sexta-feira, 26 de julho de 2019

Sobre o Conto “Marciana Idiota”, de John Wyndham

John Wyndham - Foto divulgação
*Por Roberto Fiori
 
Duncan Weaver precisava de companhia. Estava aposentado do trabalho de tripulante de espaçonave, então fora-lhe oferecido um trabalho em uma Estação de Carga em Trânsito, uma sub-lua de Calisto, por sua vez, a segunda lua de Júpiter. Lá, ficaria por cinco anos, ganhando cinco mil libras por ano. Ao fim desse período, poderia juntar o dinheiro e partir para uma vida boa de aposentado em Marte.

Duncan comprou a filha de um marciano, por mil libras. Desnecessário dizer que isso era altamente ilegal, essa transação. Tivera de arranjar um lugar extra, na nave que o levaria de Marte a Júpiter II/IV, o planetoide onde iria passar cinco anos em companhia de Lellie. Lellie era uma marciana muito atraente, para os habitantes de Marte. Mas Weaver não concordava. Considerava-a uma marciana idiota, pois seu rosto não se alterava, tinha uma sobrancelha torta e era quase muda. Falava de uma maneira estranha: em vez de “sim”, dizia “tsim”, por exemplo. Isso deixava Duncan extremamente exasperado. Weaver teve outros gastos com a marciana: suprimento alimentar para cinco anos para Lellie, ao custo de mil libras; uma certidão de casamento, para que não se pensasse que Duncan tinha a intenção de vendê-la. Eram as leis antiescravagismo. Para isso, somente 10 libras seriam necessárias. Também vestuário fora necessário para Lellie, o que custara mais 100 libras. Além disso, haviam os honorários do agente da companhia para qual Weaver trabalhava, e que exigia 100 libras como salvaguarda para o investimento da aquisição de Duncan. Por fim, Duncan Weaver teve de desembolsar mais 100 libras para pagar ao agente alfandegário. No total, foram desembolsadas 2.310 libras, muito mais do que o valor inicial da aquisição.

Os marcianos eram um povo antigo, tinham surgido em Marte milhões de anos atrás, quando o planeta vermelho ainda tinha uma atmosfera e rios e mares abundavam em sua superfície. Mas o planeta perdera sua atmosfera e a água secara. O mundo estava condenado a ser um deserto. Por isso, Lellie tinha imenso respeito pela água. E os marcianos não eram idiotas, apenas deixavam as coisas seguirem seu rumo. Em Júpiter II/IV, uma estação fora construída, contando com duas cúpulas, uma principal, onde havia ar e calor; e outra, fria e sem atmosfera. Vários apetrechos e mantimentos tinham de ser separados e acondicionados nas duas cúpulas, cada objeto na devida cúpula.
O trabalho na estação espacial não era penoso. As células solares, com seu motor solar, ficavam um pouco afastadas das cúpulas. Não era necessário vistoriá-las, eram autossuficientes, e mesmo que o motor deixasse de funcionar, enviariam um foguete de Calisto para substituição. O trabalho inicial na cúpula principal consistia em organizar as coisas que Duncan trouxera. Cada objeto e suprimento em seu devido lugar. Isso ocupou boa parte do tempo de Duncan, a princípio.

Mas a atitude de Lellie era a mesma, sempre. Ficava quieta, sem falar, sem perguntar, sem sorrir, sem rir, sem esbravejar com raiva. Um dia, Duncan quis que Lellie dissesse as palavras corretamente. O pouco que ela falava, sempre vinha acompanhado de um “t” no início de algumas palavras. Ele insistiu, insistiu, ela não conseguiu; e ele a esbofeteou com força no rosto, lançando-a longe na sala da cúpula, pelo ar no ambiente de baixa gravidade. Ele a agarrou, colocando-a novamente sobre seus calçados magnéticos, para ela não continuar a flutuar pelo ar. E, ao insistir com ela, ela se esforçou ao máximo. E conseguiu dizer “sim”. Então, Duncan falou para ela sorrir. Ela tremeu os cantos da boca e, perante a fúria que se apoderou de Weaver, defendeu-se dizendo que os marcianos não podiam “franzir” a boca como os terrestres. Duncan perdeu a calma e avançou contra ela, que tinha apenas um metro e meio de altura e só podia cobrir o rosto com as mãos para se proteger...

Um dia, uma nave trouxe um visitante inesperado. Era o Dr. Alan Whit, geólogo, um cientista, que passaria um ano no planetoide, fazendo estudos sobre as rochas de Júpiter II/IV. O Dr. Alan tratou Lellie como uma terrestre, respeitoso e gentil com ela. Ensinou-a a ler, o que a marciana o fez com muita rapidez, apesar de não conhecer quase a língua terrestre. Ficaram amigos. Duncan Weaver entrou em confronto com Whit, acusando-o de colocar ideias na cabeça de Lellie, ao ensiná-la a ler. Agora, Lellie fazia perguntas, e isso perturbava Weaver. Alan falou que Duncan era o tipo de pessoa atrasada e inferior, e que não era à toa que só conseguira arranjar aquele tipo de serviço, na meia-idade. Os dois ficaram tensos, mas em um ambiente de gravidade quase zero, era desaconselhável uma luta. Ambos podiam se machucar seriamente.

Em uma de suas viagens de prospecção de rochas, Whit não mais voltou. Lellie passou dias junto à janela de observação da cúpula, olhando para a superfície do planetoide e para o espaço, com o Sol e as estrelas. Sua expressão não se modificara: seus olhos continuavam redondos e grandes, mas parecia que haviam perdido o brilho, tinham recuado para dentro. Duncan ficou com receio de que Lellie tentasse se vingar dele. Portanto, cada vez que saía da cúpula para executar alguma tarefa, levava tubos de oxigênio extras. Também colocava rochas em quantidade contra a porta exterior da cúpula, para que não houvesse nenhuma tentativa da marciana de trancá-lo fora da estação. E ficava de olho em Lellie, quando ela fazia a comida para os dois. Ela tinha de comer o mesmo que ele. Depois de semanas de vigilância, Duncan percebeu que nada ocorreria. Lellie não guardara rancor homicida contra ele. E, quando alguma espaçonave descia no satélite, Lellie não abria o bico, espalhando mentiras sobre o suposto fato de Weaver ter assassinado o seu amigo.

Passaram-se os anos. Finalmente, chegou o dia em que Duncan iria voltar para Calisto e, de lá, seguiria para Marte, onde usufruiria do dinheiro que acumulara em cinco anos. Porém... Lellie tinha outras ideias em mente. Quando Weaver saiu para fazer alguma coisa sem muita importância, mas que precisava ser feita, na volta encontrou a porta externa da cúpula fechada. Tentou forçar a entrada e não conseguiu. Além de ter trancado a porta, Lellie provavelmente teria deixado a porta interna aberta, e a pressão do interior da cúpula impedia a porta externa de abrir para dentro. Com o aparente esquecimento de Lellie em relação ao desaparecimento de Whit, Duncan não mais colocara rochas para obstruir a porta de saída da cúpula. Foi o seu erro.

Duncan tentou, primeiro, dialogar com a mulher. Não conseguiu resultados. Em seguida, desligou, na cúpula secundária, os cabos de alimentação que conectavam a cúpula onde Lellie estava com o motor solar. Apesar de a temperatura baixar, Lellie vestiu seu traje espacial e não foi afetada pela queda vertiginosa de temperatura. Depois, Duncan tentou ativar o maçarico ligado por um longo cabo à cúpula secundária e tencionou abrir caminho à força, cortando a parede da cúpula principal. Ele teve de voltar e ativar novamente a energia, pois o maçarico não funcionava sem que a cúpula principal recebesse energia.

Lellie era inteligente, muito mais do que Weaver poderia imaginar. Armou um dispositivo de detonação ligado a bastões de dinamite e controlável pela perda de pressão do ar dentro da cúpula onde ela estava. Caso houvesse um vazamento de ar, e a pressão se alterasse no interior, a bomba explodiria toda a cúpula. Duncan começava agora a enfrentar seu mais novo inimigo: Lellie havia desligado o sistema de aquecimento do traje espacial do marido. Ele estava morrendo de frio, simplesmente, não por falta de oxigênio, pois Lellie não havia tocado nos tubos de ar da roupa espacial de Weaver.

E assim, Duncan Weaver não pôde admirar o que sua mulher havia conseguido fazer, por acreditar, no final, que os marcianos eram idiotas porque não utilizavam todo o seu intelecto.

E Lellie, depois de constatar a morte de Duncan, através da janela de observação, pôs-se a contar o quanto ganharia como viúva: cinco mil libras ao ano, a um juro composto de seis por cento ao mês, durante cinco anos, o que a tornariam uma marciana muitíssimo bem de vida.

“Marciana Idiota” (“Dumb Martian”) foi publicada pela primeira vez em 1956, na antologia “As Sementes do Tempo” (“The Seeds of Time”) e, posteriormente, na edição de 1985, portuguesa de mesmo nome.

John Wyndham Parkes Lucas Beynon Harris (1903-1969) foi um escritor inglês de Ficção Científica, que usou vários pseudônimos, combinações de seus próprios pre-nomes, e foi melhor conhecido como John Wyndham. Suas maiores obras foram “The Day of the Triffids” e “The Midwich Cuckoos”, estas duas obras sendo adaptadas para o cinema. “The Midwich Cuckoos” foi lançada nas telas como “The Village of the Damned” e no Brasil foi traduzida como “A Aldeia dos Amaldiçoados”. John Wyndham participou da invasão da Normandia, não nos primeiros dias da invasão, mas em dias posteriores.

John Wydham nos conta, na história “Marciana Idiota”, como seria o futuro, em que o racismo contra marcianos e contra possivelmente outras culturas de nosso Sistema Solar, seria comum. Duncan Weaver, um homem sem nenhuma cultura, que trabalhou a vida toda como tripulante de espaçonaves, sem adquirir qualquer tipo de conhecimento sobre a vida dos marcianos, considerava-os “idiotas”. E teve ocasião de extravasar sua ignorância e preconceito contra Lellie, o que teria consequências drásticas, para ele.

No futuro próximo, a dominação de povos inteiros por “Homo-Gênios”, com um Q.I. acima de 180, será talvez, incontrolável. Hoje, vemos isso, na política, na religião, de forma que não somos totalmente invulneráveis a esse controle. As mensagens subliminais na televisão nos levam a comprar cada vez mais. Os jornais, se não forem direcionados como centristas, nos influenciam na tomada de decisões — não mais tanto os jornais escritos, que são lidos por uma parte menos significativa da população, mas a Internet como um todo nos faz pensar de acordo com o que os jornalistas escrevem.

É de modo estarrecedor a forma como um povo pode ser levado a cometer atrocidades, devido a uma política de seu governo de subjugar e atacar minorias. Na Segunda Grande Guerra, mesmo em países um tanto afastados do centro do conflito, japoneses italianos e alemães foram perseguidos, existindo mesmo campos de prisioneiros em sete Estados brasileiros. Neles, dez campos de prisioneiros abrigaram 3.000 pessoas que, por serem de etnia pertencente aos países do Eixo, eram mantidas, até certo ponto, isoladas. Mas podiam sair dos campos para fazer compras, tocar em festas, enfim, os campos brasileiros não eram absolutamente como os campos de concentração nazistas. Em compensação, escolas com nomes alemães foram obrigadas, no Rio Grande do Sul, a mudarem seus nomes, durante a Segunda Guerra. E houve discriminação contra estes três povos citados, de uma forma que chega às raias da humilhação e perseguição, em todas as faixas etárias. Em outros países, a perseguição foi maior.

Quando houver um chip de memória cerebral a ser implantado no encéfalo da população, que armazene somente aquilo que os governantes queiram que seus povos saibam, sem a possibilidade de pensamento livre e escolha, teremos então a verdadeira e absoluta forma de repressão do Estado. Mesmo a democracia, como existe hoje, não é totalmente livre: existem casos em que os governantes exercem poder de controle sobre a população. Basta ver o que ocorre no mundo, democrático ou não, com o fato de que todos os homens e mulheres que possuem um Cadastro de Pessoas Físicas (C.P.F.) e um Registro Geral (R.G.), têm, desde tenra idade, um controle por parte dos governos.
Pessoas que se julgam verdadeiramente livres não estão à parte de um controle. Um fato que é claro é o das câmeras de vigilância no Brasil. Até 2014, existiam 1,5 milhão de câmeras instaladas em muros das ruas, lojas, estabelecimentos, gerenciadas pela Polícia Militar, e, mesmo hoje, os próprios moradores se mobilizam para investir nesse tipo de segurança que, apesar de ser cara, não é perfeita.

O fato seria digno de aplausos, se não fosse o fato de que tais sistemas de segurança podem levar à prisão de pessoas inocentes, por semelhança com criminosos. Para se deslocar de sua residência, até o trabalho, pelo menos dez câmeras de monitoramento nas ruas vigiam o trabalhador. Mas, o que adianta tanta vigilância, se sabemos que o sistema prisional brasileiro não recupera ninguém, pelo contrário, transforma um réu primário em um criminoso reincidente, por não haver um programa de recuperação de criminosos que funcione no país?

Deveriam haver formas mais duras de se reprimir o criminoso. Bandidos de colarinho branco dificilmente são presos por muito tempo, ou nem são detidos. Há tratamento diferenciado para presos com nível universitário, por exemplo. Os verdadeiros Senhores do Crime Organizado comandam suas ações não de fora das cadeias e penitenciárias onde se encontram, mas de dentro delas. Fora, há o perigo maior de serem mortos por facções rivais.

Ainda, além de a população dos grandes centros urbanos se encontrar em difícil situação de segurança, há o caso da violência contra a população, alvo de casos como o Massacre da Candelária, no Rio de Janeiro, e os casos de esquadrões da morte, que agiam no país, anos atrás. Deve-se investir no preparo dos policiais, seu trato com a população, onde devem punir severamente os culpados e proteger de forma exemplar o povo, à mercê dos criminosos.

Quando, em um futuro distante, viermos a colonizar todo o Sistema Solar, talvez o monitoramento de toda uma população solar seja algo difícil de se efetivar. Mas, nessa época, com o avanço exponencial da tecnologia, poder-se-á controlar o crime de modo mais eficaz, sem o comprometimento com a privacidade e a segurança da população.

*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

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