sexta-feira, 3 de maio de 2019

Sobre o Conto Fantástico “Todo o Tempo do Mundo”, do cientista Arthur C. Clarke

Arthur C. Clarke - Foto divulgação
*Por Roberto Fiori

Robert Ashton recebeu a visitante em seu escritório, com cautela. Uma pessoa que fosse inesperada, sem avisar que viria, era um perigo em potencial. Mesmo não tendo sido avisado por outros de que a mulher poderia fazer parte da polícia, não convinha correr riscos desnecessários. No círculo social do qual Ashton fazia parte, mulheres estavam acostumadas a receber joias, dinheiro ou roupas, mas respeito estava fora de questão. Então, permaneceu sentado.

Porém, a mulher possuía uma autoridade em seus gestos e seu porte que o fez se levantar. Diferente das pessoas com quem estava acostumado a lidar, ela tinha algo a mais: um cérebro, que Ashton suspeitava ser equivalente ao seu. Mas a estava subestimando grosseiramente. Ela abriu a bolsa grande e elegante que carregava e jogou um maço de quase cem notas de cinco libras, falando que era uma amostra do que ganharia, se reunisse as peças da lista que fizera e as trouxesse até ela, no lugar e tempo determinados. Ashton era cauteloso: indagou onde ela conseguira o dinheiro. Ela respondeu, no Banco da Inglaterra. Eram genuínas, mas ele podia fazer o que bem queria com o dinheiro, até jogá-lo fora. Robert disse que os itens da coleção se encontravam no Museu Britânico e notou que não poderiam ser comprados ou vendidos. Ela disse que era uma colecionadora.

Ele falou que, por um milhão de libras poderia executar o serviço. Ela disse que ele não a estava levando a sério, que ele poderia conseguir essa soma facilmente. A mulher jogou um colar para Ashton, que o apanhou no ar. Continha o maior diamante que ele já vira, deveria ser uma das joias mais famosas do mundo. Ele duvidou dela: disse que poderia ser facilmente apanhado pela polícia, assim que tivesse em mãos o primeiro item da lista. Ela falou para ele olhar para fora do escritório. Ele disse, ao ver a locomotiva ali perto, no pátio de manobras, que ela deveria ser uma bruxa. Pois a locomotiva estava imóvel e uma nuvem de fumaça acima dela encontrava-se também imóvel. As nuvens do céu estavam estáticas, tudo o que se encontrava na Terra estava imobilizado.

Ela falou para ele não ser tolo. A explicação era simples, um minuto fora do escritório equivalia a um ano dentro dele. Tirou da bolsa um bracelete prateado de metal, com botões e mostradores incrustados. Disse que era uma espécie de gerador pessoal. Ele poderia roubar tudo o que existia na lista, sem ser impedido. A quilômetros de distância, poderia desligar o campo do aparelho e voltar ao mundo normal. Mas o campo do gerador tinha um alcance de dois metros. Assim, Ashton precisaria manter essa distância de qualquer pessoa, no mínimo. E ele jamais deveria desligá-lo até completar as tarefas e recebido o pagamento. Isso era importante.

Robert teria de buscar ajuda para completar sua missão. Então, dirigiu-se ao estabelecimento de Tony Marchetti, onde Aram Albenkian, o “marchand” mais desonesto do mundo que Ashton conhecia, trabalhava. Depois de verificarem que ambos possuíam um bracelete idêntico ao de Ashton, Aram disse:

— Como você explicaria esse bracelete? Está além dos sonhos mais delirantes de nossa tecnologia. O que deixa uma explicação, apenas. As pessoas que nos procuraram e nos deram essas coisas vêm de outro lugar. A Terra vem sendo despojada de seus tesouros, sistematicamente. Antes do dia acabar, as pessoas sofrerão um choque com o que ocorrerá no Louvre.

Robert Ashton despediu-se e foi procurar Steve Regan, que faria com ele o trabalho. Steve lia somente histórias em quadrinhos, mas aceitou normalmente o fato de existir um gerador, um “acelerador”, como o bracelete, o que surpreendeu Ashton. Robert deu a ele um bracelete extra, que a mulher lhe fornecera. E caminharam até o museu. Quebraram muitos painéis de vidro e painéis das estantes para recolher livros e obras de arte de conteúdo inestimáveis. Antiguidades sem preço em cada uma das galerias foram coletadas: o Vaso de Portland, cuja redoma fora espatifada pela segunda vez na História. A bandeja de prata do Tesouro Mildenhall. E muito mais. 

Saíram por uma rua lateral, que não possuía pedestres, e Ashton apanhou a pulseira de Steve. Afastou-se dele e viu-o congelar-se. Steve voltara à linha do tempo normal, vulnerável como todo o resto do mundo. A mulher já havia transportado as peças do museu e esperava-o no pátio deste, quando Ashton voltou. As pessoas que faziam parte do grupo da mulher tinham seus poderes, além de modificarem o curso do tempo.

Ela lhe disse que eles podiam viajar no tempo, para o passado, somente sob a liberação de uma quantidade imensa de energia, e, mesmo assim, somente poderiam enviar suas mentes para o passado. No caso dela, pagaram a uma outra pessoa para poderem, com sua aceitação, tomar emprestado seu corpo por algum tempo.

Havia mais uma coisa que Robert deveria saber. A História do mundo de Ashton estava prestes a acabar. A mulher apontou para o outro lado da rua, para um estande de revistas e jornais, onde um jornaleiro estava agachado sobre sua pilha de jornais. Robert discerniu uma manchete, mal e mal, devido à distância em que se encontrava do jornal:

SUPERBOMBA:  TESTE  HOJE

A mulher explicou. Ela e outros vieram, não de um outro lugar, mas do futuro. Tinham vindo à época de Ashton e ela o contratara para resgatar as obras de arte mais preciosas que a Humanidade já produzira. Pois, a 3.200 quilômetros de profundidade, no núcleo denso e líquido, a matéria se encontravca comprimida e só podia existir em dois estados estáveis. Com um estímulo correto, no caso, dado por uma espoleta — a superbomba —, a matéria poderia mudar de um estado para o outro, sob consequências. Os oceanos e os continentes seriam atirados para o espaço, devido à imensa energia liberada. Era a quantidade de energia necessária para se viajar no tempo, mesmo sob as condições observadas. O Sol ganharia um novo cinturão de asteroides. O cataclismo enviaria aos homens do futuro os meios para se abrir uma porta através do tempo, o suficiente para que eles pudessem penetrar na fenda aberta até os dias atuais, de Ashton.

A mulher falou que, “apesar dos motivos puramente egoístas e desonestos, Ashton prestara um serviço à Humanidade que nunca lhe tinha passado pela cabeça... e, agora, ela deveria retornar à sua nave, junto às ruínas da Terra, quase 100.000 anos no futuro. Robert podia ficar com o bracelete, como afirmara que desejava”.

A mulher congelou, tornando-se novamente uma estátua no meio da rua. Ashton encontrou-se novamente sozinho. Percebeu que deveria manter o bracelete ligado — oh, sim, a mulher lhe explicara que a energia dela duraria a vida toda de Robert —, ou, em poucos segundos, o resto da existência sua e da Terra se escoariam. Ou, nem mesmo isso, porque a bomba já deveria ter explodido...

Começou a pensar. Não havia razão para pânico. Devia aceitar as coisas com calma, sem histeria. Afinal, tinha todo o tempo do mundo.

Essa hitória, “Todo o Tempo do Mundo” (“All the time of the world”, Better Publications, Inc.; 1952), me chamou a atenção: Arthur C. Clarke estava falando do fim da Humanidade, sem recorrer a acontecimentos dramáticos em excesso ou violentos, como era sempre seu hábito. Clarke era assim, sua personalidade deveria ter sido de tal modo pacífica, que ele jamais colocaria uma cena sangrenta ou sádica em seus textos.

O conto nos fala de uma equipe de seres do futuro que incorre na destruição da Terra para roubar o que existia de mais valioso nos tesouros artísticos e culturais que o Homem já produzira, no decorrer de seus milhares de anos de existência. Não importando as consequências de seus atos, permanece a questão: “O que eles fariam com tanta riqueza, sem a Terra para dar a eles o que eles talvez mais quisessem, dinheiro?”

Está claro que dinheiro eles já tinham e talvez o desprezassem. Vivendo 100.000 anos no futuro, eles já teriam contatado outras raças, em outros mundos. Ganhariam algo muito mais precioso que dinheiro. Talvez informações, talvez tecnologia alienígena. Talvez poder incomensurável, em troca do tesouro artístico que conseguiram. Algo que significasse muito mais para eles do que a existência da Terra. Algo mais valioso que um único e insignificante mundo.

Lembro-me de que, quando li este conto, já com mais de vinte anos, me senti amargurado. Por que Clarke nos dá aquela “facada nas costas”, quando poderia escrever sobre um assunto menos cataclísmico e destruidor do que a aniquilação de toda a raça humana e seu mundo, ao invés de tentar escrever sobre assuntos mais elevados, como conviria a um escritor de gênio, um mestre na Ficção Científica? 
Creio que Clarke quis nos falar sobre um assunto como qualquer outro, pois tinha a capacidade para fazê-lo. No mundo das máquinas, computadores, robôs, naves, mundos, que é a Ficção Científica em geral, um escritor não precisa censurar a si mesmo e impedir-se de contar uma história de alto grau de qualidade e, ao mesmo tempo, que discorra sobre um assunto que em alguma época da sociedade seria vista como “tabu”, ou proibida.

Um escritor deve escrever sobre aquilo que gosta e que as outras pessoas apreciem, também. Não importa se o tema é a guerra bacteriológica, a viagem às estrelas, o destino terrível que a raça humana pode ser vítima, após algumas pessoas terem tentado modificar o passado e cometerem atos que afetam a vida no futuro... qualquer tema na Ficção Científica deve ser abordado, sem reservas.

Clarke conseguiu isso, de uma maneira muito original, com “Todo o Tempo do Mundo”. Ele nos fala sobre como seria o fim do mundo e como seriam as pessoas responsáveis por ele, sem cair em lugares-comuns ou dramaticidade em excesso. 

Trata-se de outra obra-prima de Arthur C. Clarke, um escritor que já falou sobre o fim da raça humana como a conhecemos hoje, em seu célebre livro “O Fim da Infância” (“Childhood’s End”).

*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
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