quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Sobre o Conto “Um Lugar Aquoso”, de Isaac Asimov

Isaac Asimov - Foto divulgação
*Por Roberto Fiori

Bart Cameron, xerife de Twin Gulch, Idaho, é um homem muito nervoso. E fica mais nervoso ainda por volta de 14 de Abril. É uma data próxima à entrega do Imposto de Renda e, como Cameron possui alguns negócios (um armazém, algumas ações num rancho de ovelhas, faz um pouco de ourivesaria e recebe uma espécie de pensão por ser ex-combatente incapacitado — um joelho ruim e outras coisinhas assim), seu Imposto de Renda fica meio complicado. E, como ele próprio se obriga a declará-lo, sem a ajuda de um contador, então...

E foi no dia 14 de Abril de 1956 que o disco voador pousou, para azar nosso. Seus retrofoguetes a princípio não eram visíveis, era apenas um risco de luz no céu. Mas logo a linha se dividiu em duas e o disco desceu suavemente, sem fazer ruído. Eu estava sentado junto à janela do gabinete do xerife e vi o disco descer. Fiquei mudo, perplexo, sem conseguir nem mesmo engasgar. Enquanto isso, Bart estava à sua escrivaninha, refazendo pela centésima vigésima sétima vez as contas do formulário de sua declaração do Imposto e nem viu quando duas pessoas saíram do disco.

Eram morenos, cabelos pretos, olhos castanhos, 1,80 m de altura e muito sérios. Vestiam-se de ternos cinzentos, camisas brancas e gravatas marrons. Quando a porta se abriu, Bart fechou a cara. Haviam interrompido seu trabalho. E perguntou o que poderia fazer por eles, batendo com a mão no formulário sobre a escrivaninha. Um dos dois homens do disco falou que eles haviam mantido nossa gente sob observação por muito tempo. Disse isso separando cuidadosamente as palavras.

Cameron respondeu, “Como, minha gente? Tudo o que eu tenho é uma esposa. O que foi que ela fez?”

O homem de terno disse que “escolhemos esta cidade por ser isolada e sossegada. E sabemos que você é o chefe por aqui. Tivemos de adotar seu modo de vestir e sua aparência”.

“É esse o meu modo de vestir?”, notou o xerife, pela primeira vez.

“Também aprendemos sua língua”, falou o homem do disco.

Cameron, sua mente acesa como uma lâmpada, percebeu, e disse, “Vocês são de fora?” Fora do exército, Cameron não havia conhecido muitos forasteiros, mas para ele estava tudo bem.

“Forasteiros? Viemos do lugar aquoso que vocês chamam Vênus”, disse o venusiano. Eu tinha visto o disco pousar! Aquele homem falava a verdade!

“Muito bem”, respondeu Bart, “aqui é EUA. Todos somos iguais, com os mesmos direitos. O que posso fazer por vocês?”

“Temos interesse em que os homens importantes do seu EUA venham até aqui e conversemos, para discutirmos o seu ingresso em nossa grande organização”.

Aos poucos, o xerife foi ficando vermelho, sua face enrubescendo.

“Nossa gente entrar em sua organização. Já fazemos parte da ONU. Então é só eu trazer o Presidente até aqui, agora, só isso? E mandá-lo se apressar?”

“A rapidez é desejável”, o homem do disco falou.

“E o Congresso, e o Supremo Tribunal?”

“Se eles ajudarem, sim, xerife”.

Bart fez o inconcebível. Esmurrou o formulário do Imposto e disse que se os dois não dessem o fora naquele momento, iria prendê-los por perturbar a ordem e nunca mais iriam ver a luz do Sol.

“Você deseja que nos retiremos?”, perguntou o extraterrestre.

“Exatamente!” E Bart disse ainda que ninguém mais queria vê-los, nem ele, nem ninguém.
“Percebemos que você realmente deseja nos ver longe daqui. Respeitamos isso. Não regressaremos. Ficaremos girando em torno de seu mundo, advertindo-os, ninguém entrará e vocês não terão mais de sair.

Cameron estava a ponto de perder de vez as estribeiras. Disse que contaria até três...

Eu estivera ouvindo tudo. Sabia que nós nunca mais poderíamos viajar pelo espaço, que haveria uma espécie de cerco aqui na Terra, prendendo-nos, impedindo-nos de sair do planeta. Gritei com o xerife, dizendo a ele que os dois eram do espaço. Por que mandá-los embora? Cameron não entendeu. Ele era quinze quilos mais pesado do que eu, mas mesmo assim consegui arrastá-lo de onde estava, até a janela, pela gola da camisa.

O disco subiu tão facilmente quanto descera. E, mais uma vez, perguntei a Bart por que tivera de fazer aquilo.

“Eles eram forasteiros, tiveram de aprender nossa língua. E pareciam ser italianos”.

“Eles falaram que tinham vindo de Vênus!”

“De Vênus?? Pensei ter ouvido Veneza!”

E é por isso que jamais iremos à Lua novamente, ou a Marte, ou a qualquer ponto do Sistema Solar e além. Foi um grande azar, sim, os venusianos terem vindo pousar justo no quintal de Twin Gulch, Idaho...

Este conto, “Um Lugar Aquoso”, foi escrito em 1956, sob o título original de “A watery place”, na antologia “Earth is Room Enough” (no Brasil, traduzido como “A Terra tem Espaço”). Foi lançado aqui pela Livraria e Editora Hemus.

É plenamente aceite que um cientista, em qualquer época, escreva sobre um fato ou uma descoberta científica e, mais de sessenta anos depois, venham a descobrir que ele estava redondamente enganado.

Vênus, em 1956, era considerado um planeta oceânico pois, na época, sabia-se que sua pressão atmosférica era igual à de um ponto situado 900 metros sob a superfície do oceano. Sabia-se muito pouco sobre este planeta. Na década de 1960, com técnicas mais avançadas de radar, pôde-se atingir resultados referentes ao seu período de rotação semelhantes aos de hoje.

Na década de 1970, observações por radar a partir da Terra revelaram pela primeira vez detalhes da superfície venusiana. Pulsos fortes de ondas de rádio foram emitidos para o planeta usando o radiotelescópio de 305 metros do Observatório de Arecibo e os ecos revelaram duas regiões altamente reflexivas, designadas como Alpha e Beta. As observações também revelaram uma região brilhante atribuída a montanhas, chamada Maxwell Montes.

Com as sondas do projeto soviético Venera, bem como as sondas americanas do programa Mariner avançou-se um tanto nas observações, algumas das sondas não chegando a atingir a superfície e outras pousando, mas deixando de fornecer dados horas após o pouso. O projeto americano Pioneer-Venus chegou a apresentar por 67 minutos, maiores dados sobre superfície de Vênus. Foi o máximo que se conseguiu até 1978.

Em 1985, a sonda Vega lançou 4 outras pequenas sondas Venera, que orbitaram o planeta e lançaram um robô aéreo sustentado por balões. Ficou em órbita por 46 horas e descobriram que a atmosfera venusiana é mais turbulenta que a esperada até então, sujeita a poderosas rajadas de vento. A sonda Magellan estudou Vênus por dez anos, a partir de 1989, quando foi lançada da Terra. Foi destruída deliberadamente, ao ser impulsionada para a atmosfera venusiana, para obter dados sobre a densidade atmosférica.

As naves Cassini e Galileo sobrevoaram Vênus, para estudá-la, mas por pouco tempo. Um vórtex atmosférico no pólo sul do planeta foi estudado pela sonda Venus Express, lançada pela Agência Espacial Europeia, em fins de 2005. A missão Messenger da Nasa a Mercúrio realizou sobrevoos em Vênus, em 2006 e 2007, coletando muitos dados científicos nessas duas passagens. A Agência Espacial Europeia, junto com o Japão, lançou uma missão a Mercúrio em 2018, denominada BepiColombo, que realizará dois sobrevoos de Vénus antes de alcançar a órbita de Mercúrio em 2025. Também em 2025, a Rússia planejará lançar a sonda Venera-D, que tem por objetivo liberar módulos para permanência na superfície de Vênus por um longo período.

Finalmente, uma missão tripulada de sobrevoo de Vénus, usando os equipamentos do Projeto Apollo, foi proposta no final da década de 1960. A missão foi planejada para lançamento em outubro ou novembro de 1973 e usaria um foguete Saturno V para enviar três homens até Vénus, numa missão de aproximadamente um ano. A espaçonave passaria a aproximadamente 5 000 km da superfície de Vénus, cerca de quatro meses depois da partida, mas nada foi concretizado.

Devido às suas condições hostis, uma colonização na superfície de Vénus está fora de questão com a tecnologia atual. Entretanto, a pressão atmosférica e a temperatura a 50 quilômetros acima da superfície são similares às da superfície da Terra, e o ar da Terra, composto de nitrogênio e oxigênio, seria um gás ascendente na atmosfera venusiana, composta na maior parte por dióxido de carbono. Isto levou a propostas de extensas “cidades flutuantes” na atmosfera de Vênus. Aeróstatos, balões mais leves que o ar, poderiam ser usados para a exploração inicial e posteriormente para colônias permanentes. Entre os muitos desafios de engenharia estão os teores perigosos de ácido sulfúrico nessas altitudes. Na superfície, temperaturas são da ordem de 500 graus Celsius. Com o projeto Magellan, soube-se que Vênus apresenta muita ação vulcânica e o enxofre na atmosfera sugere que houve algumas erupções vulcânicas.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
Na editora, pelo link: Clique aqui.
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E-book:
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