segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Sobre o Conto “O que os Olhos Vêem”, de Isaac Asimov

Isaac Asimov - Foto divulgação
*Por Roberto Fiori

Centenas de bilhões de anos haviam se passado e ele começou, subitamente, a pensar em si mesmo como Ames. Agora, ele era constituído somente por comprimentos de onda, mas conseguiu experimentar o que parecia ser impossível: o captar de ondas sonoras, muito tênues. Sua memória tornou-se mais sensível a coisas antigas, remotas, de Eras atrás. Captou o sinal de Brock.

Brock perguntou se Ames não iria com eles, tomar parte no concurso. Ames respondeu que “Iria!”, suas linhas de força pulsando de modo errático. Disse a Brock que estava pensando em uma nova forma de arte, algo muito incomum. Mas Brock achava que era um desperdício de tempo, pensar em algo novo após duzentos bilhões de anos.

“Por favor, Brock, absorva meus pensamentos, não se isole. Estive pensando em... manipular a Matéria. Uma sinfonia de Matéria. Na Energia não havia mais nada de novo, mas na Matéria... as possibilidades...”

Eles já haviam sido Matéria há, talvez, um trilhão de anos. Por que não construir réplicas deles mesmos, do jeito que eles foram um dia?

Brock disse que não se lembrava disso. Que ninguém se lembrava. Mas Ames afirmou que ele se lembrava, que pensava nisso sempre. Disse a Brock que deixasse que lhe mostrasse. Para falar que estava certou ou errado. De tanto Ames insistir, Brock acedeu. Que fosse rápido.

Manipular a Matéria diante de Seres-energia, que esperavam por Eras o surgimento de alguma novidade... ele teria coragem para tanto, se o fizesse diante de Brock e tudo desse certo. Mas a Matéria tinha de ser reunida com paciência, por anos-luz cúbicos, pois era muito rarefeita naquele local. No final, Ames compôs uma forma ovoide, um pouco mais larga na parte de baixo. O vórtice de Brock estremeceu.

— Não me faça lembrar! — Brock disse.

Ames pronunciou CABEÇA, e na parte superior do ovoide surgiu: CABEÇA.

Brock disse que havia algo no meio. E uma saliência vertical começou a se formar.

— Isso! “Nariz”, é como se chamava! — Sobre a saliência apareceu escrito NARIZ. — E olhos!

Apareceram OLHO DIREITO — OLHO ESQUERDO.

Ames considerou por um momento se aquilo de fato o agradava.

— “Boca”, e “Queixo”, e “Pomo-de-Adão”, e “clavículas” — quando Ames disse tais palavras, elas apareceram sobre a forma.

Brock disse que não pensava nisso há centenas de bilhões de anos. Por que Ames tinha de fazer-lhe lembrar? Por quê? Porém, Ames já não lhe escutava. Estava imerso em pensamentos. Existia algo além... órgãos para escutar, para captar os sons. “Ouvidos”!

Brock gritou:

— Deixe! Ouvidos ou o que quer que fosse! Não lembre! Porque a superfície não era áspera e fria, como está! Era macia, e quente! Os olhos eram vivos e ternos, os lábios eram trêmulos, e muito suaves... de encontro aos meus.

— Sinto muito! — desculpou-se Ames. — Sinto muito.

E Brock:

— Lembrei-me que um dia fui uma mulher e conheci o amor, que os olhos não servem apenas para ver e agora eu não tenho mais olhos para fazer... o que eu queria fazer agora — e Brock partiu para o infinito.
Ames olhou e se lembrou que, um dia, ele tinha sido um homem. A força de seu vórtex dividiu em duas metades aquela cabeça, cujos olhos, ao contrário de Ames e Brock, podiam fazer coisas... e Ames partiu, seguindo o rastro energético deixado por Brock.

Os olhos da cabeça partida da Matéria brilhavam ainda com a unidade ali depositada por Brock em forma de lágrimas. A cabeça chorou, o que ela podia fazer e que os Seres-energia não podiam fazer mais, e chorou por toda Humanidade e pela frágil beleza dos corpos que um dia eles tinham descartado, um trilhão de anos atrás.

Este conto, escrito pela primeira vez em 1965, por Isaac Asimov, e editado por Mercury Press, para a “Magazine of Fantasy and Science Fiction”. Em 1986, foi publicado pela Byron Preiss Visual Publications e posteriormente lançado em 1991 em “Dreams of Robot” (“Sonhos de Robô”), pela Editora Record, no Brasil.

Como a energia poderia dar forma a uma construção de matéria, sendo a energia ela mesma parte de seres com um trilhão de anos de existência? Seria possível existir criaturas feitas de energia pura?

A matéria pode ser manipulada — sendo primeiro imaginada, depois projetada em papel ou na tela do computador, para depois ser construída, elaborada, em siderúrgicas e oficinas mecânicas — por nós, humanos, pois somos feitos da mesma essência que outros objetos feitos de átomos e partículas. O átomo é composto de mais de 90 por cento de vazio. Vazio em questão se diz que o átomo não possui partículas atômicas e subatômicas em 90 por cento de seu cerne. Há vazio também entre átomos. Mas não há vazio real, na acepção clássica da palavra, quando se quer falar do Universo. Mesmo entre as vastidões do Universo há energia pulsando entre as rarefeitas porções de matéria, dispostas de forma organizada em planetas e estrelas.

E em buracos negros. Nos buracos negros, estes ejetam de dentro de si energia, o que significa que eles mesmos convertem matéria em energia, até extravasarem. Então, pode-se captar a “Radiação Hawking”, descoberta pelo cientista Stephen Hawking, há poucos anos. Mas a energia é uma forma concentrada de matéria. No final, pode-se dizer que em toda parte há energia, visto que mesmo a energia gravitacional atua por todo o Universo, resultado de sua irradiação por objetos dotados de massa. 

A energia gravitacional é a forma menos intensa de energia, em comparação com a energia eletromagnética e a força nuclear. Mas atua em uma distância maior, entre a fonte e o ponto ao qual ela age. A energia gravitacional de uma estrela atua por anos-luz, decaindo conforme a distância. Seria possível que se pudesse converter energia em matéria, em um Universo com mais de um trilhão de anos de idade, constituído talvez somente de energia? Criar matéria a partir do único material existente no Cosmos, em tal data?

Hoje em dia, não se pode converter energia em massa. A conversão de matéria em energia é uma possibilidade, visto que nas explosões nucleares isso de fato ocorre. A energia liberada pela conversão de um único grama de matéria é suficiente para iluminar uma lâmpada de 100 Watts por 30.000 anos e é igual à queima de 25 milhões de litros de gasolina. Mas o contrário é impossível. Não se pode produzir essa quantidade de energia com a rapidez necessária, nem reduzi-la a um volume pequeno o bastante para produzir um grama de matéria de uma só vez.

Mas em um trilhão de anos...  o que poderia acontecer? Seria suficiente a imaginação de escritores como Isaac Asimov para criar tal situação, em que o homem deixou sua porção material e se converteu ele mesmo em energia. Numa época em que tudo no Universo é feito de energia e poder-se-ia, talvez, criar matéria a partir de energia... seja ela qual fosse.

*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
Na editora, pelo link: Clique aqui.
No site da Submarino: Clique aqui.
No site das americanas.com: Clique aqui.

E-book:
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