quarta-feira, 10 de julho de 2019

João Jonas Veiga Sobral e o livro Como Machado de Assis pode relativizar sua vida, por Cida Simka e Sérgio Simka

João Jonas Veiga Sobral - Foto divulgação
Fale-nos sobre você.

Sou professor há 30 anos da rede particular de ensino. Atualmente leciono Literatura no Colégio Miguel de Cervantes onde também sou Orientador Educacional. Sou colunista da revista Educação. Fui colunista da revista Língua Portuguesa de 2008 a 2017. Sou autor do Guia do estudante Língua Portuguesa da Editora Abril. Fui consultor de Língua Portuguesa de 2011 a 2017 na Editora Abril. Publiquei pela Editora Moderna o livro "Gramática caderno de revisão", pelo Sistema Uno "Gramática expresso 2.2", pela Editora Iglu "Português prático", "Redação para todos", "Guia de conjugação e concordância" e "Redação empresarial". Recentemente, publiquei pela Editora BUZZ "Como Machado de Assis pode relativizar sua vida".
 
ENTREVISTA:

Fale-nos sobre o livro "Como Machado de Assis pode relativizar sua vida". O que o motivou a escrevê-lo?

O livro nasceu de uma conversa com a editora Simone Paulino que havia publicado "Como Clarice Lispector pode mudar sua vida". Trabalhamos juntos como professor em um curso para formação de escritores. Eu ministrava um módulo sobre a narrativa machadiana. Daí veio o convite para que eu escrevesse sobre Machado. A princípio, imaginei que teria dificuldade em mostrar como Machado poderia mudar a vida de alguém, porque não vejo nele um escritor moral. Então, pensei no verbo "relativizar". O Bruxo foi um grande relativizador das questões humanas. E aí, com a experiência acumulada por anos, me lancei a analisar a obra de Machado alinhavada à nossa vida cotidiana, tentando mostrar como nossas ações, pensamentos, autodesculpas, dramas, receios, enfim, nossas idiossincrasias descascadas.
Em nove capítulos (o escritor relativista, vaidade, ser e parecer, amor, educação, pobreza, poder e entrevista), analiso excertos da narrativa de Machado e os coloco à prova e à relativização quando comparados ao nosso comportamento diário.
Machado, como poucos escritores, soube vasculhar as entranhas do eu e roê-las meticulosa e ironicamente. Mas não rói de todo, deixa firme e desnudo o alicerce que sustenta as relações sociais e os arames que amarram fato moral à interpretação que o ajusta e o molda conforme as conveniências e as necessidades. O conto “O enfermeiro” pode ser tomado como exemplo dessa entranha e desse alicerce roídos e esgarçados por Machado, a narrativa ilustra um homem que, movido pela verdade, criada para si, expurga o sentimento de culpa e se ajusta à vida social e à interior com a tranquilidade dos justos. Assim, o Bruxo põe abaixo a certeza frágil cunhada pelo dito popular “o importante é dormir com a consciência tranquila”, porque sabia que a consciência pode manipular a verdade de tal forma que, com o tempo, essa verdade criada pode manipular a consciência. Consegue-se, assim, o sono tranquilo, numa espécie de moral invertida. Movido por essa verdade e essa consciência inventadas e manipuladas, Procópio, personagem de “O enfermeiro”, não se abate nem se delata pelo sentimento de culpa; simplesmente, aos poucos, o enfermeiro retira de si toda e qualquer responsabilidade sobre a morte que impôs ao coronel Felisberto que o contratou, ajustando para isso também a opinião alheia sobre o fato, a tal da “solda doméstica” ou moral a que se referia Brás em Memórias póstumas de Brás Cubas. Na cabeça ajustada e automanipulada do enfermeiro Procópio, o crime vai-se transformando em luta, e a luta cede lugar ao merecimento. Foi a estratégia encontrada por ele para adaptar-se à situação nova que lhe é favorável. É a ironia de Machado aos cálculos inevitáveis da vida e à nova categoria moral criada pela personagem tipicamente machadiana: “a injustiça merecida”.
A língua, com a palavra mágica “desculpa”, criou um mata-borrão de erros implacável. Criou de forma tão tácita e certeira que nem precisa aparecer no discurso, é uma espécie de bastão moral subentendido que corre de mão em mão até que o perdão apareça pelo cansaço ou pelo esquecimento.
 Fale-nos sobre outros livros de sua autoria.
Meus outros livros seguem caminho diferente desse último publicado por mim. São livros didáticos adotados na rede privada e pública de ensino. Talvez os mais representativos sejam a Gramática publicada pela Moderna com boa aceitação em escolas de Ensino Médio, e Guia do estudante da Editora Abril. Tenho muito carinho pelo Guia. Fui convidado pela Abril Educação para avaliar o antigo Guia. Da minha leitura crítica saiu o projeto de remodelar completamente o material. Até o fechamento da editora, fizemos nove edições novas do livro com atualizações constantes, porque a língua, a literatura e a redação dialogavam diretamente com a realidade. Era um grande prazer criar todo ano uma nova abordagem para o estudo da língua e da literatura.

Como analisa a leitura no país?

Infelizmente lê-se pouco e muito mal no país. As livrarias estão com a corda no pescoço e as editoras cada vez reticentes a lançamentos, ainda que as independentes andam ousando bastante. Vender 10 mil exemplares de um bom livro no Brasil é uma proeza para poucos. Há, sim, a exceção de sempre, os best-sellers continuam vendendo bem para o nosso padrão de consumo. Mas a boa literatura ou a não ficção de qualidade capengam em vendas e ficam escondidas nas gôndolas no interior das livrarias. Com raras exceções são expostas na entrada das lojas. Talvez seja essa a melhor definição para algumas livrarias, lojas.
Não somos um país de leitores, isso é fato. E talvez tenhamos poucos entre os parcos leitores que sejam bons investigadores do que se está e não está escrito nos livros.
 
O que tem lido atualmente?

Vivo lendo. Posso dizer sobre as leituras mais frescas. Ontem peguei para ler "O Homem que odiava Machado de Assis" de José Almeida Júnior, terminei ontem mesmo. Gostei do livro e da forma como o autor elabora por meio de seu narrador um ódio/amor pelo Bruxo. Terminei semana passada "Maquinação do mundo" do José Miguel Wisnik, um ensaio fabuloso sobre Drummond, mineração e Brasil. Estou agora com duas leituras. Uma é "Sobre o autoritarismo brasileiro" de Lilia M. Schwarcz, um livro contundente que põe abaixo essa fábula da carochinha sobre nosso paraíso tropical, feliz e amistoso. A outra é uma ficção de um jovem escritor brasileiro, Tiago Ferro, "O pai da menina morta". E na sequência lerei "Judas" de Amóz Oz.
 
Quais são os seus próximos projetos?

A curto prazo, continuar com minhas colunas sobre língua portuguesa e orientação educacional na revista Educação e com minhas aulas no Ensino Médio. Além disso há outros dois projetos para médio e longo prazo, um livro sobre Drummond "Como Drummond pode questionar sua vida" e uma ficção "Selva", que retratará a trajetória de uma adolescente no final dos anos 90 até os dias tenebrosos de hoje. A derrocada da vida dela como uma metáfora de país que desce ladeira abaixo.  


Cida Simka é licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Coautora do livro Ética como substantivo concreto (Wak, 2014) e autora dos livros O acordo ortográfico da língua portuguesa na prática (Wak, 2016), O enigma da velha casa (Uirapuru, 2016) e “Nóis sabe português” (Wak, 2017). Organizadora dos livros Uma noite no castelo (Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo melhor (Xeque-Matte, 2019). Integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.

Sérgio Simka é professor universitário desde 1999. Autor de cinco dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a Série Mistério, publicada pela Editora Uirapuru. Organizador dos livros Uma noite no castelo (Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo melhor (Xeque-Matte, 2019). Membro do Conselho Editorial da Editora Pumpkin e integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.
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