terça-feira, 27 de agosto de 2019

A sensação de setembro, de Marcos Rey - por Gian Danton



Confesso que A sensação de setembro foi o único livro de Marcos Rey que pensei em abandonar no meio – logo eu, fã convicto do escritor. Para começar a capa não ajuda e talvez fosse mais adequada para um romance teen. E a trama demora bastante a engrenar. Mas fui feliz em ir até o final, embalado mais pela boa prosa de Rey do que pela trama em si: na terceira parte, o livro dá uma virada e se torna uma interessantíssima comédia de erros ao melhor estilo de grandes cineastas, como Billy Wilder (que aliás, é citado no livro).
A história inicia com a morte de um industrial, alvejado por um vaso de flores caído da janela de um velho maestro que vive sozinho com seu gato. A sequência inicial é primorosa: “O vaso, delicada peça de cerâmica doméstica, verde-musgo, com desenhos incaico, bamboleou no peitoril da janela do 13º andar, no antiquado ritmo de conga, precipitou-se no espaço cinzento da tarde paulistana, e adeus senhore Krememelbein”.
A partir da morte do empresário, a história se concentra na viúva, a gorda Duducha e seu filho super-dotado, Rudi, cujo maior interesse é construir miniatura de navios de guerra, que atiram de verdade. Como personagens secundários, o psicólogo, preocupado com o fato de que o garoto não parece ter interesse pelo sexo oposto (e que elabora uma trama para despertar-se a sexualidade usando uma playmate – a tal sensação de setembro) e uma empregada doméstica negra, Claudete, que acaba incendiando o geniozinho, mas enfrenta a feroz resistência de todos.
A história lembra muito as pornochanchadas, gênero cinematográfico (famoso no Brasil na década de 1980) do qual Marcos Rey foi um dos principais roteiristas. Nas pornochanchadas o erotismo é sempre mais insinuado que mostrado e quase sempre envolto com um toque de humor.
Marcos Rey brinca com o texto, como um craque que faz o que quer com a bola. Faz referências à linguagem de cinema e de quadrinhos (“balõezinhos de histórias em quadrinhos, cheios de exclamações, erguiam-se das mesas vizinhas”) e até mesmo com a auto-censura: “E depois de todo esse baixo calão, e muito mais, que a mãe do autor aconselhou eliminar, a moça Bruna caiu num pranto desesperador”). É esse “brincar com a linguagem” que segura o leitor, prendendo-o até a virada que transforma o livro na comédia de erros já aludida anteriormente. 

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