segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Black Mirror – quinta temporada



Black Mirror é uma série curiosa. Gostar ou não gostar está diretamente relacionado ao que reverbera em cada espectador. O que é genial para uns, é decadência para outros. Episódios de outras temporadas que foram apontados como prova da decadência da série, hoje são apontados por muitos como pontos altos. Talvez o fato de falar de um fenômeno que está à nossa volta torne uma análise mais fria impossível – daí as críticas apaixonadas.
Nesta temporada temos apenas três episódios, todos escritos pelo criador da série, Charlie Brooker. Em pelo menos dois o tema principal é o mundo de simulacro hiper-real em que vivemos. Abaixo as análises episódio por episódio.
“Striking Vipers” mostra dois amigos unidos pelo videogame. O episódio foi gravado em São Paulo, mas uma Sampa de FC no qual o protagonista faz um churrasco em seu aniversário com hamburgeres e salsichas e em determinado momento atende o celular em pleno viaduto de santa Ifigênia. Essa incoerência parece refletir, sem querer, o cerne de alguns dos melhores episódios de BK: o mundo irreal que nos chega através da mídia, mas que parece tão fascinante e interessante. Ou seja: black mirror acaba sendo aquilo que ela mesma denuncia. O roteiro mostra os protagonistas apaixonados por personagens de videogame – quem joga diz que já viu algo assim. O final poderia ter sido mais interessante, mas a discussão levantada é realmente válida: quando o simulacro se torna tão importante que é capaz de provocar sentimentos de amor e paixão que o mundo real não consegue.
“Smithereens” mostra um homem que sequestra um funcionário da mais famosa rede social do mundo e exige falar com o dono. É um bom triller, muito bem construído, com atuações realmente de destaque, que seguram a atenção do espectador mesmo ocorrendo dentro de um carro e essencialmente com duas pessoas. Mas fica a impressão de: “afinal, por que ele está realmente fazendo isso?” - algo confirmado no momento em que o sequestrador diz, ao dono da rede social, que pouco importa como ele vai usar isso.
“Rachel, Jack e Ashley Too” é o mais interessante e mais controverso. Pode ir do pior episódio da temporada ao melhor, dependendo de como se encara. Na história, a identidade de uma cantora pop é transferida para uma boneca – com um bloqueador que deixa que ela diga apenas frases motivacionais. O episódio alterna entre narrativas paralelas: de um lado a garota que comprou a boneca, do outro a cantora pop, interpretada por Miley-Cyrus. A discussão é muito interessante: num mundo de simulacro até que ponto os ídolos são pessoas reais ou produtos fabricados pela mídia? E o que sobra da pessoa real por trás desse produto? Mas, como o episódio é protagonizado por Miley-Cyrus, ela mesma uma cantora pop (que provavelmente Charlie Brooker tentou agradar)  a crítica não vai muito longe e o roteiro passa a ter um tom de “vamos salvar o dia” e  acaba tendo um final otimista que destoa do tom distópico do restante da série. É possível que, retiradas essas limitações, com a abordagem, por exemplo, do drama de uma pessoa real aprisionada em uma boneca, fosse um dos melhores episódios de todas as temporadas. Aliás, bastava uma cena a mais para resignificar aquele final, deixando-o realmente com a cara de Black Mirror.  

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