quarta-feira, 25 de março de 2020

Os eternos, de Jack Kirby


Os eternos é um ótimo exemplo de como Jack Kirby poderia ser genial. Ele provavelmente leu o livro Eram os deuses astronautas, de Erich Von Daniken, segundo o qual a maioria da mitologia é na verdade, relato de visita de extraterrestres à terra e os grandes monumentos seriam provas dessas visitas. O rei dos super-heróis pegou esse conceito e transformou numa HQ grandiosa.
O primeiro número da revista foi publicada pela Marvel em 1986 e aqui em 1984, na revista Superaventuras Marvel 25.
Na história, um arqueólogo e sua filha, acompanhados de um estranho guia entram em uma caverna inca, onde se deparam com uma escultura grandiosa que remete a uma nave espacial pilotada. O estranho guia se revela, diz que faz parte de uma raça de seres poderosos, os Eternos e conta a origem da humanidade: segundo ele, seres extraterrestres, os Celestiais, visitaram a terra em passado remoto e transformam os primeiros humanoides, criando as três raças: os Eternos, seres poderosos e iluminados, voltados para a paz, os Desviantes, seres degenerados, que mudam de forma a cada geração e são voltados para a guerra e os humanos, que vivem entre a guerra e a paz. Muitos dos Eternos, embora sejam extremamente poderosos e imortais, vivem entre nós disfarçados de humanos.
O guia revela também que é um Eterno, Ikaris, e que sua função é acionar o alarme que trará de volta os deuses enquanto um grupo de desviantes tenta impedir o chamado cósmico.
Em um única história, Kirby estabelece todo um universo, toda uma explicação sobre a raça humana e joga as bases de todas as histórias posteriores.
O conceito é genial.
O problema é quando começamos a analisar o roteiro.
Para começar, não há uma única razão para Ikaris ter ido até o templo inca acompanhando a expedição do arqueólogo. Por que ele não foi sozinho acionar o chamado? Kirby provavelmente fez essa opção tentando tornar a história mais humana, o que não acontece, já que o leitor não se identifica com o arqueólogo ou com sua filha – e sequer a história é narrada do ponto de vista deles. Aliás, o leitor não se identifica com ninguém ali.
Uma boa história é geralmente resultado de um processo de identificação-projeção. O leitor se idêntica com um personagem e se projeta nele, vivendo suas aventuras com ele, como se entrasse numa realidade virtual. O leitor vê a história do ponto de vista do personagem com o qual deve se identificar. Aqui não há ninguém com que o leitor possa se identificar, tudo é narrado de maneira distante e fria.
E os diálagos, ah, os diálogos. Todas as falas são apenas narrativas ou descritivas. Todos falam igual, exceto os vilões que sempre falam no imperativo.
Além disso um Eterno quando encontra um humano pela primeira vez imediatamente começa a dizer quem é a contar a sua história. Sabe aquele segredo que por séculos foi escondido da humanidade? Um Eterno é capaz de contar para alguém na primeira vez que o vê antes mesmo que ele pergunte. 
O texto acompanha os diálogos, continuamente descrevendo algo que o desenho já está mostrando. “O doutor e sua filha ficam atônitos com as palavras de Ikaris” diz a narração, enquanto o desenho mostra os dois atônitos. “Logo, uma enorme cabeça de pedra surge à sua frente. Penetrando pela boca do dragão, a nave avança rumo a uma abertura luminosa” quando o desenho mostra uma cabeça de pedra se abrindo e a nave penetrando nela rumo a uma abertura luminosa.
Eternos é um exemplo de conceito genial, com uma arte fenomenal, que carece de um bom roteirista para trabalhar os textos e diálogos.  
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