quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Sergio Carmach e a editora Verlidelas, por Cida Simka e Sérgio Simka

Sergio Carmach - Foto divulgação
Fale-nos sobre você.

Tarefa difícil; e que sempre gera controvérsias. Afinal, falar de si mesmo é como descrever a comida de um restaurante pelas fotos do cardápio. Anos atrás, respondendo a uma entrevista como escritor, me apresentei como um cara simples, honesto, prestativo, metódico, que gosta de fazer tudo com perfeição, que valoriza a essência, desligado de cartilhas, que tenta ser sempre justo, impaciente, às vezes chato, cheio de manias... Além disso, que ama o silêncio e detesta futebol. Tudo isso, incluindo os clichês, era e continua sendo verdade. Mas... as características de alguém variam conforme os olhos do observador. Levando tal realidade em conta, costumo pedir a quem lida comigo que aceite pelo menos um atributo em especial como verdadeiro, pois isso influencia no resultado final dos livros, futuros ou em edição: não sou dado a melindres diante de críticas (estou falando como editor, embora isso valha para todas as áreas da minha vida). Na verdade, preciso delas. Se o autor diz que uma arte não está boa, se o diagramador considera ruim uma ideia do editor, se o resenhista aponta falhas em uma trama, se o leitor reclama do tamanho das letras ou sugere uma mudança de vibração nas ilustrações, não há com o que se aborrecer. Esse feedback é uma dádiva. Uma crítica pode fazer, por exemplo, uma capa sair da mediocridade e encontrar a beleza. Mas – claro – eu posso, após considerar as observações, manter a minha opinião. Temos de ter humildade para aceitar as críticas que pareçam úteis; e personalidade – outro atributo forte em mim, que às vezes confundem com teimosia – para recusar as que pareçam improdutivas.

ENTREVISTA:

Você é editor na editora Verlidelas. Fale-nos sobre ela. Como é o seu trabalho? Recebe quantos originais por mês? Quantos são publicados? Quem quiser publicar por sua editora quais os procedimentos a serem adotados?

A Verlidelas ainda é um embrião que almeja crescer e tomar forma. Nesse estágio, o editor é obrigado a atuar em diversas frentes ao mesmo tempo. Mas, em nosso caso, isso de forma alguma significa trabalho feito com pressa ou desleixo. Ao contrário, significa que cada livro recebe atenção especial em todos os aspectos. Tenho particular orgulho de nossas revisões, realizadas com um esmero raro. Estamos naquela fase de produção quase artesanal – a meu ver, essencial antes de voos mais altos, pois cria uma filosofia de busca pela qualidade.

Uma característica importante da Verlidelas é o apartidarismo. Indivíduos podem – e devem – ter posições ideológicas próprias, mas uma editora precisa valorizar a liberdade de pensamento e a pluralidade de ideias, seja em que campo for (político, artístico etc.). É triste quando editores não resistem à tentação e transformam suas crias em guetos ideológicos. Isso é um misto de tolice e arrogância. Minha ideia é ver o destino da Verlidelas ser desenhado sem predeterminação, como aquelas histórias e personagens que, depois de nascerem, fogem ao controle do próprio autor.

A divulgação feita por parceiros, amigos e autores já publicados contribui para a chegada cada vez maior de originais, nos mais diversos estilos e com as mais variadas propostas. Quanto aos procedimentos para envio, o site explica tudo direitinho.

Como é ser editor em um país como o Brasil?


O editor independente conta com pouca ajuda e às vezes perde muito tempo com atividades não ligadas diretamente à edição de livros. Editor, queira ele ou não, é empresário. Então, antes de mais nada, é uma pessoa que enfrenta as dificuldades burocráticas de um Estado sanguessuga e ineficiente. No Brasil, você precisa gastar dinheiro para viabilizar o cumprimento de obrigações. É surreal.

Editores, como os demais empreendedores, precisam aliar suas capacidades ao pulo do gato para conseguirem decolar. O pulo pode ser o aprendizado com experiências anteriores, o autoenclausuramento em uma bolha na qual já se tenha relações e alguma moral (fazendo a empresa virar “a editora dos intelectuais libertários”, ou “a editora dos cristãos”...), a publicação de um autor premiado, o atingimento da excelência... Muitas vezes é a soma de duas ou mais ações como essas. Mas em muitas situações o onipresente Espírito de Panela, uma assombração que invade até as bolhas, pode colocar sapatos de chumbo no gato em meio ao salto.

Como analisa a questão dos e-books?

Em 2014, escrevi um artigo sobre o assunto a pedido de uma editora. Na época, classifiquei os amantes do livro físico como tradicionalistas dominados pelo apelo sensorial do papel, pessoas que necessitavam materializar as histórias – os objetos de suas paixões – para poder de alguma forma tocá-las, cheirá-las; e defendi ardorosamente o e-book como conceito. Para o autor seria uma mídia mais dinâmica e aberta ao exercício criativo, pois permitiria, por exemplo, histórias interativas e sem linearidade, no estilo de “Labirintos Sazonais”, da Maurem Kayna. Para o leitor, por sua vez, seria uma forma barata e fácil de se adquirir um livro e uma maneira prática de se ler. Mas, segundo o Censo do Livro Digital realizado pela Fipe, 63% das editoras ainda não trabalham com e-book, sendo que as vendas de obras nesse tipo de mídia correspondem a cerca de 1% do total. Independentemente desses dados, confesso que mudei de opinião em relação aos defensores do papel – posição, aliás, mais sintonizada com minha personalidade, digamos, refratária a modernidades tecnológicas – e ao e-book. Simpatizar conceitualmente com determinada ideia é uma coisa; gostar dela na prática é outra.

Em 2018 estava em tramitação na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 3347/2015, que tentava obrigar editoras e livrarias a, sempre que vendessem um livro físico cujo texto também estivesse disponível em e-book, entregar a obra ao consumidor nos dois formatos. Na exposição de motivos, lia-se que “a disponibilização gratuita em formato digital nada mais é que um mero desdobramento do produto já adquirido pelo consumidor, sendo incapaz de gerar qualquer custo para a editora ou distribuidora”. O problema é que um e-book tem custos próprios, não sendo uma mera transformação não onerosa do livro físico em PDF. O projeto foi arquivado em janeiro de 2019, mas essa tentativa de interferência do Estado no livre comércio me preocupou enquanto esteve em análise. Foi um fator que nos desestimulou a ingressar no mercado de livros digitais. Apesar do apelo de alguns autores, a Verlidelas integra – ao menos, por enquanto – o grupo de 63% focado só no papel, dando, porém, liberdade aos escritores para transformarem, por conta própria, suas obras físicas em digitais. Basta uma combinação prévia quanto às condições. De qualquer maneira, estamos estudando sobre tudo o que envolve a publicação de e-books, para ver se vale a pena investir esforço nisso no futuro.

Quais são suas leituras preferidas?

Gosto de livros que tenham atmosfera, que tragam tramas surpreendentes e com alguma complexidade, que não tenham personagens maniqueístas, que fujam ao lugar-comum e, se possível, que despertem reflexões. Como o lema da Verlidelas é “Aqui histórias são pérolas”, tento descrever no site o que seria, na visão da editora, uma pérola literária: “As opiniões variam, às vezes em direção a extremos. Alguns veem como bijuteria tudo que não tenha doses fartas de lirismo ou de acuradas leituras do espírito humano, ou tudo que tenha apelo comercial fácil; outros, ao contrário, só enxergam brilho naquilo que proporciona prazer instantâneo, que possa ser consumido como mero entretenimento. A nosso ver, pérolas são textos (independentemente de estilo) que caminham na linha do equilíbrio, dosando diversão e qualidade.”

De maneira geral – não por metidez, e sim por mera afinidade – eu pessoalmente acabo gostando mais dos autores clássicos ou antigos (Dostoiévski, Camus, García Márquez, Austen etc.). No entanto, livros mais recentes e comerciais também me proporcionam prazer. Um que eu citaria como típica pérola, por unir ótimo entretenimento com qualidade literária, é “Pássaros Feridos”. Antes de começar a leitura, imaginei estar diante de uma história melosa, mas logo vi que tinha uma joia em mãos.

Se fosse obrigado a escolher um único título como o melhor, eu diria “O Morro dos Ventos Uivantes”. A atmosfera é deliciosamente densa e a trama é apresentada de modo a impactar e despertar uma curiosidade crescente em relação às reações dos personagens, que parecem fugidos de algum sanatório. Ao final, o leitor se pega refletindo sobre os excessos do temperamento humano – se repararmos bem, comuns em nosso dia a dia – e em suas consequências; e também sobre como o amor e a loucura ou a bondade e a maldade podem se misturar em uma mesma alma. Por outro lado, já li livros que detestei em grau máximo, como “Lavoura Arcaica”. Minha opinião sobre ele está no Skoob e em meu abandonado blog de autor.

Que conselho pode dar a um escritor principiante?

Não sou muito fã de conselhos. Se Maria perguntar o que deve fazer para ter uma vida feliz, em primeiro lugar o aconselhador precisará saber o que significa “vida feliz” para ela. Seria aproveitar intensamente a juventude, mesmo pagando-se um tributo na velhice? Talvez passar pela vida sem muitos percalços e morrer sem sofrimento? Depois, o aconselhador teria de estudar o contexto em que Maria está inserida, para avaliar como ela poderia alcançar seu objetivo. Por isso, só vejo sentido em um conselho dado para uma situação específica; e por quem tenha bastante vivência e conhecimento daquela situação e que saiba a realidade do aconselhado. Mas, se eu sucumbisse à tentação de opinar na vida alheia de forma genérica, diria ao iniciante de qualquer área: “Não seja choramingas, temperamental. Diante da momentânea falta de reconhecimento, não diga que estão com inveja de você nem se porte como um incompreendido. Ficar deprimido ou magoado com críticas, mesmo que injustas, não leva a nada e ainda causa maus sentimentos, e até repulsa, nas pessoas ao redor.” Sempre tive para mim que vencedores (me permitam usar essa palavra tão malvista hoje em dia, pois não acho outra para substituí-la) não chegaram a esse patamar apenas pelo talento e/ou por estarem inseridas em um grupo com poder financeiro e/ou de influência, mas também por terem o temperamento “certo”, que – em determinados casos – faz a pessoa utilizar a energia de um soco (um soco tomado) como combustível para se erguer e se aprimorar. Gosto de comparar Senna, que admiro imensamente, a Barrichello. O Ayrton não tinha medo de partir para cima mesmo quando em desvantagem e usava as derrotas para se aperfeiçoar. Já o Rubinho, por mais talentoso ou bem relacionado que eventualmente fosse, não tinha a força interior e a determinação de Senna. Em um documentário, o pai do Fittipaldi conta que o menino Barrichello, quando perdia uma corrida de kart, sentava no meio-fio e chorava. Deu no que deu.

Mas, como eu disse, não sou dado a conselhos; e também não sou um vencedor, na acepção que está sendo debatida aqui. Então, encarem as palavras acima como uma mera reflexão. Por fim, me dirijo a quem posso dar sugestões realmente válidas, os autores que gostariam de lançar um livro pela Verlidelas: sigam as regras de envio e não desprezem os feedbacks da editora.

Quais os próximos projetos da editora?

Certa vez eu estava visitando a página de uma editora no Facebook e me deparei com algo mais ou menos assim: “Conquista da empresa neste ano: não ter apoiado o golpe.” Meio estranho e fora de propósito. É tão esquisito quanto dizer: “Conquista da empresa neste ano: não ter contribuído para a ascensão comunista.” Então consolidei em mim a convicção de jamais ter uma editora de bolha, por mais que entrar em uma possa ser o pulo do gato. Também não gostaria de ver a Verlidelas se portando como certas editoras dirigidas por empreendedores de mão cheia, mas descuidados do ponto de vista literário. Esses editores têm tino comercial e desenvolvem estratégias interessantes para atrair autores iniciantes e supostamente promovê-los. Só que, já no início de suas chamadas, escrevem coisas como “Convidamos à todos”. E os textos dos livros não ficam muito atrás em termos de qualidade.

Sendo assim, a Verlidelas tem como projeto amplo continuar investindo em autores de diversas tendências e prosseguir editando livros com todo o cuidado.

Site da editora: https://www.verlidelas.com


Cida Simka é licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Coautora do livro Ética como substantivo concreto (Wak Editora, 2014) e autora dos livros O acordo ortográfico da língua portuguesa na prática (Wak Editora, 2016), O enigma da velha casa (Editora Uirapuru, 2016), “Nóis sabe português” (Wak Editora, 2017) e Prática de escrita: atividades para pensar e escrever (Wak Editora, 2019). Organizadora dos livros Uma noite no castelo (Editora Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo melhor (Editora Xeque-Matte, 2019). Integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.

Sérgio Simka é professor universitário desde 1999. Autor de mais de cinco dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a série Mistério, publicada pela Editora Uirapuru. Organizador dos livros Uma noite no castelo (Editora Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo melhor (Editora Xeque-Matte, 2019). Autor, dentre outros, do livro Prática de escrita: atividades para pensar e escrever (Wak Editora, 2019). Membro do Conselho Editorial da Editora Pumpkin e integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.
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Um comentário:

  1. Excelente entrevista e o Sergio é um excelente profissional e ser humano.

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