sexta-feira, 26 de abril de 2019

Sobre o conto "Satisfação Garantida", de Isaac Asimov

Isaac Asimov - Imagem divulgação
*Por Roberto Fiori

Tony era alto, moreno, e suas feições inalteráveis eram nobres, e Claire Belmont o observava por trás da porta entreaberta com um misto de horror e espanto. Tony era um robô, e sua designação nos arquivos da U.S. Robôs e Homens Mecânicos S.A. era TN-3. Claire teimava em dizer que não podia ficar com ele. Ele a assustava muito.

A Dra. Susan Calvin, famosa robô-psicóloga — uma psicóloga especialista em robótica —, responsável por resolver toda uma série de casos envolvendo robôs e as Três Leis da Robótica, tinha que fazer um teste. Deixaria, com Claire, o robô, para ver como os dois se sairiam durante a ausência de Lawrence Belmont, marido de Claire, durante uma viagem que faria a Washington. Era imprescindível que uma pessoa que não tivesse qualquer contato com robôs, nem experiência alguma com eles, participasse do teste.

Tony, logo, tornou-se confidente de Claire Belmont. Ela lhe dizia que seu marido a considerava uma mulher “sem cérebro”, estúpida, o que não acontecia com Gladys Claffern, mulher bem-sucedida, bonita e da alta sociedade. Lawrence tinha planos de incluir Claire nesse círculo de amizades, mas estava ligeiramente irritado e desgostoso com isso. Nas raras vezes em que ele apresentara Claire a Gladys, a esposa ficara muda. Mas, depois do teste com Tony, as coisas mudariam, Lawrence tinha certeza.

Tony ofereceu-se a Claire para fazer mudanças de ordem decorativa na casa. Isso seria um dos passos, para que a mulher sentisse sua autoestima aumentar. Reformou, com base em toda uma série de livros que pedira a Claire para trazer da biblioteca da cidade, toda a casa. Tapetes, cortinas, tecido para forrar as poltronas, papel de parede, tinta, roupas e uma infinidade de outras coisinhas.

Tony cortou o cabelo de Claire adequadamente, maquiou-a, acertou a linha das sobrancelhas, modificou a tonalidade do pó para a pele e o batom. Fez ela parecer uma outra pessoa.

E disse para que, na véspera do dia em que o teste terminaria, convidasse Gladys Claffern e suas amigas para ver no quê se tornara sua casa e a aparência pessoal de Claire. Cheia de dúvidas, esta pôs em dúvida se conseguiriam mostrar a nova faceta da casa e de sua dona, como ela bem gostaria, a Gladys e à alta sociedade. Seria graças a Tony, afinal, que conseguiriam, se conseguissem.

Tony falou a ela que ninguém vive sozinho, completamente. O que se via em Gladys era o reflexo de sua fortuna e posição social, em que ela se apoiava, e não punha isso em dúvida. Tony disse que não obedeceria a Gladys da mesma forma como obedecia a Claire. Claire possuía bondade, cordialidade e era despretensiosa. O oposto de Gladys Claffern. Por isso, o mérito de se saírem bem na recepção seria somente de Claire. Tony estivera segurando as mãos da mulher, enquanto falava, e ela sentiu-se assustada. O robô havia apertado seus dedos delicadamente, mas apertara, com suas mãos cálidas e suaves. Ela correu para o banheiro, onde escovou furiosamente suas mãos.

No dia da reunião, o relógio deu as oito badaladas, indicando ser oito horas. Claire avisou a Tony para ir ao porão, para não ser visto pelas visitas. Ao invés disso, ele a abraçou, o rosto bem junto ao dela. A pressão dos braços era irresistível. Tony falava, em meio a essa tormenta emocional, que havia muita coisa que ele não compreendia, e esta deveria ser uma delas. Ele não queria partir amanhã. Descobrira em si mais que um simples desejo de agradá-la. Isso não era estranho? Os lábios de Tony se aproximaram dos de Claire. Estavam juntinhos aos dela.

Tony afastou-se, rapidamente. As cortinas exteriores estavam abertas. Quinze minutos antes, Claire as havia fechado...

A recepção foi um sucesso. Gladys estava furiosa, havia o brilho falso nas suas palavras, ela resolvera sair mais cedo. Todas comentavam, surpreendendo Claire:

— ... nunca vi igual... tão bonito...

E Claire os tratara com tanta altivez... sabia o porquê. Porque nenhuma tinha um amante tão bonito quanto ela. Podiam dizer que Gladys era mais bonita, com mais classe, mais rica... mas em matéria de amantes... não!

Susan Calvin opôs-se à ideia de uma modificação radical nos modelos TN-3. Mas não pelos motivos óbvios. Tony não estava “trocando carinhos” com sua dona, mas estava protegendo-a. De acordo com a Primeira Leia da Robótica, o robô não podia permitir que um ser humano fosse prejudicado, e Claire Belmont o estava fazendo, devido a um complexo de inferioridade não resolvido. Tony fingiu apaixonar-se por ela, já que mulher alguma ficaria insensível ao fato de despertar paixão em um ser frio e sem sentimentos, como um robô. Ele abrira as cortinas de propósito, para despertar inveja nas outras convidadas. E, como ele era um robô, não correria o risco de destruir o casamento de Lawrence e Claire Belmont.


Isaac Asimov escreveu este conto, “Satisfação Garantida”, em uma coletânea, em 1964, “The Rest of the Robots”, publicada no Brasil pela Editora Exped — Editora Expressão e Cultura, como “Os Novos Robôs”. Asimov foi chamado de “A Máquina de Escrever Humana”, em uma publicação, muitos anos atrás. De fato, os 463 livros que escreveu são uma prova de sua genialidade. Somando toda sua obra publicada, desenhos, livros próprios e editados, atingiu 509 volumes, Foi membro e vice-presidente durante muito tempo da MENSA International (associação mais antiga do mundo, que congrega o maior número de pessoas de alto Q.I. do mundo, ou, mais precisamente, os dois por cento de toda a Humanidade), da qual dizia que seus membros estavam se tornando “combalidos, intelectualmente”.

Asimov fez uma série de previsões para os dias atuais. Previu com exatidão a Internet, o micro-ondas de nossas cozinhas, a fibra óptica, o microchip, a televisão de tela plana e a depressão que atingiria as pessoas nos nossos tempos. Mas errou, ao predizer as usinas de fusão nuclear e os carros voadores como comuns em nossa civilização.


Os robôs de Asimov, eu já havia dito em outro de meus artigos das Sextas-Feiras, no site da Revista Conexão Literatura, não foram feitos para prejudicar os seres humanos. Isso está bem claro na Primeira Lei da Robótica, escrita por Isaac Asimov. Uma sociedade igualitária, em que robôs — que se tornariam algo além de simples máquinas? — usufruiriam inclusive do direito de votar, seria muito mais utópica do que poderíamos imaginar? Imagine que um robô cometa um assassinato sem a intenção de matar. Imagine que um robô caia do quadragésimo andar de um edifício e esmague uma ou várias pessoas. A meu ver, se o robô for tão avançado como nos livros de Asimov, as pessoas estariam, no começo de sua implantação na sociedade, realmente apavoradas. Mas não mais do que se um bloco de concreto caísse de um edifício em construção e matasse alguém!

Demoraria mais de cinquenta anos para que robôs dotados de forma humana fossem aceitos como integrantes “humanos” de nossa civilização. Uma civilização tão enraizada em medos, fobias e preconceitos, que não aceitaria facilmente uma “mera máquina” como parte integrante do círculo social global.

Não seria por isso que robôs não deveriam ser construídos. Eles já o são, são peças integrantes na indústria. Nas residências, máquinas que funcionam sem o auxílio do homem — aspiradores de pó robóticos são apenas um caso simples. Apesar de não terem a aparência humana, hoje  os robôs ajudam o homem em tarefas, como explorações submarinas, no desarmamento de bombas, em todo trabalho que ponha em risco a vida humana. Não são considerados abominações, “imitações humanas”. Não tem forma nem rosto humanos. São considerados máquinas bastante úteis. No futuro, daqui a cem anos, para mais ou para menos, quando poderemos colocar nossa marca no corpo e no rosto de um robô, tornando-o virtualmente indistinguível ao homem, este poderá se sentir até incomodado de ter uma máquina semelhante a ele.

De todo modo, Isaac Asimov criou um mundo de Ficção Científica que coloca o robô como um desafio. Jamais cometeria um crime, jamais magoaria uma pessoa. A não ser, é claro, que suas Leis da Robótica que controlariam sua personalidade fossem suprimidas ou adulteradas.

Mas então, teríamos algo completamente diferente do que Asimov concebeu, teríamos uma simples máquina sem uma “moral”, por assim dizer.

*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
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