sexta-feira, 24 de maio de 2019

Sobre o conto de Isaac Asimov, “O Bardo Imortal”

Isaac Asimov - Imagem divulgação
*Roberto Fiori

O Dr. Phineas Welch conversava com Scott Robertson, o instrutor de inglês da escola onde ambos trabalhavam. Welch dizia que conseguia trazer de volta espíritos do passado. Ao que Roberson exprimiu sua descrença. Mas o cientista afirmou que não só espíritos, mas também os corpos das pessoas já mortas ele conseguia trazer à vida. Isso era desculpável, estavam na festa anual de Natal, e as pessoas se encontravam ligeiramente altas, com doses etílicas um pouco elevadas.

Roberson disse não achar ser isso possível. Mas Welch argumentou que era uma simples questão de transferência temporal. Scott achou ser a viagem no tempo algo um pouco invulgar. Mas o Dr. Phineas disse que não contaria a ele o segredo. Já tinha trazido várias pessoas – Arquimedes, Newton, Galileu.

Porém, eles não se deram bem com nossa época. Ficaram isolados e
muito assustados. Welch disse que eles não se adaptaram, então os enviou de volta ao passado. O Dr. Phineas Welch tentou então trazer Shakespeare. Era uma mente universal, adaptável. E o cientista conseguira a assinatura dele, como lembrança.

Robertson perguntou qual a aparência dele. Calvo, um bigode feio, falava em sotaque forte. Welch disse ao escritor que os livros de Shakespeare eram as melhores obras em língua inglesa que existiam. Provavelmente em qualquer língua. E que as pessoas escreviam livros sobre suas obras.

Welch mostrou-lhe um livro de estudo sobre Shakespeare. Ele não parava de repetir: “Que Deus tenha misericórdia. O que não arrancam das palavras em cinco séculos? Dá pra arrancar, acredito, uma torrente de um pano molhado”. Welch disse que Shakespeare escrevera Hamlet em menos de seis meses, por conta da pressão para entregar o trabalho. A trama, segundo Shakespeare, era antiga, ele apenas lhe dera polimento.

Scott disse indignado que era o que faziam com o espelho de um telescópio: apenas lhe davam polimento. Welch disse a Robertson que havia matriculado o célebre escritor no curso noturno de extensão, que o professor de inglês ministrava. Shakespeare estudou como ninguém mais. Deu um duro danado...

Robertson começou a achar que tudo aquilo era algo mais que uma simples fantasia alcoólica. Havia realmente um homem calvo, em seu curso, com um modo estranho de falar... Welch disse que o matriculou sob nome falso. Foi um erro, sua matrícula. Um enorme erro.

Quando Scott lhe perguntou por que havia sido um erro, Welch respondeu, trovejando: “Tive de mandá-lo de volta para 1.600. Afinal, qual o homem que aguenta tanta humilhação?

A humilhação, disse Welch, era ter sido reprovado por Scott Robertson.

Este é um conto satírico de Isaac Asimov (1920-1992), que muitos se sentirão divertidos (assim como eu) ao lê-lo. Asimov tinha o talento de escrever sobre qualquer assunto, seja dramas, sátiras, assuntos proféticos e, á claro, divulgação científica. Autor de mais de 500 publicações, não apenas livros de sua autoria, mas também compilações de vários autores.

Este conto trata de um personagem histórico, Shakespeare, com uma melhor capacidade adaptativa a nosso tempo que outros célebres personagens da História, mas que sucumbe quando sua especialidade — a língua inglesa — é demasiado complexa para ele, a ensinada em nossos dias. Muito provavelmente, foi a Literatura Inglesa de nossos dias que pareceu incompreensível para tal gigante da literatura mundial.

O que você faria se um dia ganhasse o Prêmio Nobel de Física, em um assunto dos mais complexos que existem — a unificação das forças da natureza em uma única equação — e, de repente, fosse humilhado, seja pelos motivos que levaram Shakespeare a se sentir derrotado, no conto de Asimov, seja nos termos em que suas teorias estariam completamente erradas, desde a mais simples operação matemática, até a física quântica e a relatividade de Einstein? (que são condições básicas para que, em sua unificação, possa-se desenvolver uma equação “mágica”, que condense toda a Física existente até hoje)

Um cientista que vê a obra de toda sua vida sendo esmagada e destroçada até não ser capaz de ser reconhecível é algo muitíssimo sério. Toda uma existência de lutas, sacrifícios, trabalho incessante, sendo convertida a menos do que nada. Isso é motivo inclusive, após uma crise de depressão, do cientista tentar o suicídio.

Mas a história de Asimov é uma lição para que nunca se deva acreditar que o que se produz de mais avançado em qualquer Ciência é a última palavra em termos de desenvolvimento científico. É um alerta para que saibamos que o conhecimento científico sempre está em evolução, crescendo em matéria de qualidade e de quantidade.

Hoje, estamos mais perto de desvendar a natureza das Estrelas de Nêutrons. Mas, na década de 1970, um livro, “O Colapso do Universo” (The Collapsing Universe), escrito por Isaac Asimov — uma obra fascinante de divulgação científica — já especulava sobre os híperons, que seriam partículas hipotéticas que constituiriam o interior de tais estrelas. Hoje, as mais avançadas teorias nos dizem que os híperons, no interior dessas estrelas, seriam formados por um determinado tipo de quarks (os tijolos fundamentais de construção da matéria, inclusive dos nêutrons), os “quarks strange”, com massa elevadíssima. Temos de observar, nesse caso, que as ideias de Asimov, no século passado, não sofreram qualquer golpe, qualquer adversidade. Continuam válidas, tanto que os híperons são estimados como o constituinte das estrelas de nêutrons, em teoria.

A Ciência já preconizou, em 2010, que o Cosmos está em constante expansão. Quem garante que este é um conceito imutável? Que realmente isso acontecerá nos próximos bilhões de anos? Uma contração do Universo foi aventada por George Gamow, em seu livro 1, 2, 3... Infinito, e por Isaac Asimov, em várias de suas obras sobre Ciência.

O fato é que tudo é mutável. Nós, em um braço da Via Láctea, uma galáxia comum, de 400 bilhões de estrelas, não podemos nos considerar os Senhores da Verdade.
Há um longo, longo caminho para conhecermos a Natureza, primeiro em nosso Sistema Solar, depois nos Sistemas mais próximos em nossa galáxia, e em nossas galáxias vizinhas, nos aglomerados de galáxias no Grupo Local. Isso levará milhares e milhares de anos para acontecer, senão mil vezes mais. E será apenas uma fração ínfima do que existe no Universo, pelo menos o observável. O que se encontra além de nossos instrumentos, isso levará um tempo um milhão de vezes maior para que naves estelares de exploração possam alcançar. Ou mais.



*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
Na editora, pelo link: Clique aqui.
No site da Submarino: Clique aqui.
No site das americanas.com: Clique aqui.

E-book:
Pelo site da Saraiva: Clique aqui.
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