sexta-feira, 28 de junho de 2019

Sobre o Conto “Sonhar é Assunto Particular”, de Isaac Asimov

Isaac asimov - Foto divulgação
*Por Roberto Fiori

Jesse Weill, da “Sonhos & Cia”, tivera de conversar com algumas pessoas, quatro vezes, hoje.

Primeiro, Joe Dooley, um funcionário caça-talentos da companhia, lhe havia trazido uma família — o pai era um trabalhador, os dedos grossos, espadaúdo. O filho... segundo Joe, que conversara com ele antes, era um sonhador latente. Tommy Slutsky. Quando Weill o testou, dando a ele um pensador — um capacete para o qual as pessoas podiam enviar seus sonhos e pensamentos —, Tommy se assustara um pouco. Mas ele acabara colocando-o e enviara uma sequência de imagens sobre o que gostaria de fazer após a escola: viajar em um estratojato. Sim, depois, Weill falara a sós com Dooley, aceitando o garoto como sonhante em potencial. Acertara com o pai de Tommy que a “Sonhos & Cia” pagaria cem dólares agora a ele, depois quinhentos dólares por ano para que Tommy passasse uma hora por semana na escola especial para sonhantes, na empresa. 

A concorrente da “Sonhos & Cia”, a “Pensa-Brilha”, havia oferecido ao pai de Tommy uma garantia, antes de ele ir à firma de Weill. Uma garantia para que Tommy fosse treinado para ser um sonhador. Ao que Weill argumentara que a “Pensa-Brilha”, se dissera que daria uma garantia, assim o faria, mas que não podiam fazer do garoto um sonhador, se isso não era o que ele tinha como potencial. E, se levassem o menino a um curso de desenvolvimento sem que o garoto possuísse as aptidões naturais necessárias, o arruinariam. O pai de Tommy decidiu assinar o contrato com a “Sonhos & Cia”.

Jesse Weill comentou com Joe Dooley que, um dia, os bebês, todos, teriam seu teste para que se soubesse se seriam sonhadores em potencial ou não. Tommy sonhara, no escritório de Weill, com um voo entre nuvens, e estas lembravam, a quem absorvesse seu sonho, com travesseiros. E isso diferenciava Tommy Slutsky das outras pessoas comuns: se estas sonhassem com nuvens, o sonho aparentava haver apenas nuvens, e se sonhassem com travesseiros, nada além de travesseiros. Mas Tommy sonhara com nuvens, e elas eram algo mais, além de nuvens e travesseiros. Esta era a diferença entre um sonhador e uma pessoa comum.
A segunda conversa se deu com John J. Byrne, do Departamento de Artes e Ciências do governo. Trouxera um cilindro contendo um sonho e pedira para que Weill o absorvesse. Programara para que houvesse um corte no primeiro minuto. Depois de colocar o pensador, Weill crispara as mãos em suas roupas, ao absorver “aquilo”. Disse a Byrne que aquela coisa era algo cru, e era uma sorte ele já ser velho, de modo que essas coisas já não o incomodavam. A produção não era da “Sonhos & Cia”, ou qualquer produtora de sonhos idônea, mas obra de um amador, feita a um custo muito baixo. 

Byrne falara que deveriam pôr um fim àquilo. A moral da nação estava em sério risco. Aquele cilindro, contendo um sonho pornográfico, era passado diretamente de cérebro a cérebro, e era muito diferente de um filme ou revista erótica. Sonhos pornográficos eram mais eficazes, pois não eram filtrados pelos sentidos humanos, perdendo, assim, parte de seu efeito. Weill falou que um sonhador, quando sonha, deixa os “tons maiores” registrados no sonho. Era mais do que um homem comum podia fazer. Qualquer pessoa que absorvesse um sonho podia identificar a qualidade do sonho; esta era devido aos “tons maiores”, a marca registrada do sonhador.

Além disso, quando um sonhante sonha, uma centena de sensações são registradas no sonho. Quando ele sonha com um churrasco, deixa no sonho não somente o gosto do bife, mas o ato de cortá-lo com a faca, o calor do carvão e muitas e muitas outras sensações. Aquele cilindro pornográfico não era obra de um verdadeiro sonhante; era obra de uma pessoa comum, que pensava de modo bidimensional, sem “tons maiores” ou sutilezas especiais. Era produto de ínfima categoria.

Segundo Byrne, o aparecimento de cilindros com sonhos pornográficos iria ocasionar o surgimento de uma censura contra os sonhadores profissionais.

A terceira conversa foi com Francis Belanger. A concorrente da “Sonhos & Cia”, a empresa “Pensa-Brilha”, estava instalando palácios de sonhos. Trezentos clientes podiam absorver e compartilhar o mesmo sonho. Aparentemente, a “Sonhos & Cia” teria de refazer sua política de distribuição de sonhos. Ela produzia sonhos de alta qualidade e, de acordo com o sonho que Belanger dera agora para Weill absorver, da empresa concorrente, esta estava produzindo sonhos comuns, sem nuances especiais. Para Weill, não constituiria problema para a “Sonhos & Cia”, o surgimento de palácios de sonhos da “Pensa-Brilha”. Já fora tentado no passado e não dera certo. Porque ninguém gosta de saber que a pessoa do lado está sonhando o mesmo sonho. Sonhos eram assunto particular. Também havia o problema de só se poder receber um sonho à hora em que o gerente do palácio decidisse. Isso afastava os clientes. E, por último, havia o problema de nem todos os clientes gostarem do mesmo sonho. Era provável que das trezentas pessoas que sonhassem, cento e cinquenta ficassem insatisfeitas.

Belanger falou que a “Sonhos & Cia” teria de se modernizar. Mas Weill era resoluto. Sua empresa baseava-se na qualidade dos sonhos, acima de tudo. Podia ser que os palácios de sonho fossem o futuro, mas no momento, não era o objetivo da “Sonhos & Cia”.

Nesse momento, entrou na antessala do gabinete de Weill, Sherman Hillary, o principal sonhante da empresa. Seus sonhos nunca eram uma perda total, apesar de os últimos carecessem de certas qualidades excepcionais do início da carreira de Hillary. Quando Weill permitiu que ele entrasse no escritório, Hillary anunciou que estava parando. Sua vida estava indo por água abaixo. Não dava atenção mais à família. Sua filhinha não o reconhecia mais. Uma vez, tinham ido a um jantar. Sherman ficara parado no sofá, olhando para o vazio e cantarolando. Sua esposa chorara muito, à noite.

Weill mandou trazerem o contrato de Hillary. Rasgou-o em quatro partes e jogou-o no lixo. Estava feito, agora tudo estava bem. Sherman agradeceu muito e sentiu que as coisas tivessem passado dessa maneira. 

Quando Hillary saiu, Weill falou para Belanger que o contrato era falso. E Francis soube então que a coisa mais importante no negócio dos sonhadores é o sonhante. Weill falou que, assim como no passado os escritores para a televisão não conseguiam parar de escrever, porque as ideias não paravam de surgir em suas mentes, assim o era com os sonhantes profissionais. Para onde quer que Hillary fosse, ele sonharia. E isso era digno de pena, pois os sonhadores eram os verdadeiros escravos de si próprios. Faziam as pessoas felizes, mas somente as outras pessoas...


Este conto, “Sonhar é Assunto Particular” (“Dreaming is a Private Thing”), foi publicado pela primeira vez em 1957, na antologia “A Terra Tem Espaço” (“Earth is Room Enough”), edição americana. Depois, em 1979, na Editora Hemus, essa coletânea foi novamente publicada, em português, no Brasil, sob o mesmo título.

O que você sonha é essencial para sua sanidade mental, assim dizem os psicólogos e psiquiatras. Uma válvula de escape para as tensões da vida, que vem através de uma linguagem codificada, constituída por símbolos e imagens, cores e sons. Você pode até não sonhar, ou se esquecer de sonhar, mas sem o sono, todos morremos. Todos precisamos descansar, tanto o corpo, como o cérebro, de tempos em tempos. E o cérebro é o órgão mais complexo que conhecemos, não deixando de ser, porém, um músculo, assim como nosso bíceps. Em certas áreas do cérebro, há estimulação, durante o sono, enquanto que no resto desse órgão, há descanso. Assim, certas áreas se alternam com outras, sendo estimuladas e deixando as demais relaxarem. 

Um sonho é constituído de uma série de códigos. Tais códigos, se analisados pelo psicoterapeuta, evidenciam o estado mental do paciente. Sua condição emocional e sua sexualidade podem ser traduzidas pelo médico, portanto. Freud foi o principal especialista a estudar o sonho, em sua obra “A Interpretação dos Sonhos” (publicado em 1899), utilizando técnicas da hipnose e da associação livre do conteúdo do sonho (a pessoa fala o que lhe vem à mente, em relação, nesse caso, ao sonho).

Por que precisamos do sonho, assim, como chave para a interpretação do infinito oceano que é o inconsciente, onde estão guardados todos os acontecimentos registrados pelos sentidos, todos os sons, todas as imagens, todas as emoções? Primeiramente, o inconsciente não pode ser medido em metros, quilômetros, anos-luz, “parsecs” ou qualquer outra unidade métrica que o homem possa imaginar. Qual o tamanho e a cor da emoção? Se você está triste, a tristeza é representada, talvez, pela cor azul, ou verde, mas a pessoa que perde a mãe, por exemplo, jamais verá esse acontecimento como um som, ou uma cor, nem poderá medi-la. Ela sentirá a dor da perda, pela sensação que tal perda provoca em seu organismo: ela chorará, ela se tornará, com toda certeza, temporariamente reclusa (luto), ela sentirá dor física, ela sofrerá.

O inconsciente é um universo que guarda memórias e emoções que podem ser acessadas pelo nosso consciente, bem como lembranças e condições emocionais que são censuradas pelo nosso Superego. Nós não suportaríamos saber fatos que nos dizem respeito e que não são aceitos por nossa moral e educação. 

O Superego barra tais condições. Ele proíbe que saibamos sobre nosso próprio íntimo. Do contrário, poderíamos ficar irremediavelmente doentes e talvez morrermos. Mas nosso organismo, elaborando símbolos, que podem ser imagens, sons, cores, sequências de acontecimentos (como em filmes), para exprimir o que temos de proibido pelo nosso condicionamento social, faz com que não soframos. Temos o sonho e pronto. Não há, aparentemente, mais nada a dizer sobre ele. “É um simples sonho. Uma historinha sem importância”, as pessoas comuns diriam. Para o estudioso, o psicanalista, um sonho conta muito sobre a vida de seu paciente, muito mais do que ele talvez gostasse de saber. 

Em muitos casos, pela hipnose, barreiras do medo e do horror ao proibido, que existem no Superego, são retiradas, em pessoas sugestionáveis — nas quais a hipnose pode exercer alguma influência. Trata-se de o paciente querer ser tratado pela técnica da hipnose, da técnica de associação de ideias e pela psicoterapia em geral. Trata-se de a pessoa querer melhorar de vida, colocando seus medos e ansiedades à mostra, para serem ser analisados pelo terapeuta, isso quando o médico é competente e de extrema confiança. E, assim, resolver seus conflitos, traumas, medos, ansiedades, depressões ou síndromes.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
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