sexta-feira, 8 de maio de 2020

Conto "Tempo de Repousar", por Roberto Fiori


*Por Roberto Fiori

Davi saiu para o ar livre, respirando o ar fresco e puro que vinha do lago. Olhou para os lados e correu. Os pés passaram sobre um buraco, toca abandonada há vários dias por uma aranha venenosa. No momento, havia uma vaga. As pernas fortes, mas magras do menino, atingiram o pequeno cais onde três lugares para barcos conservavam pneus de atracamento nas paredes do píer, e ele inspirou fundo. 
Seria daquela vez..., ele pensou, tomando coragem para saltar. E de roupa e tudo!, Davi concluiu, esperando o choque com a água gelada.
— Davi, cuidado para deixar as roupas bem secas, quando voltar! — gritou a mãe, Caroline, enquanto saía para a varanda com o cesto de roupas recém-lavadas. 
Davi parou na beirada do cais, a pontada de ansiedade lhe fazendo torcer as entranhas. Isso não vai acontecer. Ficar de cuecas, para o pessoal da rodovia me ver. Essa não! E, com essa conclusão súbita e sombria, sentou-se na beirada do píer. Seu pai teria orgulho da coragem dele em querer se atirar nas águas rasas com tão pouca idade, mas Caroline detestaria ter de lavar outra vez e esperar secar a camisa xadrez e branca, as calças jeans, os tênis pretos e as meias brancas do menino. E passar a roupa, dobrá-la e guardá-la, para ver na noite seguinte o monte deixado por Davi de outras tantas peças no cesto de roupas sujas, na área de serviço.
O garoto tirou as meias e o tênis e ficou balançando as pernas, os dedos dos pés tocando a superfície da água. No horizonte, o Sol se escondia nas montanhas cinza-escuras e a floresta, que cercava o lago, começara a ficar sombria, de um modo que fazia Davi ser tomado de assombro.
A casa de madeira onde ele e sua mãe viviam era pequena, dois cômodos servindo como quartos de dormir, a cozinha e a área de serviço simples, mas funcionais, dois banheiros e a sala de estar. Caroline dizia para as amigas da região que era frequente que Davi fizesse alguma coisa de que ela se orgulhasse, mas a verdade era que o menino prestava pouca atenção às necessidades de uma casa no campo. Estava interessado em ver a vida passar, o que era próprio de uma criança de dez anos de idade. E se divertia, observando as criaturas do lago e da floresta, o tempo fluindo livre e solto, sem preocupações ou tristezas.
Existiam ocasiões, porém, em que mesmo uma criança de dez anos ficava triste. Como quando seu gato de estimação morrera, baleado em um acidente de caça, por um velho bondoso, mas que confundira o animal com um pequeno cervo adolescente, que perambulava nas redondezas. O homem idoso enxergava mal, mas prometera um novo gato para Davi assim que voltasse da cidadezinha, quilômetros em direção ao Sul, na autoestrada. Passaram-se dois meses e o homem, apesar de ter deixado seu endereço com Caroline, se fora como o vento. A mulher pensara em acionar as autoridades e ir atrás do velho, mas estava mudando de ideia, ao ver como Davi aceitara o acidente, parecendo ter se esquecido do ocorrido.
As águas do lago traziam outras coisas à superfície, de suas profundezas enigmáticas e silenciosas. O menino olhava distraído para o outro lado e deixou de reparar na sombra que surgira à luz do Sol, passando junto de seus pés e se dirigindo para a ponta da praia de seixos, à direita do cais. A água foi revolvida e os pés descalços de Davi foram encobertos por ela, por um minuto. Ele olhou para baixo e reparou no que acontecera. Mas demorara para distinguir a barbatana dorsal do corpo hidrodinâmico do animal. 
Vai demorar, até eu o ver mais uma vez, nadando junto ao cais! E se eu..., cogitou ele, puxando as pernas e desatando a correr pela madeira do píer. Pode ser que eu...
— Davi, não se demore! O almoço vai sair em cinco minutos.
— Certo! Cinco minutos! — o garoto respondeu ao chamado da mãe. A criança continuou a correr pela trilha de terra que circundava o lago, seca. Durante a época das chuvas, o caminho tornava-se barrento e escorregadio, e tinha-se de andar pela grama, viçosa, na área que ia do lago aos pinheiros que faziam da floresta um lar para inúmeras criaturas.
Na zona de seixos brancos, que se estendia de cem a duzentos metros afastada da casa, até uma distância de um quilômetro, a Noroeste, cobrindo a grama e a floresta com uma beleza irreal e tão convidativa para caminhar, o menino parou junto às margens.
Sabia que deveria estar naquele local, o golfinho. Na verdade, Davi o havia visto, remexendo nos pedriscos alvos, deixando a cabeça e o focinho brincar com a terra e as rochas, jogando-as para o alto e para a trilha, além. O garoto se escondera à noite, por trás de um pinheiro, e presenciara a cena.
— Ele costuma fazer isso — disse Davi à mãe, uma noite em que jantavam, comentando sobre os hábitos dos animais do campo. Quando sua mãe lhe perguntou se o golfinho poderia ter algum dono, o garoto disse que era improvável. — Nenhuma pessoa vive no lago, os únicos que passam por estes lados são pescadores e caçadores. Ninguém se aproximou dele.
— É seu instinto — respondeu Caroline, pensando sobre o assunto. — O animal é selvagem por natureza, como os cervos e os esquilos. Arredio. Coma sua sopa, Davi, está esfriando.
Caroline caminhara com o filho ao redor do lago por dias a fio, quando haviam se mudado da cidade grande para o interior. Sempre procurando coisas novas, uma toca de esquilo, um ninho de cobras, ou uma colmeia no telhado da casa ou nas árvores da floresta. Era uma mulher forte, mas esguia, superara em alguns meses a morte do marido, quando Davi completara um mês de idade.
Nos dias atuais, mesmo decorridos dez anos, pensava em Steve da mesma forma que quando estivera vivo: guardara ocasiões e lembranças boas e... as ruins, deixara a corrente do tempo as levar. Vira quando o garoto seguira pela trilha até a praia de seixos, e ficara pensando que seria melhor deixar o menino à vontade, sem medo de que ele fosse picado por uma serpente ou uma aranha. Naquele lago, a única vez que soubera de um acidente fatal fora com Sibs, o gato de Davi.
O menino se aproximou do lago, entrando com os pés descalços no espelho de águas transparentes e puras. Observou com atenção e procurou manter-se quieto. Fechou os olhos. Imaginou o corpo do golfinho, as nadadeiras, a barbatana, o focinho aberto com um peixe atravessado entre as mandíbulas. Pensou no animal engolindo o peixe. 
Um marulhar se ouviu junto a seus pés e Davi sentiu a cabeça do golfinho roçando suas pernas. Acocorou-se, sem importar-se com o fato de que sua bermuda se molharia com água. Passou a mão no focinho do cetáceo, ao mesmo tempo liso e resistente, frio e úmido, que cutucava seus joelhos. Durante segundos, os olhos fechados, sentiu a pele acetinada do mamífero em seus braços, que envolviam a cabeça dele.
E fez contato.

--//--

Foi no fim da tarde que Davi voltou para casa. Tirou a bermuda encharcada na varanda e abriu a porta sem barulho. A sala, vazia, o esperava, a mesa principal posta, com a toalha de tecido fino, um prato, os talheres especiais, folheados a ouro, o copo de cristal e um guardanapo bordado com filigranas douradas e prateadas. Ele procurou a mãe, mas a casa se encontrava em silêncio. O menino achou que a mãe havia se deitado, então foi pé ante pé até a mesa. Havia uma carta, escrita do próprio punho de Caroline, a grafia apurada e tendendo para o gótico preenchendo o papel. Davi se deu conta da situação. Era a primeira carta que ganhava de sua mãe, mas aquele tipo de letra era raro que ele visse na família.
Ele segurou a folha de papel perfumado, decorado com desenhos de canetas, máquinas de escrever obsoletas do Século XX, tinteiros e outros objetos de escritório que somente vira quando, aos sete anos, Caroline o levara a uma feira de Ciências, na cidade próxima. O garoto sorriu, lembrando-se dos lençóis perfumados que o cobriam, em uma manhã de Verão daquele ano, e sua mãe levara o café-da-manhã para ele na cama. Leu.
“Querido, você deve estar se perguntando o porquê de eu ter deixado a casa para você, neste momento. Deve se indagar qual o motivo dessa comemoração na sala, com a mesa posta e tanto luxo. Lembra-se de quando tinha sete anos? O ano em que o levei para a feira de Ciências, e a manhã em que lhe trouxe os marzipãs alemães, os cookies dinamarqueses e os petit-fours franceses, naquela bandeja de prata?
“Há um sentido amplo e verdadeiro em tudo o que fazemos neste mundo, que transcende a real existência de nossa vida, às vezes tão fútil e destituída de sentido. O sentido é nossa própria vida. Acredito que aquilo que viu e sentiu na praia de seixos brancos, esta tarde, é algo que explica tudo, sem que eu tenha a necessidade de colocar em palavras.
“Há acontecimentos em nossa vida que nos dizem tanto respeito quanto nossa própria morte. Seu pai admirava a Natureza, de uma maneira semelhante a quando você consegue apreciar o ar puro de montanha no lago, ao sair cada manhã pela varanda. É um fato que explode aos nossos olhos e nos diz que devemos aproveitar nossa vida como se amanhã fôssemos morrer. Como se hoje fosse o nosso último dia na face da Terra.
“Estou dormindo, neste momento em que você volta do lago e lê esta carta. Será a primeira de muitas e muitas que escreverei para você. Quero que sinta o amor que tenho por você, pelo que você é, por trás de tanta humanidade que vejo em sua pessoa. Da mesma maneira que eu, você verá e sentirá as maravilhas que acontecem neste lago e nesta floresta de pinheiros. E, à medida que crescer, suas capacidades crescerão junto, como a habilidade de voar de um pássaro surge, à medida que ele cresce, alimentado e cuidado por sua mãe.
“Aproveite as horas do dia e os momentos em que está acordado, à noite. Saberá o momento de despertar dos bem-te-vis, o abrir das flores a cada manhã, a luta de abelhas e vespas, seus ninhos atacados por outros insetos, os esquilos e arganazes, quando eles estocam sua comida para o Inverno e, nessa estação do ano, se recolhem e adormecem em suas tocas. As aranhas, maravilhosas engenheiras do mundo animal, você saberá quando elas começarem a tecer suas teias. E quando houver fatos trágicos, como a morte de um peixe frente a ameaças, como o golfinho.
“Você aprendeu esta tarde que o golfinho é seu amigo. Pode ser seu aliado, se você for ameaçado. Ele pertence a uma classe de animais que é tão inteligente quanto o homem. As baleias e os elefantes são outros seres vivos tão privilegiados. E, por serem tão completos, é que podem se comunicar com você e comigo.
“Veja o mundo como um laboratório de química. É nele que fazemos experiências e aplicamos nossos conhecimentos e habilidades. Os resultados são os que importam, da mesma forma que nós conseguimos dominar nossas capacidades evolutivas especiais.
“Ninguém, neste planeta, sabe de nossa comunicação com a Natureza. Conto com você para que continue dessa maneira. Ninguém compreenderia, ou aceitaria o que temos. Quando quiser conversar sobre nosso dom, use o pensamento. Pois o pensamento é a última fronteira da mente humana, onde as pessoas desconhecem seu real significado. E que nos manterá a salvo”.
Davi dobrou a carta da mesma forma como a tinha apanhado e a pôs sobre o prato, onde estivera. Sem se preocupar em esperar a mãe chegar, foi à cozinha e serviu-se da sopa que Caroline preparara para o almoço. Gostou, mesmo fria.
Lavou o prato e os talheres comuns, com os quais tomara a sopa. Olhou para fora, pela janela de madeira e vidro, e sentiu a floresta e o lago. Acompanhou o jantar do golfinho, enquanto ele deglutia um peixe suculento junto ao píer e, afastada três quilômetros da casa, no outro lado do lago, percebeu que uma revoada de morcegos frugívoros começava através das árvores.
Davi fechou o trinco da janela e a cortina e ficou olhando para o escuro. Podia sentir chegando à sua mente as atividades noturnas da floresta. Quando se encontrou em contato com todos os seres dela, fechou os olhos e sentou-se à mesinha. 
Inclinou-se e sua cabeça encostou no móvel, quando sentiu que tudo estava em paz, iniciando sua jornada pela noite. E soube que havia hora para tudo, inclusive para repousar.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

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