sexta-feira, 5 de julho de 2019

Sobre o Conto “O Lagarto de Woz”, de Edmund Cooper

Edmund Cooper
*Por Roberto Fiori

Vindo do mundo de Woz, a quinhentos anos-luz de distância da Terra, uma nave em formato de disco cortava a atmosfera terrestre, descendo a uma altitude de três mil metros e a uma velocidade de 1.580 quilômetros por hora. Nela, Ynkwysytyv observara a Terra de seu telescópio e não detectara sinal algum de vida réptil inteligente, como ele próprio o era. Os terrestres usavam carruagens primitivas terrestres para se locomover e voavam em máquinas atrasadas, obra de amadores, evidentemente.

Quando ele se encontrava a esta altitude, foi perseguido por dois caças da Força Aérea norte-americana, mas Ynkwysytyv — chamado de Ynky, pelos seus colegas da Organização dos  Planetas Unidos — os deixara comendo poeira e só os abatera quando os dois pilotos dos caças lançaram contra o disco voador alguns mísseis. Mas os dois homens escaparam da morte, ejetando-se da cabine a tempo. Ynky não estava na Terra por escolha, mas fora mandado para lá devido a um incidente com a filha do Presidente da Administração da Organização. As listras que demonstravam interesse pelas fêmeas reluziram bem diante do pai, acompanhado da filha, na hora mais imprópria. Ynky viajara por dez anos em estado de hibernação, seu cérebro sendo programado nas línguas terrestres inglesa, chinesa, russa e francesa, estudadas anteriormente por um linguista de Woz, um lagarto que havia tido a triste sorte de ser cozido por selvagens de Papua Nova Guiné, em missão cultural na Terra.

Ynky desceu, portanto, em um ponto dos Estados Unidos, às margens de uma autoestrada, perto de um café, o Café Retiro dos Pacatos. Ativou o campo de invisibilidade do disco voador e entrou no estabelecimento. O homem que o atendeu, o dono do café, tinha familiaridade com histórias de Ficção Científica. Então, não estranhou quando um lagarto, vestido de fraque e chapéu alto — indicação do linguista que antes havia sido devorado — entrou no café. Foi logo dizendo: “Como vão as coisas na galáxia?”. O lagarto disse que iam mais ou menos, e respondeu, à oferta de comida, com o pedido de uma dúzia de laranjas, uma dúzia de maçãs e uma dúzia de bananas. E, para beber, seis litros de leite. Ynkwysytyv acabou com toda a lauta refeição de uma sentada só. Então, pôs-se a explicar, a pedido do dono do café, como as coisas se passariam na Terra, futuramente. As ordens para a fumigação — destruição completa das formas de vida humanas e esterilização completa do planeta, introduzindo-se na atmosfera um gás letal que se multiplicava, a partir de uma pequena amostra.

Yinky retrucou, quando o dono do café perguntou sobre o porquê dessa atitude, que os sábios de Woz haviam tentado treinar para serviço técnico alguns símios inteligentes de Sírio 5, mas não dera certo. Os macacos destruíram três esquadrões espaciais, pois haviam adquirido manias de independência política. Robôs faziam um trabalho simples de maneira muito mais eficiente. O dono do café falou que voltaria dentro de pouco, se Ynky lhe desse licença. Voltou e disparou contra o lagarto um tiro de espingarda caçadora de dois canos, que furou o chapéu do alienígena, e outro tiro, que o atingiu na cauda. O lagarto de Woz escapou, o seu disco sendo atingido por outro tiro inofensivo de balas de chumbo.

Cuidando dos ferimentos de sua cauda, Ynky dirigiu-se para a Ásia, atravessando o Oceano Pacífico. Tomou cuidado de não tornar seu disco invisível, ao avistar uma casa à beira da ferrovia transiberiana, onde um guarda ferroviário morava. Era uma região completamente deserta, fora a habitação. Agora, se o lagarto fosse alvo de tiros, acharia com facilidade seu disco voador, visível. O guarda ficou em estado de alerta, ao ver a nave pousar no deserto. Deveria ser um agente secreto, vindo para vigiá-lo ou interrogá-lo! Arrumou o cabelo, penteando-o, limpou os sapatos, aprumou-se. Recebeu muito bem Ynky, convidando-o a tomar um copo de vodka em sua companhia. O lagarto foi prudente, agradecendo. O homem não estranhou a aparência de Ynky, pois era certo que os agentes secretos possuíam muitos disfarces. O russo disse que se chamava Puchoff, da passagem de nível de Slobovanutsky, e estava ao seu dispor. Puchoff perguntou de onde Ynky viera. Ele explicara ter vindo de Woz, virando-se à esquerda da Estrela Polar e seguindo em frente por mais quinhentos anos-luz. Disse que não viera, como o russo dera a entender, de um satélite, mas de um planeta de primeira grandeza. E falou isso com orgulho. Ynky falara também que Woz não era um Estado Comunista, tampouco uma nação capitalista, e que não havia proletariado, lá. “Não, não haviam exterminado todos os trabalhadores”!, respondera Ynky. Não havia operários, mas autômatos. Puchoff perguntou há quanto tempo eles estavam sendo explorados. O lagarto disse vinte mil anos.

“Então”, Puchoff concluiu, “a revolução será bastante sangrenta, não?”. Ynky falou que não adiantava, que o planeta teria de ser mesmo fumigado. Era um atraso terrível em matéria de inteligência, o que imperava ali, e disse que Woz não tinha retrocedido tanto assim, a ponto de se tornar um Estado Comunista. O russo falou, ao ver que Ynkwysytyv partiria, para que ele esperasse um pouco. E voltou, com uma bela caixa de metal, onde uma chave se encontrava acoplada. Disse que era um presente, que ajudava no sono e acalmava as tensões da pessoa. Ynky avaliou a caixa e falou que deveria se tratar de indução psicostática, ao que o russo confirmou. Puchoff deu cinco voltas na chave, passou a caixa para o lagarto segurar e voltou para casa. Ynky, que havia dito a Puchoff que ele poderia ter a sorte de não ser exterminado, mas sim, encaminhado para o departamento de escravagismo de Woz, dirigiu-se à sua nave e partiu. Subiu para nove mil metros de altitude e singrou os céus rumo a uma ilha tropical, luxuriante, onde concluiria seus estudos sobre a vida terrestre. No meio do caminho, a bomba de Puchoff ativou-se e, em um raro momento em que as bombas do russo realmente funcionavam, ela explodiu a torre de controle do disco voador.

Ynky viu-se de fraque esfarrapado, chapéu queimado e sua nave descendo a toda velocidade contra o oceano. Ele conseguiu manobrar seu aparelho espacial e aterrissou na ilha que era seu objetivo, Komodo. Caiu sobre uma série de palmeiras e colidiu de maneira relativamente suave na terra. Viu que teria de fazer duas coisas: uma, consertar o disco, o que levaria não menos do que três dias; outra, iria fazer Puchoff suplicar para que fosse fumigado, quando zarpasse de volta ao passo de Slobovanutsky. 

Mas então, uma respiração em seu pescoço o fez virar-se. Era uma fêmea de Dragão-de-Komodo. Ynky morreu de amores por ela, era paixão à primeira vista! Disse a ela que poderia adiar a fumigação da Terra, para viver permanentemente na ilha com Kanna-Belle, aquela formosíssima Dragão-de-Komodo. Ela era só sorrisos, palavras doces e rubores. Ele caiu aos pés dela e falou que agora seriam só eles dois, esquecendo-se dos planos de expansão do Império de Woz pela galáxia e jurando que nada os separariam. Kanna-Bellle falou que seria maravilhoso, mas que agora estava morrendo de fome. Dito isso, lançou seus noventa quilos de peso de sua cauda contra a cabeça de Ynky, homogeneizando seu cérebro e jogando-o no chão, onde ficou. E ela sentou-se, para fazer sua refeição à base de lagarto de Woz e, inadvertidamente, salvando o planeta da fumigação. 
Essa história jocosa de Edmund Cooper é, talvez, uma das mais curiosas que se tem na ficção de antecipação. Passada na época da Guerra Fria entre americanos e soviéticos, fala da surra que alienígenas superinteligentes levaram de humanos e Dragões-de-Komodo.

Pode-se imaginar que um alienígena teria amplos poderes para aniquilar a raça humana, pois, vindo dos abismos imponderáveis do Universo infinito, teriam a tecnologia para nos esmagar total e irremediavelmente.

Mas, pensemos no que poderia ter acontecido se o famoso asteroide de 65 milhões de anos atrás passasse de raspão na atmosfera da Terra, ou nem a tocasse. Os dinossauros continuariam a existir, a se desenvolver, devorando plantas e animais, inclusive qualquer roedor mamífero que existisse naquela época. Porque no tempo dos “Tyranossauro Rex”, o “Deltatherium” seria um dos pratos dos répteis gigantes. Mais precisamente, uma sobremesa saborosa. O “Deltatherium” foi o mais antigo mamífero que existiu, segundo o estudo de seus fósseis e da datação por Carbono-14, que identifica a idade dos fósseis e das camadas de sedimentos que depositaram em camadas distintas, a cada período da história da Terra. Um mero e simples rato.

Mais tarde, por ação da evolução e certamente da divisão dos répteis em outros animais que não os mamíferos, acabar-se-ia tendo uma outra civilização, tão ou mais adiantada do que a humana, do Século XXI d.C. 

Pensemos também que, caso a civilização decorrida da evolução dos dinossauros fosse um pouco mais agressiva do que o ser humano o é hoje, este planeta não seria semelhante a um mundo verdejante e repleto de fauna e flora. Seria uma esfera seca, quente, ou gelada, talvez radioativa, talvez apenas contendo uma civilização em ruínas que se exterminou com armas convencionais.

Pura e simplesmente, tais seres não teriam uma cultura como a nossa: suas cidades seriam completamente diferentes do que conhecemos hoje, ou nem se reuniriam em agrupamentos civilizados. Talvez não fosse questão de tecnologia, mas sim, de segregação, de isolacionismo entre os diversos membros dessa sociedade. 

Não haveria o pouso na Lua; nem lançamento de sondas espaciais. Pode ser que tais seres, se não desenvolvessem um sentido de solidariedade e compaixão entre eles, jamais apresentariam sonhos de colonização do Sistema Solar e do Cosmos. Viveriam para a guerra, assim como macacos, ou, mais precisamente, chimpanzés. 

O chimpanzé vive em bandos grandes. São muito mais fortes que o homem. Juntos, podem derrotar felinos, como o leão, ou gorilas isolados. Seus grupos guerreiam entre si. São violentos, muito agressivos. Por que eles se reúnem em grupos? Mesmo eles se reúnem em um tipo de sociedade, pois precisam uns dos outros para caçar e se alimentar, além de derrotarem grupos de chimpanzés rivais.

Mas um outro tipo de sociedade, derivada dos dinossauros, poderia ser muitíssimo menos inteligente que o homem. Na verdade, seus membros poderiam não desenvolver a inteligência, mesmo por seleção natural, o que eu considero muito difícil de acontecer. Porém, vamos extrapolar esse raciocínio: se a seleção natural dos répteis não se desse, por problemas como o número de interconexões neuronais no cérebro, havendo pouca diversidade de pensamentos e raciocínio, os descendentes dos répteis continuariam a viver exatamente como na época da pré-história, há mais de 100 milhões de anos atrás.

O planeta Terra, por muito e muito tempo, salvo o aparecimento de mutações entre os genes dos répteis, apresentaria um panorama hoje muito diferente do que é: sem tecnologia, sem indústria, sem transportes, sem energia para suprir o que é a civilização humana. 

Poder-se-ia pensar até mesmo que, mesmo com a mudança do clima, por obra de glaciações, que ocorreram em parte da existência dos dinossauros, poderiam contribuir, na época pré-histórica, para o impedimento do surgimento de seres mais inteligentes, pois os dinossauros estariam muito ocupados em como sobreviver em ambientes hostis.

E, com corpos enormes e cérebro do tamanho de uma noz, o estegossauro, por exemplo, jamais daria início a sociedade moderna alguma. Seus descendentes poderiam ser um pouco mais inteligentes, mas acredito que, mesmo se houvesse seleção natural e mutações, para os répteis, estes teriam de sofrer mudanças muito drásticas em sua fisiologia e neurologia, para se equiparar aos seres humanos de hoje.

Não sei qual seria o futuro dos seres que viriam e resultariam no que existiriam hoje. Pela primeira vez, desde que escrevo extrapolação científica, acredito que não haveria futuro tecnológico para criaturas descendentes de répteis, que não fossem mamíferas. Os mamíferos têm, por contarem com as leis de Darwin e do uso e desuso dos músculos, membros e cérebro, algo mais. Eles evoluíram de macacos para hominídeos e, a partir de então, passaram a possuir dedos articulados com a oposição do polegar em relação aos outros. A inteligência foi a chave. Desenvolvendo capacidades cognitivas com o tempo, foram capazes de se desenvolver muito mais que o mais capacitado dos animais.

O problema surgiu com a ambição, a cobiça, a inveja, irrompendo em atos de violência que hoje são os responsáveis por uma possível autodestruição do próprio Homem.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

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