Asimov - Divulgação
*Por Roberto Fiori

Três robôs seguiam pelo espaço profundo, de Ganimedes para Júpiter. Os seres humanos que viviam naquela lua de Júpiter haviam, após 25 anos de esforços, conseguido aperfeiçoar um sistema de comunicação baseado em ponto e traço, para se comunicar  com os jupiterianos. A nave na qual ZZ-1, ZZ-2 e ZZ-3 viajavam, os mais poderosos robôs já construídos pela U.S. Robots and Mechanical Men S.A,, vazava como uma peneira. Não era estanque, o vácuo do espaço e a temperatura de quase zero grau absoluto estava presente na nave. Mas os robôs, de seis pernas, maciços, invulneráveis a tudo, exceto a um disruptor atômico de mil megatons de potência, não sentiam desconforto.

Descendo em Júpiter, escolhendo uma planície ao acaso, não podiam suspeitar que perto havia uma vasta megalópole subterrânea, de “meros” dez milhões de habitantes, como informou o responsável jupiteriano pela comunicação com os três robôs terrestres. Encontrar uma megalópole como aquela no meio do nada, em um planeta tão vasto como Júpiter, significava que havia muito mais cidades como aquela. E, se aquela cidade possuía tal poderio tecnológico, o que dizer das maiores? Os robôs estimaram em trilhões a população total de Júpiter.

A início, os jupiterianos tentaram destruir a nave e os robôs, que pousaram na superfície, com um projetor calorífico. Produzia um raio de calor de trinta graus Celsius. Apontando a arma para um veio de amônia líquida, esta ferveu. Não ocasionou qualquer dano à estrutura das máquinas. Tentaram lançar cápsulas que liberaram oxigênio, inócuo para os robôs, mas que era letal para os jupiterianos. Um deles respirou o gás, contorceu-se violentamente e permaneceu imóvel, morto, no chão.

Os jupiterianos decidiram que os robôs poderiam ficar entre eles, por um curto período de tempo. E seria mostrada a cidade aos robôs. Seria exibido seu grande potencial industrial. Em um lago na superfície do planeta, ZZ-1, o robô menos avançado e menos comunicativo, mas mais curioso que os outros, perguntou se podia examiná-lo, para ver se havia peixes. ZZ-2 e ZZ-3 condescendentemente responderam que ele poderia fazer isso. Os dois robôs mais avançados tratavam ZZ-1 de uma forma amena, fazendo-lhe as vontades. Tratavam-no como “garoto”. O robô entrou no lago de amônia líquida, observado pelos outros robôs e pelos jupiterianos, que profetizaram que ZZ-1 morreria afogado. Mas os robôs não se afogavam, nem comiam, nem dormiam. Logo, uma espuma cobriu as margens do lago. ZZ-1 saiu da superfície, arrastando um ser repleto de garras, espinhos e era coriáceo, enorme. Os jupiterianos se assustaram, mas logo que viram que o monstro estava morto, acercaram-se do corpo. Alguns tocaram-no.

Na cidade, os robôs presenciaram o tremendo poderio tecnológico. Tal megalópole era equivalente, em produção de energia, a Ganimedes inteira. Dez cidades como aquela suplantariam em poderio o Império Terrestre. Se os jupiterianos possuíssem campos de força, poderiam sair da superfície de Júpiter, vencendo a sua atmosfera de milhões de vezes a pressão da atmosfera da Terra, e se lançar ao espaço, conquistando o restante do Sistema Solar e aniquilando toda fonte de vida que surgisse — e que os jupiterianos consideravam inferior. Por isso, deveria ser exterminada.

Em uma das fábricas da cidade, onde lingotes imensos de material semelhante à amônia sólida eram elaborados à razão e vinte por segundo, ZZ-1 reparou que não estava sendo mostrado aos robôs uma seção da indústria. Poderia ser que campos de força fossem produzidos ali, e os jupiterianos os estavam escondendo dos robôs. O jupiteriano responsável pela comunicação por sinais de ponto e traço explicou que altos-fornos eram mantidos isolados ali. Eram manipulados remotamente e nenhuma forma de vida poderia sobreviver ao calor intenso que era gerado lá. ZZ-1 pediu que fosse permitido que ele examinasse os altos-fornos “in loco” e um aparato isolante foi montado, para proteção contra o calor emanado. ZZ-1 entrou na área letal e aproximou-se de um alto-forno, transparente. Inclinou-o e uma pequena porção de metal incandescente escorreu. O robô apanhou o material, sem sofrer nada, e limpou a mão em uma de suas pernas. Saiu, então, da área. Um jato de amônia líquida congelante foi lançado pelos jupiterianos contra ZZ-1, para arrefecer sua temperatura.

Então, ZZ-1 foi direto ao ponto. Perguntou ao jupiteriano, em linguagem apropriada de símbolos, se eles já haviam conseguido desenvolver campos de força. A resposta foi que os jupiterianos iriam mostrar aos robôs seus campos em processo de finalização. Dirigiram-se para uma espécie de Universidade, onde ZZ-1 perguntou o que era aquela parte do edifício, onde estudantes manipulavam objetos científicos. Eram microscópios baseados na expansão da massa, ao invés da refração de ondas luminosas, como os microscópios terrestres. Pedindo permissão para examinar os microorganismos que estavam sendo estudados, o robô começou a matar os organismos, ao observá-los com sua visão especial para análise microscópica. Sua emanação de raios-gama os estava matando. Foi recomendado pelos outros robôs que os jupiterianos conservassem uma distância maior deles, o que foi logo atendido.

Em um vasto salão, uma viga gigantesca, que pesava o equivalente a duas espaçonaves, era mantida no ar sem apoio. Um campo de força a mantinha em levitação. Junto com a pressão da atmosfera jupiteriana, o peso a que o campo de força era submetido era colossal. A conclusão era que os seres de Júpiter já haviam conseguido dominar a tecnologia dos campos de força, a ponto de conseguirem, logo, sair de seu planeta para sua missão de conquista e destruição dos terrestres.

Mas... foi assinado um tratado de paz, assim que o jupiteriano que cuidava das mensagens entre os robôs e ele viu o que os robôs poderiam fazer. Não dormir, não comer, ser imune ao metal incandescente, ter uma força sobre-humana, que possibilitava matar um ser imensamente forte e ferocíssimo, no lago de amônia, irradiar radiação mortal para os jupiterianos... tudo isso fez com que, afinal, os jupiterianos recapitulassem, jurando não usar seus campos de força, a não ser na superfície de Júpiter.

Isso porque, por uma questão psicológica, os jupiterianos haviam assumido que os seres humanos eram idênticos, todos, aos robôs. E decidiram não declarar guerra aos terrestres. Afinal, nem ZZ-1, nem ZZ-2, nem ZZ-3 tinham contato aos seres de Júpiter que eles eram simples robôs...


Este conto de Isaac Asimov, “Vitória Involuntária” (“Victory Uninvoluntary”), foi publicada na antologia “Os Novos Robôs” (“The Rest of the Robots”, lançada originalmente em 1964. Em 1974, foi lançada na antologia de mesmo nome pela Edibolso — Edições de Bolso, autorizada pela Editora Expressão e Cultura, no Brasil. Asimov baseia-se em suas Três Leis da Robótica para conceber um Universo em que robôs não significam ameaças aos seres humanos, mas, segundo a psicóloga de robôs, Susan Calvin, declarou que são "uma raça mais limpa e melhor do que a nossa", em 2057.

As Três Leis da Robótica são:

1) Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal;

2) Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei e:

3) Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.

Estas leis foram publicadas no Manual da Robótica, em sua 56ª Edição, 2058.

Na época em que as histórias sobre robôs (no caso dos robôs criados por Asimov, robôs positrônicos, com cérebros que funcionam baseados em pósitrons) foram publicadas por Asimov, elas se tornaram o que havia de mais avançado no que se poderia imaginar em robótica.

Hoje, pensa-se mais além. Uma ordem dada a um robô poderia ser traduzida em uma espécie de “confusão mental”. Digamos que estejamos em uma situação em que mais de uma pessoa corra perigo. Um robô, como os que hoje existem, e como existirão, no futuro, se pudesse evitar um risco, ele o faria, de acordo com sua programação baseada na Inteligência Artificial.

Se quatro pessoas se encontram em um avião e uma pessoa importante (digamos, um estadista) corre perigo de vida, juntamente com as outras três, devido a um acidente que irá ocorrer (digamos, falta de combustível, levando à queda do aparelho voador); e se um robô puder salvar essas três pessoas, deixando o estadista no avião em queda, o que ele fará? Evitará a morte do estadista para que ele possa, no futuro, apresentar projetos de benefício social em seu país, ou salvará as outras três pessoas, visto que são em maior número do que uma, somente?

Questões morais como essa serão corriqueiras, no futuro. Com a sociedade encaminhando para uma quase completa automatização e robotização, sem dúvida o Homem precisará entrar com dados na programação de robôs, que possam dar a essas máquinas sofisticadas — e que tomarão decisões por si — a capacidade de salvaguardar pessoas ou, no mínimo, tornar a vida da Humanidade mais confortável, segura e estável, nas mais variadas circunstâncias.

Isaac Asimov planejou seus robôs positrônicos como uma ferramenta de grande valor humano. Visava a proteção total e irrestrita do ser humano, em detrimento da segurança das máquinas que ele concebeu. Isso foi genial. Não a ideia de um cérebro positrônico, avançadíssimo, mas a ideia de salvar vidas. De dar ao Homem o que de melhor ele poderia usufruir.

Isaac Asimov não levou em conta a malignidade de certos homens e mulheres, assassinos, criminosos. Mas apresentou uma sociedade em que o ser humano seria tratado de forma a mais humana possível, pelos robôs — mesmo que um homem fosse um psicopata.

*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

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