sexta-feira, 6 de março de 2020

Cepe publica novo romance de Luis Krausz

Luis Krausz - Foto divulgação
Em Opulência, autor ressalta a impossibilidade de reconstruir mundos perdidos. Livro será lançado dia 10 de março, das 19h às 21h, na Livraria da Vila, em São Paulo

Muita gente gostaria de viver em Schalaraffenland, país imaginário descrito em Opulência, quinto romance do escritor e tradutor paulista Luis Sérgio Krausz. O título será lançado pela Cepe Editora, dia 10 de março, das 19h às 21h, na Livraria da Vila, em São Paulo. Na ocasião haverá um bate-papo entre o autor e o crítico literário e professor da Unicamp Márcio Seligmann.

Também conhecido como Cocanha, Schalaraffenland é um lugar mitológico criado na Idade Média, onde não há dificuldades para viver. O mundo ideal, utópico.

"No Schlaraffenland os peixes nadam na superfície da água, bem
perto das margens, e já vêm assados ou cozidos. Mas se alguém tiver
preguiça demais, como convém a um verdadeiro Schlaraff, basta chamar,
"Pst! Pst!", e os peixes já saem sozinhos da água e se encaminham,
saltitando, direto para as mãos do bom Schlaraff, que nem mesmo
precisa se abaixar."

Fluente nas línguas alemã e hebraica, Krausz - descende de uma família judaica europeia - cita esse mito tão presente no imaginário da Europa Central para iniciar a narrativa de Opulência, que se passa em Campos do Jordão, município paulista localizado na Serra da Mantiqueira, com hotéis de luxo e casas em estilo arquitetônico suíço. O título do romance, segundo ele, "tem a ver com os sonhos de abundância vinculados ao ideário de uma determinada classe social no Brasil dos anos 1970, uma era marcada pelo ufanismo e pela megalomania, e por uma confiança ingênua e injustificada no chamado  'progresso'. Na contramão, a realidade era bem outra, como revela na descrição dos costumes vigentes o professor de Literatura Hebraica e Judaica da USP. A tal opulência vem da herança da alta cultura austro-alemã herdada pela família protagonista do romance, que migra para o Brasil depois do nazismo - sim, há algo de autobiográfico. "De proximidade com o sublime e com o belo - todo um ideário estético e filosófico que nada tem a ver com o consumo e com a posse e que, aos poucos, sucumbe ante os aspectos crassos da experiência humana", explica Luis. A obra traz, portanto, o lidar com o se tornar eternamente estrangeiro, sem se adaptar à cultura local, e mesmo à própria condição humana.

O autor conta que frequentou Campos do Jordão desde que nasceu, em 1961, até 2004, e acompanhou de perto o que chamou de "tragédia da sua deterioração ambiental e urbana, a invasão de hordas cada vez mais numerosas de um turismo predatório, a expansão comercial, a instalação de shopping centers, a destruição das matas nativas, a instauração de grandes congestionamentos e a favelização da cidade. Foi, ao mesmo tempo, o paraíso da minha infância e o lugar onde os terríveis equívocos do projeto (ou melhor, ausência de projeto) 'desenvolvimentista' do Brasil se tornaram mais evidentes para mim: à flor da pele, por assim dizer".

No mato e nas ervas daninhas que crescem e derrubam o concreto surge a esperança de que, nesta guerra do homem contra a natureza, o lado que só vem perdendo por fim se vingue. Infelizmente, porém, as opulentas araucárias e orquídeas - tão comuns na paisagem de Campos de Jordão - não triunfarão juntamente com esse mato. "Há uma concepção tradicional judaica de história, que foi retomada por Walter Benjamin, e que entende o chamado 'processo histórico' como uma grande sucessão de catástrofes - e o chamado 'progresso' como um acúmulo incessante de escombros. É disto, também, que trata este livro: da impossibilidade de reconstruir mundos perdidos, da resignação (mas também da revolta) ante a destruição e ao acúmulo de escombros".

"As pragas que tinham crescido do jardim abandonado eram como os refugiados de um continente maldito. Comparar seres humanos a pragas é abominável. Mas há muita gente que não resiste a cometer semelhante abominação."

Luis Sergio Krausz cresceu em meio a uma consciência do exílio. "Dizem que tudo aquilo que uma geração não é capaz de elaborar e de expressar é passado, silenciosamente, como um baú secreto, para a geração seguinte. Sou o legatário desse grande baú de sentimentos e de emoções nunca expressas e, em minha escrita, procuro revirá-lo, compreendê-lo, apreciar suas belezas e também suas grandes ironias". Daí a questão temporal tão abordada em seu romance, assim como as memórias, a menção à opulência européia de momentos passados.

Sobre o autor
Luis atua em três segmentos de atividade literária: pesquisa acadêmica, a criação literária e a tradução. Já publicou um romance pela Cepe: Outro lugar, vencedor do Prêmio Cepe de Literatura (2016), e do Prêmio Machado de Assis (2018). O primeiro romance, Desterro: memórias em ruínas, foi publicado em 2011. Em 2016 e 2014 ganhou segundo lugar na categoria Romance e foi finalista do Prêmio Jabuti, respectivamente, com os títulos Bazar Paraná e Deserto, ambos da editora Benvirá.

Também já publicou seis livros acadêmicos sobre literatura judaico-alemã e literatura judaica, e realizou 15 traduções de autores como Franz Kafka (no prelo), Thomas Mann (no prelo), Aharon Appelfeld e Friedrich Christian Delius.

Serviço
Lançamento do livro Opulência (Cepe Editora) e bate-papo com Márcio Seligmann
Quando: 10 de março
Onde: Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho, 915 - Vila Madalena)
Horário: 19h às 21h
Preço do livro: R$ 30,00 (impresso) e R$ 9,00 (E-book)
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