sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Sobre o Conto de Ficção Científica “Respire Fundo”, de Arthur C. Clarke



*Por Roberto Fiori

Estávamos na finalização da construção do Satélite de Comunicação 2. As unidades principais já haviam sido juntadas, os alojamentos haviam sido pressurizados e fora dado o impulso para a rotação da “roda” externa, ligada por eixos à parte central da Estação. Desse modo, metade da gravidade da Terra tinha sido criada, nas unidades dos alojamentos, que foram instaladas ao longo da roda externa.

Estávamos dormindo, eu e mais outros astronautas, que contribuíram para a construção do Satélite, em nosso alojamento. Os alojamentos eram como salsichas, colocadas ao longo da circunferência que formava a roda. 

Foi quando estávamos dormindo que as luzes principais se apagaram. A iluminação de emergência logo entrou em ação. Mas a gravidade também havia sido reduzida a zero! Acordei, subitamente e me atirei para fora de minha cama. Fui lançado para o teto, onde abri o pulso.Raciocinei com rapidez: as luzes haviam sido cortadas... e a gravidade também. Tentei comunicação com o resto da Estação, mas o comunicador estava mudo. A única conclusão era que estávamos separados da Estação Espacial, vagando no espaço. Mas a uma velocidade de escape de somente cinquenta quilômetros por hora. Em minutos, uma equipe de resgate iria nos contactar. 

O único problema era o oxigênio. Dispúnhamos de ar para uma hora ou pouco mais. Em uma hora de espera, ouvimos batidinhas no casco fino do alojamento e, com o rosto colado ao teto do recinto, pude ouvir o que diziam. O astronauta que viera com a equipe de salvamento deveria ter se posto deitado no lado de fora do compartimento e encostado o capacete no casco. Havia assim, uma comunicação direta entre nós e ele.

Estávamos com o nível de oxigênio próximo a zero. Foi decidido que a equipe de resgate cortaria o fino metal do casco e teríamos de transpor, por vinte segundos, o espaço sem uma roupa espacial, até alcançarmos a nave de resgate. Quando uma seção circular da parede de nosso alojamento foi aberta, estávamos preparados. Havíamos prendido a respiração, mas, com a saída violenta do ar da cabine, fui lançado ao espaço. Senti, se minhas funções cerebrais ainda estavam funcionando, formigamento na pele e sensação de que meus olhos ardiam. Além disso, sentia muito frio, indício de que a evaporação em minha pele já estava em processo de se completar.

Estive, por quinze segundos, sob a ação direta dos raios do Sol, até ser agarrado por um par de mãos de um astronauta e levado à comporta de entrada da nave de resgate, onde recuperei minhas funções vitais. Estive cego pela luz solar, durante o tempo em que passei no vácuo absoluto — e, no vácuo absoluto, notei que não havia o menor sinal de ruído. Nem mesmo enquanto estávamos no alojamento, pudéramos vivenciar o silêncio absoluto. Sempre havia o ribombar baixo das bombas de ar. Mas aqui, no espaço, experimentei um silêncio terrivelmente absoluto.

Somos agora o Clube dos Respiradores do Vácuo. O recorde é de dois minutos no espaço, sem roupa de proteção. Depois disso, a diferença de pressão faz com que o sangue forme bolhas e ferva, à temperatura do corpo. As bolhas chegam ao coração, com resultados fatais.

Para mim, a permanência no espaço gerou consequências. Sem uma atmosfera que filtrasse a radiação solar, fui exposto à pior queimadura de minha vida. Não fui vítima da respiração no vácuo, mas quanto à minha pele... esta sofreu bastante.


Este conto, “Respire Fundo” (“Take a Deep Breath”), do cientista talentoso Arthur C. Clarke, foi publicado pela primeira vez na revista “Infinity”, em 1957. No Brasil, fez parte da antologia “A Sonda do Tempo” (“Time Probe”), em 1979. “Time Probe” havia sido compilada por Arthur C. Clarke, em 1966, antes.

Todos sabemos que um astronauta sofre uma morte bastante desagradável ao se ver desprovido de seu traje protetor, no espaço. Muitos contos e romances na literatura popular descrevem mortes horríveis, como corpos explodindo sob a ação do vácuo interestelar. Algumas descrições, fora os corpos estourando, estão corretas. A maioria, não.

Stanley G. Wiembaum foi um bom escritor de Ficção Científica, vindo a falecer precocemente, aos 33 anos. A Ficção Científica perdeu um escritor promissor, nesta área de atuação. Foi a primeira pessoa a afirmar que um corpo explodindo e se transformando em névoa, sob a ação do vácuo do espaço, era bobagem. Em seu conto “The Red Peril” (“O Perigo Vermelho”), ele fala sobre a possibilidade de o homem vir a viver e a trabalhar, em curtos períodos de tempo, sob condições do vácuo absoluto.

Arthur C. Clarke diz que começou a mergulhar com 35 anos de idade. Começou tarde. Nunca forçou seu corpo a permanecer sem respiração por mais de três minutos e meio. Mergulhadores mais jovens conseguem ficar um tempo maior sem o oxigênio. Mas o que Clarke concluiu de suas experiências como mergulhador foi que uma pessoa não tem problemas com a falta de oxigênio, por poucos minutos. O verdadeiro perigo reside na diferença de pressão entre o exterior e o interior do corpo humano.

O corpo humano pode suportar um aumento de pressão de pelo menos 30 atmosferas, o que equivale a um mergulho de 340 metros. Então por que ele não suportaria uma diminuição de uma atmosfera?

Este conto de Clarke foi escrito em 1957. A ideia de um homem poder sobreviver ao espaço estava na teoria, somente. Mesmo hoje em dia, um homem não caminha no vácuo sem uma roupa espacial completamente isolada do meio externo. Uma das razões é a radiação solar. O vento solar pode ser muito danoso para o corpo humano, fora da proteção do Cinturão de Van Allen, que engloba toda a Terra, a uma altitude de 700 a 25.000 quilômetros, e nos protege de raios cósmicos e partículas solares energéticas.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
Na editora, pelo link: Clique aqui.
No site da Submarino: Clique aqui.
No site das americanas.com: Clique aqui.

E-book:
Pelo site da Saraiva: Clique aqui.
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