sexta-feira, 17 de abril de 2020

Vírus, um conto de Ficção Científica

Roberto Fiori - Foto divulgação
*Por Roberto Fiori

“Me lembro como se fosse ontem... começou com a morte de alguns metros quadrados de área de minha plantação de trigo. Depois, foi a vez do feijão. O arroz, o milho... as hastes das plantas enegreceram, afinaram, partiram. Foi o fim das fontes de alimento. Foi o fim de uma Era produtiva, de certo modo rica. Porque a partir de agora, só iríamos colher areia e sal.
“Com o fim da comida em forma de grãos, veio o fim dos rebanhos, da carne. O plâncton começou a morrer e toda essa morte era inexplicável, mesmo para nossos geneticistas. As baleias feneceram, os peixes acabaram. As florestas foram destruídas, quase em sua totalidade. Eram espécies vegetais, também. Os animais selvagens perderam seu território, o equilíbrio entre a cadeia alimentar foi quebrado, os elos entre predadores e presas foram desfeitos. A fauna desapareceu, junto com as espécies vegetais.
“O homem já podia deixar de se preocupar em lutar para ser o chefe do Reino Animal. Ele era a última forma de vida que ainda existia na face da Terra. Com exceção do Vírus. Conseguiu-se determinar que um elemento era condizente com a situação mundial: um vírus que devorava gramíneas. Infelizmente, era tarde. Com a fome, voltaram os hábitos canibais: em dado momento, somente era seguro andar em bando, e antes do escurecer. Agora, os bandos se destruíam, devorando-se.
“No espaço, a Lua continuava com os ciclos e fases. As estrelas do firmamento continuavam a girar pela abóbada celeste. O Sol nascia e se punha. Quando o último ser humano do planeta acabou de comer a carne do braço de seu companheiro morto, olhou para o céu e, o sentimento de raiva dirigido para o espaço, largou o osso que mordiscava e levantou o braço, esquálido. Gritou para os deuses o ouvirem, para a imensidão do silêncio, que engoliu o grito, faminto. 
“Ele se deitou ao lado dos ossos e do crânio de seu antigo amigo, e dormiu.

--//--

“Acordou após um espaço de tempo indefinido. Estava em um outro lugar, que não reconheceu. Era diferente, somente luz. Levantou-se e caminhou sobre um solo que não podia ver. Sabia que não estava surdo, mas nenhum som chegava a ele. Agachou-se e tentou raspar as unhas no chão. Não havia matéria, mas ele podia andar... Experimentou gritar. O eco repercutiu pelo espaço, e isso o homem podia compreender. 
“Estava vivo, e isso era o que importava. Olhou-se. Seu corpo era mirrado, como no tempo em que todos os homens haviam morrido. Lembrou-se de matar seres humanos e provar a carne e o sangue dos que liquidara. Era estranho, nesse momento não sentia fome, como há muito não acontecia. Mas sabia que a fome voltaria, e decidiu procurar.
“Andou por muito tempo, muitos quilômetros, ao que lhe pareceu. Nenhum som, porém, evidenciava a existência de outras pessoas, ou objetos, ou máquinas. Simplesmente, o éter lhe configurava como ar, o éter de antes da Relatividade de Einstein, quando se acreditava que ele, um tipo de matéria, existia e freava a passagem da luz, no espaço. Mas nesse lugar, em que a luz era uma constante, sua mente, que raciocinava lenta e sofrivelmente, devido ao longo período de fome, lhe dizia que o éter era que provocava a constância da luz. Ela nem se lançava para os lados, para sua frente, para trás, ou para cima e para baixo. Era uma única coisa. Luz, alva e pura.
“Vestia-se com farrapos. Isso porque, antes, tivera de lutar muito, para obter sua refeição diária. Lutara contra animais e contra homens e mulheres. Mesmo crianças tentaram matá-lo. Crianças selvagens... ah! Agora, não havia pessoas, nem comida, ou ruínas de cidades e vilas. Agora estava imerso na luz e, por mais que andasse, não se deparava com nada.
“Foi quando começou a se sentir realmente cansado que viu a parede. Não era um muro visível, pois sua cor era branca, como o resto do espaço. Mas ele sabia que ela existia. O homem abrandou o passo e julgou perceber algo, junto ao chão invisível. Acocorou-se e esticou as mãos. Agarrou alguma coisa protuberante e puxou. A princípio, permaneceu onde estava, o fragmento. Mas acabou cedendo e, quando o objeto se desprendeu, o homem perdeu o equilíbrio e caiu sentado.
“Havia algo, ali. Era brilhante, era azul, pontilhado por nuvens brancas e convidativas, e com estrelas que piscavam. A Lua cheia observava-o de soslaio. Ele pôs-se de joelhos e inclinou-se. Puxou a parede, nada mais que uma cortina indelével, mas concreta. A muralha fina soergueu-se, tal lençol de seda diáfano. O homem debruçou-se sobre a passagem e viu como estava perto do chão. Esticou a mão e tocou na grama azulada.
“Levantou-se e deu um passo para a grama. Era úmida e refrescou seus pés esfolados, de tanto que andara no mundo de luz. Uma estrela particularmente brilhante cintilava no horizonte distante. Era da cor da neve e parecia rugosa e áspera. O homem andou em volta de si. Perto, rochas erguiam-se aqui e ali, monumentos eternos saudando o novo visitante. Ao longe, montanhas envoltas em nuvens esfarrapadas dispunham-se altaneiras e orgulhosas. 
“Ele contemplou uma flor, que crescia perto de seus pés. Era Edelweiss, uma flor que existira nas encostas dos Alpes, no lugar de onde viera e que já não se lembrava mais. Mas recordava-se da flor. E lembrou-se de seu próprio nome. Era Weiss, nascera em algum lugar do Hemisfério Norte da terra que uma vez se chamara Terra. Porém, disso, Weiss não se lembrava. E nem sabia o que fazia ali. Sabia apenas que estava vivo.
“O homem caminhou até o amontoado de rochas mais próximo. Era marrom e branco, tingido de cinza e vermelho. Ele estendeu o braço e apalpou a pedra. Era morna, como quando tomara... banho em uma piscina natural, num gêiser... Sim, passara a se lembrar de sua terra natal, com fontes de água natural tépida e relaxante. Uma vez, ficara por três horas assim, imerso em uma depressão no solo, respirando o vapor que subia em anéis de fumaça.
“Um ruído o alertou e ele se virou. Vislumbrou uma casa, uma casa pequena, em uma depressão que levava a um rio azul e branco.  Parecia que já tinha estado nesse local. Da chaminé subiam gases e o cheiro de comida o levava a salivar. O homem desceu apressado e uma paisagem se mostrou. Era um bosque de pinheiros e eucaliptos, faias e olmos se elevando contra o céu e o Sol, visto através dos troncos das árvores.
“Weiss aproximou-se da casa, o coração aos berros, tentando lançar-se através do tórax. O homem se deu conta de que poderia haver alguém na casa. E que poderia aplacar sua sede de conviver com outros... apesar do que fizera antes, na época da Grande Fome.
“Ele abriu a porta com rapidez. Não com violência, ele não a deixara bater na parede. Segurara-a pelo trinco, estava ávido de... coisas. Sem ninguém dentro, ele entrou. Um caldeirão fumegante sobre um enorme fogão lançava fumaça, que subia pela chaminé, a um canto da sala. O cheiro inebriante fez com que o homem entrasse aos tropeções. 
“Pernil de cordeiro em um caldo de mariscos e frutos do mar. Weiss tentou agarrar a carne, mas estava quente! Ele procurou um utensílio e foi para o outro cômodo da casa. Havia uma mesa, talheres, dois pratos, uma toalha de linho e duas velas acesas. O homem agarrou sem jeito um dos pratos, que escorregou de sua mão afoita e foi ao chão. Ele fitou a porcelana, partida em dois. Levantou os olhos, quando ouviu a mulher.
— Não se preocupe, é só um prato. Eu sirvo.
“Ela pegou o outro prato, deu a volta pelo corpo esquálido do homem e foi à sala. Serviu uma generosa porção de cordeiro e lagostins marinados embebidos em caldo de vinho quente. Deu a comida para Weiss. Ele segurou com cuidado redobrado a terrina. Levou-a à mesa e começou a comer. A mulher era jovem, mas madura. Acocorou-se, apanhou o prato quebrado e disse:
— Você veio tarde. Aqui, não há tristezas ou amarguras. Fome não existe.
“Weiss engoliu o bocado de lagostim e olhou para ela:
— Não pretendo ficar muito tempo.
— O tempo não corre, aqui. Somente quem sofre tem pressa.
“Ele deixou os talheres no prato fundo e falou:
— De onde vim, sofrimento era o que mais tínhamos.
— E aqui? — ela perguntou.
“O homem pensou em uma resposta inteligente. Mas não tinha. Olhou pela janela da cozinha e disse:
— Vivem outras pessoas, neste vale?
— Sim, mas longe.
— Vou caminhar um pouco — ele anunciou. E, hesitante, perguntou, a indagação de quem tinha medo de fazê-la, mas uma vontade maior ainda de dizê-la: — Quer... me fazer companhia?
“A mulher era simpática. Apanhou um casaco do cabide sobre uma mesinha da sala e saiu. O Sol estava se pondo, por trás do bosque de pinheiros. Eles subiram para o campo onde estavam os rochedos e viram pela primeira vez algo que lhes marcaria para sempre suas vidas: o céu começara a se abrir, o espaço negro penetrando entre as nuvens, e uma revoada de pássaros dourados e prateados pairou, brilhando mais fortemente do que jamais haviam visto ou sonhado qualquer outra coisa. E quando os pássaros, esguios, aerodinâmicos e velozes, passaram por suas cabeças, viram que não eram pássaros, mas formas metálicas pequenas que levitavam com facilidade no ar acima deles. 
“E, em cada uma delas, existia uma pequena cidade, seus habitantes prontos para povoar este Universo novo, que Weiss pensara antes ser o Cosmos da Terra, de sua amada Terra.
Vou ficar, para ver como as coisas se dão, ao final das contas, pensou o homem.
Pode ficar na minha casa, ela é grande demais para uma só pessoa, respondeu em pensamento a mulher.
Até o momento de partir, ele continuou.
Esse momento vai demorar a chegar, ela concluiu, abraçando o homem. Com a flotilha de naves descendo por trás deles, os dois desceram a inclinação e voltaram para casa.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

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