sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Sobre o Conto “A Última Pergunta”, de Isaac Asimov

Isaac Asimov - Foto divulgação
Em 21 de Maio de 2061, na Aurora do homem, em que ele começava a sua escalada em direção à luz, a última pergunta foi feita. Alexander Adell e Bertram Lupov cuidavam apenas de modo superficial do Multivac, gigante eletrônico composto de válvulas, relês e circuitos, tão complexo que ninguém tinha ideia de como controlá-lo. Os dois homens alimentavam o computador com perguntas e problemas e esperavam as respostas, que surgiam sem falhas, para o benefício da Humanidade, como um todo.

A Terra tinha suas reservas de carvão e urânio, mas, mesmo estas, estavam se findando. Durante décadas, o Multivac computara as trajetórias para se alcançar a Lua, Marte, Vênus e, um dia, acumulou dados suficientes para tornar uma teoria em realidade. A energia do Sol foi armazenada em uma pequena estação, com uma milha de diâmetro, girando em um ponto situado à exata meia distância entre a Terra e a Lua, fornecendo energia ilimitada da estrela para toda a Terra.

Mas mesmo o Sol não possuía energia para ser gasta eternamente. Um dia, se transformaria em uma gigante vermelha, devorando tudo até a órbita de Júpiter. E, no final, transformar-se-ia em uma anã branca. Então, Adell e Lupov decidiram fazer uma aposta. Perguntaram ao Multivac se a entropia do Universo poderia ser revertida. Entropia é a medida da desordem do Universo. Quanto maior ela se torna, maior é a desorganização de um sistema, no caso, o Cosmos. E maior a energia gasta.

A resposta a esta pergunta final foi: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA. A aposta não teve vencedor.

Em um futuro distante, quando planetas foram colonizados, e um em particular abarcava um milhão de homens, mulheres e crianças, o X-23, uma família partira da Terra para se juntar aos outros, anos-luz de distância da Terra. Jerrodd, Jerrodine e as pequenas Jerrodette I e II seguiam em sua nave, em busca de um futuro melhor para eles mesmos. Melhor do que o anonimato da Terra. Eles observavam o hiperespaço pelo visor na ponte de comando. Quando voltaram ao espaço normal, puderam ver o disco mármore de X-23 assomando no visor.

Pouco abaixo do teto da nave, uma inexpressiva massa de metal ia de uma ponta a outra da sala, desaparecendo pelas paredes. Era o Microvac pessoal de Jerrodd, em que “ac” significava “analog computer”, em inglês arcaico. Nos tempos da juventude do pai de Jerrodd, havia AC Planetários, imensos computadores que se espalhavam por quilômetros de extensão, em cada planeta colonizado.

Jerrodine pensou em voz alta que sempre haveria famílias à procura de novos planetas, assim como eles. Jerrodd respondeu que nem sempre assim o seria, por conta da entropia. Até as estrelas se acabariam, um dia. Foi quando Jerrodette II pediu para que as estrelas não se acabassem, em prantos. Jerrodette I também começou a chorar. Então, Jerrodd perguntou ao Microvac, computador que guiava a nave pelo hiperespaço, abastecendo-a com energia das várias estações de força subgalácticas, como a entropia poderia ser revertida, acrescentando para imprimir a resposta, ao invés de dizê-la em voz alta.

Resposta: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SATISFATÓRIA.

Ao que Jerrodd leu-a para si e disse para as duas filhas que o Microvac respondera que cuidaria de tudo, no devido momento, o que acalmou as meninas. Em seguida, o homem rasgou o papelzinho e guardou os pedaços no bolso.

VJ-23X, de Lameth, e MQ-17J, de Nicron, olhavam para a escuridão profunda de um mapa tridimensional da Galáxia. O primeiro disse que estavam sendo talvez, ridículos em ficarem tão preocupados com o problema da superlotação da Galáxia. O outro retrucou que ela ficaria superpovoada em cinco anos, caso sua população continuasse a crescer na taxa atual.  O homem havia atingido a imortalidade. VJ-23X falou que existiam 100 bilhões de Galáxias no Universo e que não teriam com o que se preocupar. Mas o segundo disse que 100 bilhões não eram o infinito. Em um milhão de anos, a Humanidade passara a dobrar de número, a cada dez anos, graças à imortalidade. Os dois eram jovens. Mal passaram dos duzentos anos de idade, com físico perfeito.

Mesmo que se reaproveitasse as duas unidades de força solares que o homem consumia por ano, mais cedo ou mais tarde, a energia teria um fim. Os dois homens resolveram perguntar ao AC Galáctico se a entropia poderia ser revertida.

Resposta: DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

VJ-23X e MQ-17J voltaram, com isso, ao problema de elaborar o relatório sobre a superpopulação da Galáxia ao Conselho Galáctico, tarefa que o primeiro achava ridícula e o segundo, a melhor forma de fazer o Conselho se mexer.

A mente de Zee Prime era curiosa. Necessitava saber de qual Galáxia o homem tinha surgido. Ele e a mente de Dee Sub Wun resolveram perguntar ao AC Universal. O AC Universal tinha um receptor em todos os mundos do Universo, e todos os receptores se interconectavam, pelo hiperespaço, com algum lugar desconhecido, no qual o AC Universal trabalhava em silêncio. Havia se passado muito tempo desde que o homem trabalhara na construção de um AC Universal. Desde então, cada AC Universal projetara e construíra o seu sucessor. Isso foi feito por mais de um milhão de anos. O que se sabia era que, de acordo com a mente de um homem, que chegara o mais próximo possível do AC Universal, este situava-se, a maior parte de seu todo, no hiperespaço. Não se sabia a forma dele, contudo.

O AC Universal mostrou a Galáxia original do homem. Dee Sub Wun quis saber do AC Universal qual das estrelas era a estrela onde se originara o homem.

Resposta: A ESTRELA ORIGINAL DO HOMEM SE TRANSFORMOU NUMA NOVA. AGORA É UMA ANÃ BRANCA.

Zee Prime  perguntou, sem pensar:
— Os homens que estavam nela morreram?
AC Universal respondeu:
— Nesses casos, um novo mundo é construído para seus corpos físicos.
Para profunda consternação de Zee Prime, ele constatou que as estrelas estavam morrendo. Dee Sub Wun disse que todas elas morrerão.
Então, Dee Sub Wun perguntou ao AC Universal como reverter-se-ia a entropia.

Resposta: DADOS AINDA SÃO INSUFICIENTES PARA DAR UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

As duas mentes se separaram. Zee Prime, deprimido, começou a coletar hidrogênio interestelar, para construir uma estrela só sua. Se algum dia as estrelas deveriam morrer, ele podia construir, ao menos, algumas.

Homem era, de alguma forma, único. Feito de trilhões e trilhões e trilhões de corpos, descansando tranquilamente e inalterável, cada corpo protegido por robôs perfeitos, inalteráveis por sua vez. As mentes de todos se fundiam indistinguivelmente.

Homem falou:
— O Universo está morrendo.

As estrelas gigantes, apagadas há muito. Agora, só restavam estrelas anãs brancas, condenadas. Algumas estrelas haviam sido elaboradas naturalmente, ou pela ação da mão do Homem, através de colisões entre anãs brancas. De mil, uma era construída, mas mesmo esta iria se acabar, por fim.

Faltavam milhões de anos para o fim, mesmo se o Homem seguisse as instruções e conselhos do AC Cósmico e poupasse com cuidado a energia que ainda restava no Universo. A entropia atingiria o ponto máximo quando a energia gasta não pudesse ser reaproveitada.

Homem perguntou ao AC Cósmico:
— A entropia não pode ser revertida?

Resposta: OS DADOS AINDA SÃO INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

Homem falou, então:
— Reúna dados adicionais.

ESTOU FAZENDO ISSO HÁ CENTENAS DE BILHÕES DE ANOS. ESSA PERGUNTA FOI FEITA MUITAS VEZES A MEUS ANTECESSORES. TODOS OS DADOS QUE TENHO CONTINUAM INSUFICIENTES.

Homem perguntou se um dia os dados seriam suficientes, ou esse problema era insolúvel em todas as circunstâncias possíveis.
NENHUM PROBLEMA É INSOLÚVEL, EM TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS POSSÍVEIS.

OS DADOS SÃO AINDA INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA, respondeu o AC Cósmico, quando o Homem perguntou quanto haveria dados suficientes para responder àquela pergunta.

Homem perguntou se AC Cósmico continuaria a trabalhar no problema. Diante de uma afirmativa, Homem disse que esperaria.

Depois de dez trilhões de anos de desgaste, as estrelas e Galáxias morreram e se apagaram. O espaço escureceu.

Homem, mente por mente, se fundiu com AC, cada corpo físico perdendo sua identidade mental.

Havia uma única mente de Homem que, antes de se fundir, fez uma pausa. Perguntou:

— AC, isso é o fim? Todo esse Universo caótico não pode ser revertido novamente?

AC respondeu:

OS DADOS AINDA SÃO INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.
A última mente de Homem fundiu-se e, no hiperespaço apenas, restou AC. Matéria e energia acabaram e, com elas, o tempo e o espaço. AC subsistia graças somente à última pergunta, e não poderia liberar sua consciência enquanto ela não fosse respondida.

Todos os dados haviam sido coletados. Tinham de ser correlacionados e combinados.

Um intervalo de tempo interminável se passou enquanto ele executava tais operações.

Não havia mais nenhum homem a quem demonstrar a resposta, que atingiu, por fim. A resposta, porém, também cuidaria disso.

Durante outro intervalo interminável, AC, pensou como fazer isso da melhor forma possível. Ele organizou o programa para responder à questão.

AC deparou-se com o Caos, e disse:

FAÇA-SE A LUZ!
E fez-se a Luz...

Esse conto de Isaac Asimov, “A Pergunta Final” (“The Last Question”), foi publicado no Brasil pela Editora Expressão e Cultura, em uma primeira edição, em Outubro de 1971, na antologia “Nove Amanhãs” (“Nine Tomorrows”), e em 1991 pela Editora Record, na antologia “Sonhos de Robô” (“Robot Dreams”).

O que leva a Humanidade a seguir em frente, mesmo sob a ameaça de se autodestruir pela fome, guerra ou doença liberada pela miséria, que causa fome e novamente, acarreta mais miséria? Por que essa sede de navegar pelos mares, na época do Descobrimento, e agora, com o homem se lançando pelo espaço aparentemente sem fim?

Nos séculos XV e XVI, o período das Grandes Navegações  tem origem na necessidade de expansão econômica da Europa. Não havia produção agrícola para alimentar toda a população, a nobreza empobrecia-se, as rotas tradicionais para comércio com o Oriente tornaram a sua importação cara e a falta de metais preciosos para a emissão de moeda impulsionaram a procura por novos mercados fora dos domínios europeus. A tentativa de encontrar rotas alternativas para o Oriente tornou-se indispensável.

Hoje, o espaço é a fronteira final... mas, a que preço? Mentes geniais sendo utilizadas na construção de sondas interplanetárias, quando se tem pelo menos um continente inteiro – a África – ameaçado por doença, fome extrema e guerras sem fim. Se o homem direcionasse a pesquisa dirigida na conquista do espaço para tentar amainar o problema da fome e se ele unisse forças para terminar com as guerras – e isso as grandes potências militares têm condições de fazer -, o mundo respiraria mais aliviado.

A expansão demográfica mundial segue um padrão exponencial. Se a população de uma espécie cresce de modo constante, na unidade de tempo, é uma população que cresce exponencialmente. Assim, uma pequena quantidade de indivíduos, quando tem o suficiente para comer, crescerá e precisará de mais quantidade de alimentos para sobreviver. Crescerá mais e maior número de alimentos será necessário para que ela subsista.

A população mundial, se for mantida em 2 bilhões de pessoas, no máximo, poderá subsistir com o nível de qualidade de vida presente hoje na União Europeia.  Com uma população entre 8 e 10 bilhões, a segurança de cada pessoa, à escala mundial, irá se converter à de um agricultor pobre, que mal consegue sustentar-se a si próprio. E, desta forma, teremos de dividir tudo, de modo a evitar disputas ou guerras. A alteração no clima é uma realidade, independente da ação do homem, ou de mudanças no sistema solar. Basta um pequeno aumento na temperatura global para que o nível dos oceanos cresça e uma grande quantidade de áreas férteis seja submersa e destruída. A utilização de fertilizantes artificiais, bem como alimentação sintética para animais são duas das saídas que nós pensamos que nos mantém a um passo da fome mundial.

Não há alternativa viável a médio e longo prazo. A tecnologia espacial poderá trazer benefícios, como novas técnicas de agricultura e outras formas de se estabilizar a fome. Mas está claro que chegará um ponto em que a quantidade total de alimentos que a Terra pode fornecer será atingida, e não bastarão tecnologias novas de fertilização e cultivo do solo.

Estamos em uma encruzilhada. Contudo, ao passarmos esse período de sofrimento extremo, se sobrevivermos e não nos destruirmos, poderemos vir a ser uma espécie com todos os motivos para alcançar outros sistemas solares.

Lançando-nos bravamente aonde nenhum homem jamais esteve...

*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
Na editora, pelo link: Clique aqui.
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