sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Conto: "Amor Vampiro", por Roberto Schima



*Por Roberto Schima

    Chovera muito nos últimos dias.
    E as noites, tempestuosas, só traziam maus presságios.
    Vênus surgiu no céu e, breve, foi seguido por uma e outra estrela.
    Enfim, as nuvens de mau agouro e os relâmpagos aterradores foram embora.
    O Sol, na direção oposta, ainda era visível rente a linha do horizonte e seu dourado mesclava-se ao rubro como se uma mortalha de sangue separasse o que era divino dos pecados mundanos.
    Mas o crepúsculo não tardaria a findar e, na noite sem luar, tudo aquilo que fosse comparsa das trevas, estenderia suas asas sobre a terra.
    As luzes dos lampiões não seriam páreo para o que estaria por vir.
    O sacerdote, aflito, bem o sabia.
    - O tempo urge, José! - gritou ao jovem. - Oh, que agonia!
    Ao lado do esquife, José sequer virou seu rosto para o religioso. Sentia-se hipnotizado, pasmo, lívido, o retrato de um vazio que somente a mais profunda tristeza poderia pintar. Suas mãos tremiam. Seus ouvidos ainda sentiam ecoar o vozerio do ancião. A memória daqueles momentos permanecia nítida: os flertes, o nervosismo, a aceitação, os encontros, o calor em seus braços, as promessas e o compartilhar de respirações.
    - Depressa! - bradou o religioso. - Por Nosso Senhor!
    José deu mais um passo e, assim, pôde vê-la melhor. O tremor apoderou-se de seu corpo.
    - Ma-Ma-Maria... - balbuciou.
    O mausoléu pareceu ecoar sua voz mais nitidamente do que o clamor do sacerdote.
    Ou seria efeito da tortura que, então, flagelava o infeliz rapaz?
    José precisava agir rapidamente. Ele bem o sabia. Vários outros no vilarejo haviam passado por isso. A "cura" era muito bem conhecida. Sim, seu cérebro tinha uma consciência fria e cristalina do fato, e do que deveria fazer, não obstante, dentro de seu peito, uma ínfima chama arder, queimar sua alma como se ela fosse um papel de arroz. E ele, desgraçadamente, sentia o fogo a consumi-lo.
    - Maria!
    A estaca, agora, mirava para o centro do busto da vampira.
    Ela havia sido bela.
    Ela era bela!
    Apesar de sua palidez extrema, do vermelho obsceno em sua boca e do par de caninos cujas extremidades projetavam-se sobre o carnudo lábio inferior, o encanto daquele corpo não fora de todo maculado.
    - Rápido! - insistiu o velho sacerdote.
    Muito magro, a custo mantinha-se em pé. Somente a força ferrenha de quem combatera o Mal durante toda a sua existência fazia-o conservar um sopro de vida. Essa seria a sua derradeira missão, o seu último combate. Lastimava por ver-se obrigado a utilizar as forças de outro para tal. Lastimava por ter sido José, o infeliz escolhido; e, Maria, a vítima da vil criatura que ainda perambulava nas redondezas.
    O jovem reposicionou a estaca.
    A ponta aguçada tocou o seio esquerdo.
    O martelo foi erguido mais alto do que o necessário.
    - Eu estou vivo. Você pertence ao umbral, Maria. Porém, ao afundar em seu peito esta estaca, a vida será igualmente extraída de mim. Apagar-se-á a luz assim como o ocaso lá fora. Maria!
    As paredes espessas tornaram-se mais opressoras.
    As chamas dos lampiões tremeluziram.
    A atmosfera ficou mais gélida.
    - Vamos! - incitou o ancião, tossindo.
    Mas José, no instante derradeiro, hesitou. Petrificado, ele percebera.
    Os olhos de Maria... Eles se abriram!
    E, em sua mente, José escutou:
    "Ah, meu querido, apesar de morta... eu existo!"
    - Não! - gemeu o rapaz.
    O coração ficou descompassado. O sangue palpitou na estrada jugular.
    Ele fitava os olhos frios daquela coisa que, um dia, fora a sua amada Maria.
    Coisa...
    "É ela", corrigiu a pequena chama em seu peito.
    Coisa...
    "Não é ela!", gritou-lhe o cérebro em protesto.
    Coisa...
    O sacerdote, embora fraco e doente, decidiu avançar e tomar do martelo e da estaca, cumprindo ele próprio o amargo fardo. O exalar de sua respiração condensava-se diante dos olhos.
    Todavia, tarde demais se tornara.
    Martelo e estaca caíram pesadamente ao chão.
    O religioso emitiu um longo gemido, a dor de mil punhais.
    José, no fundo de seu ser, desejou lamentar, entretanto, não o conseguiu.
    Braços finos e brancos, dedos pálidos de unhas salientes detiveram sua razão no ar.
    E ele chorou.
    "Oh, meu amor, minha tortura, amor vampiro, por que teve de partir?"
    "Ah, meu doce José, nenhum destino assinado a sangue irá nos separar. Eu ainda sou. Eu existo."
    E repetiu na mente dele a voz na sepultura:
    "Eu existo!"
    Imediatamente, uma força não natural fez o sacerdote desabar sobre o piso de mármore, prostrado, desacordado, engolido por uma camada de névoa.
    A derradeira missão fracassara.
    A criatura ergueu seu torso com a mesma leveza do nevoeiro.
    A boca fria e carnuda entreabriu-se, os seios empinaram-se, braços de gelo envolveram o apaixonado José. E, então, os caninos.
    "Ah, Maria, sua boca em meu pescoço, seus caninos rompendo-me a carne evocam a doçura. Sim, doçura! Além da dor, além do medo, além da sanidade, além de meu amor pelo Senhor, todas as barreiras que a desgraça nos fez separar. Sim, agora, volto a mirá-la ternamente."
    O líquido precioso trafegou veloz pela estrada jugular.
    O esgar no rosto de José tanto poderia ser de dor, quanto de prazer.
    "Venha para mim, José. Venha! Juntos, seremos parte dessa noite e muitas outras que virão."
    "Oh, amada, pelo destino de mim separada. Criança da noite, embora levada. Ao seu lado renascerei tão certo quanto a vida que de mim se esvai. E, mais uma vez, juntos enfim, pelo séculos e séculos do porvir, seremos um, sempre um, como um eclipse que o dia trai e a noite atrai. O ontem, o amanhã, e, pela eternidade... o infinito Agora."
    E, assim, José morreu para a vida a fim de viver para a morte.
    Aquilo que se chamara Maria aguardou paciente ao lado dos dois homens.
    Quando a coisa que se chamara José despertasse, ambos teriam o primeiro aperitivo a repartir. Diziam que o vinho melhorava conforme o tempo, contudo, aquela encarquilhada garrafa de carne a seus pés teria tão pouco a oferecer...
    Ah, seria uma linda noite estrelada, afinal de contas!
    Muitas outras presas esperavam por eles, sob as cobertas do medo.
    E, na noite sem luar sobre o vilarejo, os comparsas das trevas estenderiam suas asas sobre a terra.


SOBRE O AUTOR:
Quando garoto, eu colecionava gibis de terror. Ganhei "Frankenstein", de Mary Shelley, aos treze anos. Assistia aos filmes da Hammer. E lia pelos cantos as histórias de R. F. Lucchetti. Desenhei diversos monstros também. Ah, sim, fui um garoto que amava os monstros. Apavoravam-me, mas eram meus amigos. Informações: Google, Clube de Autores, Amazon, Wattpad. Contato: rschima@bol.com.br.
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