segunda-feira, 22 de julho de 2019

Jonathan Aguiar e o livro Educação, lúdico e favela, por Cida Simka e Sérgio Simka

Jonathan Aguiar - Foto divulgação
Fale-nos sobre você.

Quando participo como palestrante nos eventos na área da Educação, sempre me questionam: “Fale sobre você?”. A partir desta pergunta todos querem saber como foi a minha trajetória acadêmica e profissional – sei o quanto é importante esta indagação, até para situar de que lugar estou explanando as ideias que defendo. Contudo, o movimento que venho realizando em cada ambiente que sou convidado é de mencionar que antes de qualquer título ou formação acadêmica que possuo, sou ser humano. Desse modo, tenho conquistado espaços de diálogos com aqueles que não estão dentro das universidades e venho quebrando com o imaginário social que ser um pesquisador é de natureza engessada, chata, onde se utiliza um vocabulário distante da realidade de boa parte dos brasileiros que ainda não ocupam, ou não vivem uma vida acadêmica. Reafirmo que os títulos me possibilitaram ter acesso a lugares que anteriormente não era possível, principalmente por vir de uma família que nunca frequentou as salas de aulas de uma universidade e sobretudo que ainda há em nossa sociedade lugares restritos, que em sua grande maioria só podem ser ocupados por pessoas que têm o título de Mestre ou Doutor. Reconheço o investimento intelectual para se ter tal título, é relevante e se faz necessário, mas não podemos perder a sensibilidade e o direito de todos serem ouvidos, independentemente de possuir tal formação. Acredite! Isto ainda acontece frequentemente em nosso país. Que não percamos a humanidade que habita em mim, e em você, caro leitor. Dito isto, fico à vontade de contar um pouco sobre a minha trajetória profissional que dialoga com as escolhas que fiz no meu percurso formativo de professor-pesquisador. Possuo graduação em Pedagogia pela Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Cursei mestrado em Educação na linha de pesquisa “Ética, Inclusão e Interculturalidade” na mesma instituição, bem como, faço doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação pela UFRJ, sendo bolsista Excelência da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Pós-graduado em Psicopedagogia e Educação Inclusiva. Nos últimos anos tenho me dedicado às pesquisas no campo da Formação de Professores, Lúdico, Criatividade, Alfabetização, Inclusão e Psicopedagogia. Já atuei como professor do Colégio Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, da mesma maneira, possuo experiência na docência em escolas privadas da cidade do Rio de Janeiro, em projetos sociais e na formação continuada de professores alfabetizadores pelo Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. Assim como integrante do grupo de pesquisa Criar e Brincar: o lúdico no processo de ensino-aprendizagem (2013-2018), mas atualmente estou vinculado ao Laboratório de Pesquisa, Estudos e Apoio à Participação e à Diversidade em Educação (LaPEADE) e do Observatório Internacional de Inclusão, Interculturalidade e Inovação Pedagógica (OIIIIPE). Além de compor a Secretaria Executiva do Fórum Estadual da Alfabetização do Rio de Janeiro (FEARJ).

ENTREVISTA:

Fale-nos sobre o seu livro.

O livro “Educação, lúdico e favela: quantos tiros são necessários para aprendizagem?” é o meu recente trabalho publicado pela Editora Wak. Cabe destacar que ter uma obra lançada por esta editora é de imenso prestígio e orgulho. A Wak é uma grande família, sinto-me acolhido por fazer parte desta história.
Em relação ao título desta produção é muito provocativo e chama atenção de qualquer pessoa. Você não precisa ser professor ou profissional da área da educação para ter contato com este manuscrito.
Nesta obra busco por meio de uma linguagem simples, poética e instigante apresentar a importância da atividade lúdica para a construção de um ambiente de aprendizagem, particularmente com crianças que são rotuladas como seres que não aprendem ou que possuem comportamentos agressivos no contexto escolar.
Trago a cada capítulo, melhor dizendo “tiro”, as minhas experiências como morador da favela da Lagartixa (localizada em Costa Barros), as vivências como professor na favela da Maré por meio do projeto “Sabendo Mais” em 2016, onde fui responsável pela implementação das oficinas de jogos, brinquedos e brincadeiras – deu origem ao Instituto Sabendo Mais, que tem como fundadora e idealizadora Sandra Garcia.
A cada “tiro” são problematizados o lugar do lúdico, do brincar, do jogar no desenvolvimento cognitivo, afetivo e relacional de cada sujeito, como também o quanto a universidade precisa se aproximar destas discussões, pois muito se fala sobre a favela, mas pouco se vive. É diferente quando aqueles que de lá saíram ecoam as vozes e dão sentido no fazer científico, escrever livros, artigos, raps, música, arte, dança e outras linguagens que demonstram o quanto este espaço é rico, múltiplo e significativo para a cultura brasileira.  
Este livro não tem a pretensão de se tornar um manual de instrução, mas, sim, ser uma inspiração para outras práticas pedagógicas, para outras histórias de moradores de favela e outros contextos sociais, cujo brincar seja possibilidade de mudança de vida, conscientização e o descobrimento de novas aprendizagens, que acontecem na favela, com a favela e além dos muros escolares. Consequentemente, que o tiro da empatia venha envolver outros professores, estudantes, responsáveis. Que o tiro da escuta sensível, do olhar atento para as tramas da vida venha abrir as janelas para aprendizagem. Afinal, quantos tiros são necessários? Sou suspeito para falar, pois esta obra permite ter outros olhares para o momento em que o Brasil está passando, quando pensamos nos inúmeros desafios que envolvem lidar com a violência, o preconceito e os tiroteios que professores vivem no Rio de Janeiro e em outras cidades, bairros afora por esse Brasil. Mais humanidade por favor! 

O que o motivou a escrevê-lo?


Para falar sobre o que me motivou… Primeiramente tenho que dizer que tenho o costume de registrar as atividades que faço como professor. Se realizo uma tarefa busco fotografar, fazer pequenos vídeos durante e após a atividade proposta para um grupo de estudantes ou até professores. Tanto que, este livro é um intenso mergulho nos registros que fiz ao longo da minha profissão, mas com a autorização das instituições por onde passei e o consentimento de todos os envolvidos. Continuando sobre os motivos, certo dia pensando sobre a minha trajetória de vida, o modo como cheguei na universidade e como este espaço ampliou a minha visão de mundo, relembro uma situação vivida em um congresso nacional em Educação quando um dos professores-doutores, após eu falar que sou morador de uma favela, me disse: “Eu não conheço essa realidade e tenho pavor de quem vem da favela, mas você é diferente. Você tem quase o título de doutor”. Esta fala me motivou, no sentido de tornar visível o que outras pessoas não querem enxergar ou que preferem esconder as suas histórias – quantos precisam ser doutores para serem pelo menos ouvidos? Quantos chegam a ser doutores?
Minha luta é pelo direito de todos serem escutados, todos devem ter o direito de voz, ninguém pode nos silenciar. Essa situação sinto na pele, mas claro que este lugar de escuta e de fala em minha vida, os impactos e percepções são diferentes pela condição que ocupo na posição de doutorando. Então, serei voz, sou voz de muitos que moram nas favelas, nas vielas, nos guetos. Demorei um tempo para assumir esta identidade, vejo que é vital para mudança social e para romper falas discriminatórias e preconceituosas, às vezes, este tipo de relato surge de maneira sutil, entre as linhas da vida, pois denunciarei com muita responsabilidade e diálogo, até porque não posso me calar. Igualmente acontece com nossas crianças, alguns professores falam por elas, como uma situação que vivi na Maré, onde uma docente disse que sua aluna “não sabe nada”, mas diante das observações e as narrativas trazidas pela estudante enquanto brincava, contava que aplicava insulina em sua avó antes de sua morte. Com isso, podemos perceber que, ao executar tal ação a menina possuía conhecimento que às vezes não aproxima com os saberes escolares, ou que jamais foram pensados que uma criança poderia dominar tal conhecimento.
Então, será que crianças não possuem conhecimento? O que está sendo ensinado tem relação com a vida cotidiana? Como propiciar uma aprendizagem significativa que leva em consideração as falas e aprendizagens de cada sujeito? Eis as múltiplas problematizações!!!!  Este livro é sobre minha vida, é sobre docência, jogos, favela, lúdico e pedagogia social, onde articulo com os saberes que fui construindo, aprendendo com a vida, com a universidade, no chão da escola com muito envolvimento e investimento teórico-prático.  

Fale-nos sobre os seus outros livros.

Cada livro é um filho que é gestado por meses, que por fim, chega às mãos de muitas pessoas. São diversos processos de escrita que enfrento, umas mais leves onde posso falar com mais intensidade sobre os meus sentimentos, outras assumem um cunho acadêmico na interface com as pesquisas que venho me dedicando na universidade. Mas me permito dialogar com ambas, para que este conhecimento chegue a todas as pessoas. Isto também é fazer ciência! Quero que meus escritos alcancem o público em geral, não somente os que estão na academia. Tanto que, quando escrevo algo, peço que amigos próximos que não estão na universidade ou na área de pesquisa leiam as minhas produções. Deixo claro que quero durante a minha trajetória aproximar a universidade da vida humana. É um grande desafio, mas não vejo como impossível! Existem outros pesquisadores que fazem este percurso como a própria professora doutora Giovana Xavier.
O primeiro livro chama-se “Essência de um Menino”, onde reúno poemas, frases que impactaram a minha vida desde os meus 16 anos. Uma nova versão, ampliada e revisada está no prelo pela Editora Albatroz. Já o segundo livro “O lúdico é um saber? Vozes docentes sobre o lúdico na docência do Ensino Superior” (Multifoco) é o resultado de minha pesquisa de mestrado em Educação onde discuto a concepção de lúdico dos professores que atuam na docência universitária e se o lúdico habita este espaço. É uma investigação que teve como foco os professores da Faculdade de Educação da UFRJ e como eles entendem a dimensão do lúdico em suas aulas e no curso de Pedagogia na referida instituição. Tal pesquisa foi premiada pela Semana de Integração Acadêmica no ano de 2018, pela UFRJ. A mesma ainda nos move a ter outros olhares para o magistério superior, cujo lúdico pode ocupar como um saber científico, com seriedade e dedicação, sabendo que o brincar deve pertencer à universidade quando estudantes e professores criam estratégias, alternativas na direção do ato de aprender-ensinar a todos, para além do uso de jogos, o que importa é criar vínculo, pois o lúdico só existe quando há interação. Vale a pena ler!

Como analisa a questão da leitura no país?

“O Brasil precisa avançar em relação à leitura” esta é uma frase de impacto que podemos encontrá-la em noticiários, mas devemos tomar cuidado com as certezas e as incertezas que são postas atualmente, principalmente nos meios de comunicação. Quando sou interpelado com este tipo de questão, por se tratar de uma análise, precisamos olhar para as sutilezas, para os detalhes, para a subjetividade humana e assim contesto: “Quem forma o leitor?”, “O que é leitura?” e “O que denomino como leitura?”. Há suas especificidades e jamais podemos abandoná-las. Pois a leitura está ao nosso entorno, no nosso dia a dia, pelos lugares que frequentamos e aos objetos eletrônicos que temos. Certa vez, perguntei a uma professora o que contribuiu para se tornar uma pessoa que gosta de ler. A mesma destacou que foram os momentos em que sua tia trazia da casa da patroa os livros que não servia. Outro momento marcante foi viver em um lar em que seus pais liam diariamente. Percebe-se o quanto esta questão é ampla e complexa. Tenho que me aproximar dos detalhes, das narrativas que às vezes não são trazidas para discussão quando telejornais ou mídias expõem que o nível de leitura é baixo. Claro, que precisamos melhorar estes índices, pois ao falar de leitura remete ao acesso que temos a livros, jornais, revistas em nossa sociedade brasileira, mas evidencio que, com políticas públicas, este alcance se tornou possível nos últimos anos, o mercado editorial cresceu muito. Mas devemos analisar o que está sendo vendido e que tipo de material chega em nossas escolas.
Neste meu livro “Educação, lúdico e favela: quantos tiros são necessários para aprendizagem?” relato que meus pais me tiveram muito cedo (minha mãe com 13 anos e meu pai com 16), ambos pararam de estudar e assumiram outras funções, minha mãe se tornou dona de casa, e meu pai trabalhador e durante o meu crescimento pouco eles tiveram contato com livros. Fui ter contato com a leitura na escola, tanto que na minha adolescência minha mãe começou a gostar de ler após os poemas que escrevia, que se desdobraram, depois de alguns anos, no livro “Essência de um Menino”. Vejamos o quanto esta ação e promoção da leitura na escola e em outros territórios é potente!
Defendo uma escola viva e crítica, em que estudantes tenham possibilidades de realizar leitura de diversos gêneros e autores, não somente daqueles que são ditos como referências – por que não Martha Medeiros? Thalita Rebouças? Sônia Rosa? William Soares? O importante é ler, quem lê conhece outros mundos e explora novos sentidos para a vida, e estes sentidos não são ditos em pesquisas quantitativas. Sei que posso receber críticas após este argumento, mas cabe a reflexão. Viva Paulo Freire, um dos patronos da educação, e que me trouxe outros sentidos para a vida, para o mundo da leitura e para as leituras de mundo.

Como o brincar pode tornar o mundo um lugar melhor para viver?

O brincar é intrínseco ao ser humano, somos todos seres brincantes. No entanto, conforme vamos crescendo, vamos perdendo esta naturalidade de ser sujeitos brincantes, tanto que, durante o exercício da docência, percebo que nos espaços de Educação Infantil tudo gira em torno do brincar. Mas, quando esta criança chega nos anos iniciais do Ensino Fundamental, este brincar vai se perdendo, tanto que, quando mencionamos a palavra brincar, a maioria das pessoas associa a infância, esquecendo que este brincar é humano.
Ao realizar oficina com professores sobre o brincar nos anos iniciais do Ensino Fundamental, uma das docentes afirma “Aqui não é lugar do brincar, essas crianças têm que aprender a ler e escrever”. Por que o brincar não rima com alfabetizar? Por que não caminha com processos de ensino-aprendizagem? Até que ponto, professores vão continuar defendendo este tipo de argumento? Sabemos que estas afirmações não se sustentam, pois o brincar faz parte da vida humana, mesmo em ambientes onde não conseguimos identificá-lo, porque às vezes referimos a jogos, brinquedos e brincadeiras para que de fato ele exista, porém quando paramos para observar com cuidado os modos como os indivíduos se relacionam enxergamos a sua presença. Brincar é linguagem, é comunicação, é estabelecer vínculo e interagir frente aos desafios que batem a nossa porta diariamente. Adianto: são muitos! Como professores, sujeitos brincantes que somos, devemos propiciar na escola e em outros espaços não escolares a leveza, o sorrir, o acolhimento para momentos que jamais pensamos vivenciar. Se há guerra, devemos buscar a paz, mesmo que seja um movimento interno e subjetivo, por isto a aposta se dá por meio do brincar, onde é necessário haver espaços de diálogo, cujos indivíduos possam expor suas ideias, simbolizar, imaginar outras vidas, outros sentidos para o mundo em que se vive. Comportamentos agressivos podem vir à tona, palavras que não estamos esperando podem surgir, mas cabe ao professor ou qualquer educador ser mediador com fim de estabelecer vínculo, respeito, solidariedade, segurança e confiança para todos. Parece utópico, mas é real! Quando aproximamos desses princípios conseguimos tornar o mundo melhor.   

Cida Simka é licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Coautora do livro Ética como substantivo concreto (Wak, 2014) e autora dos livros O acordo ortográfico da língua portuguesa na prática (Wak, 2016), O enigma da velha casa (Uirapuru, 2016) e “Nóis sabe português” (Wak, 2017). Organizadora dos livros Uma noite no castelo (Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo melhor (Xeque-Matte, 2019). Integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.

Sérgio Simka é professor universitário desde 1999. Autor de cinco dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a Série Mistério, publicada pela Editora Uirapuru. Organizador dos livros Uma noite no castelo (Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo melhor (Xeque-Matte, 2019). Membro do Conselho Editorial da Editora Pumpkin e integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.
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