sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Conto "Viagem Sem Fim", por Roberto Fiori


Há muito e muito tempo, quando a Terra era jovem e o Sol, uma estrela que emergira há pouco mais de um bilhão de anos da nuvem de poeira cósmica que gerara o Sistema Solar, ocorreu um fato único. Visitantes dos confins de um outro Sistema Solar, este idoso e prestes a se desintegrar sob forças incalculáveis de sua estrela massiva em vias de se transformar em supernova, ressurgiram de sua distorção espacial para se encontrarem na órbita de nosso planeta.
Os seres, quando em repouso, durante as longas viagens através de sua dimensão não espacial, viviam em uma rede de conexões e fluxos eletromagnéticos que controlavam suas naves estelares. Emergindo do não espaço, adquiriam formas humanoides para comandarem os painéis e projetores solares, que os impulsionavam nos limites do Sistema Solar de seu destino.
Sus-4 foi o primeiro a sair do sono energético ao qual se submetera, ao deixar seu mundo condenado. Uma tela de rematerialização trouxe-o ao salão de controle.
“Um mundo quente, magmático e radioativo. Nos manterá vivos durante milhares de anos”, ele refletiu, partindo do princípio de que este Sistema seria o ideal. “O que temos aqui?”, pensou, observando a tela de ampliação estelar. Um planetoide gigantesco, assomou, eclipsando o Sol. Era o único fragmento de rocha perigoso, na realidade, podendo causar estragos irreversíveis ao planeta no qual as naves dos alienígenas orbitavam.
Sus-4 fez um gesto curto com sua mão com cinco dedos, o polegar oposto aos outros. Vik-10 foi restituído à sua forma humanoide original, sentado em sua poltrona em que controlava o sistema de defesa da nave interestelar.
“Acha que pode dar conta daquele pedaço de rocha”?, Sus-4 emitiu sua partícula de pensamento para o simbionte. 
Vik-10 terminou de se conectar ao centro de antimatéria da nave, renovando suas forças. Sua relação de simbiose com pósitrons era lendária. Elas o supriam de energia e ele controlava o equipamento para que fossem mantidas no poço de vácuo quântico do centro da nave, no qual nenhuma forma de matéria penetrava e, desse modo, não havia aniquilação de matéria-antimatéria. Os pósitrons estavam a salvo, assim como a própria nave estelar e, da mesma forma, Vik-10.
O simbionte pousou sua mão na placa tridimensional a seu lado e um feixe de raios-gama partiu da proa da espaçonave líder. O planetoide cintilou por alguns segundos, mas sem afetar os olhos dos dois humanoides. Eram criaturas que enxergavam em todas as frequências do espectro eletromagnético, mas, quando a explosão do asteroide descomunal esteve prestes a se dar, Sus-4 e Vik-10 modificaram sua recepção óptica para muito abaixo do infravermelho. E a explosão, na faixa visível do espectro, foi vista como uma mancha negra, que levou dois minutos para desaparecer.
“O que pensa de nosso lar, Vik-10? Acha que poderemos viver nele, em três bilhões de anos?”
O simbionte achou graça. Sorriu de leve, e isso, para ele, era raro, pois raras eram as vezes em que achava algo digno do movimentar de seus lábios, que acreditava serem feitos para alimentação. Os alienígenas poderiam mesmo falar, mas era um desperdício de energia. Porém, no caso de Sus-4, ele se dava ao luxo de sorrir, e inclusive, de rir, quando lhe convinha. Era um humanoide com senso de humor, ao contrário de tantos outros, como Vik-10.
“Creio que viveremos o suficiente para encontrarmos um planeta que possa suportar nossa existência, mas esperar três bilhões de anos no fluxo eletromagnético da rede eletrônica de nossa astronave é pedir muito... Por que não nos dirigimos até o Sistema Solar vizinho a este, a quatro anos-luz de distância?”
“Aquele Sistema pode abrigar vida, é certo. Inclusive as chances de haver uma civilização estabelecida nele é de uma em dez. Mas nossas membranas de pensamento artificial, MPAs, nos falam que este planeta que orbitamos possui cem por cento de chance de abrigar vida, em três bilhões de anos”.
“Ache um modo de podermos abreviar nossa estadia nesta nave estelar, Sus-4”.
“Devo pedir ajuda às MPAs, para que me auxiliem nesse processo de raciocínio”.
Assim, Sus-4 o fez, apresentando os dados de probabilidade de ambos os Sistemas para apresentar condições para a vida, computando ameaças, tais como asteroides, meteoros e meteoritos, a presença ou ausência de uma ionosfera para proteção contra partículas cósmicas e milhares de informações que convinham a uma análise de pensamento.
Passaram-se duas revoluções da Terra ao redor de si mesma, em que os alienígenas na ponte da astronave observavam a Terra vulcânica, abaixo, sendo bombardeada por fragmentos de rocha provenientes do cinturão de asteroides, de outras partes do Sistema Solar e um ou outro cometa ocasional. As naves estelares em órbita corriam perigo ínfimo, devido a seus campos de repulsão antigravitacionais. Mas, como se apanhados de surpresa, Sus-4 e Vik-10 suspiraram de alívio, quando o relatório veio. 
Era de suma importância sair deste Sistema! A estrela que aquecia os planetas sob sua proteção entraria em estágio de Gigante Vermelha em menos de cinco translações do planeta em torno do qual orbitavam. Por algum motivo insuspeito, aquela estrela aparentava ser um Sol constante, inalterável, que se manteria estável por mais nove bilhões de anos, mas algo corria mal. As reações de fusão nuclear estavam ocorrendo de maneira tão caótica e sem controle que, em pouquíssimo tempo, a estrela explodiria, vaporizando tudo, até o cinturão de asteroides.
Sus-4 olhou para o brilho cegante do Sol, a uma frequência de alguns Hertz abaixo da linha visível do espectro, e não foi cegado por ele. O mesmo fez Vik-10. Como simbionte, ele compreendia o pesar que o comandante estava sentido. Fora o mesmo em Sigma-Iriadne, de onde vieram. Mas puderam se preparar de modo adequado para escapar ao espaço normal e singrar por milhões de anos-luz, até aquele Sistema Solar. Que prometia tanto!
Sus-4 levantou-se de sua poltrona do centro do controle da nave estelar e apertou os punhos. Pensou em uma ordem seca e dura para os instrumentos da astronave e fez um sinal para Vik-10. Puseram-se lado a lado, de pé sobre a tela de desmaterialização e foram transportados por dutos e conexões eletrônicas, na forma de elétrons.
As naves voltaram-se para a região do céu em que se situava Alpha Centauri e, com os dispositivos de ativação do não espaço sincronizados, partiram para este Sistema Binário.
Por algum motivo intrigante, o Sol permaneceu como Anã Branca por mais nove bilhões de anos. Os hominídeos que sucederam aos macacos tornaram-se os Senhores de toda a Terra e a Humanidade singrou o Cosmos, milhares de anos após a invenção da agricultura, em direção à sua estrela vizinha.
E, lá, encontraram os restos de uma civilização que havia partido, por acreditar que, em centenas de anos após terem chegado lá, Alpha Centauri explodiria, assim como Sigma-Iriadne e o próprio Sol o fariam.
As Membranas de Pensamento Artificial, que diziam a quem as consultasse sobre as condições de vida nos Sistemas onde estavam e para onde se dirigiam, falavam a mesma coisa, com variações. Fora um erro do projetista que as concebera e, enquanto continuassem a insistir nessa falha, aquela raça de humanoides tão especiais estaria condenada a uma viagem pelo Universo sem fim.
Mas, para aqueles seres evoluídos, que podiam se transmutar de energia em matéria, e vice-versa, durante a translação ao redor de uma estrela promissora, resolveram seu impasse. Sus-4 recebera das MPAs a informação de costume, de que aquele Sol explodiria. Resolveu esperar. Sabia que, a um bilhão de quilômetros da estrela, a expansão dela alcançaria aquela distância em dias. Era uma estrela supermassiva que se transformaria em Gigante Azul e, posteriormente, em uma supernova ou mesmo, em um buraco negro.
As horas passavam. Rematerializados em humanoides, os controladores da ponte de comando da nave estelar líder esperavam por indícios de instabilidade do Sol. Mas as coisas se passaram de modo tranquilo, sem alterações, o que surpreendeu Sus-4. Ele se levantou de seu assento de comando e ordenou que fizessem uma varredura nos circuitos quânticos das MPAs. Foi constatado o erro do projetista, para irritação do comandante, que bradou aos quatro cantos do Cosmos que isso jamais deveria acontecer, nunca!
A raça de humanoides se estabeleceu no Sistema Solar escolhido. Formaram uma sociedade sem par, que deveria contatar com os terráqueos em algumas dezenas de anos. Construiriam juntos uma civilização que se lançaria aos confins do Universo, ultrapassando todas as fronteiras da Ciência e, quando ultrapassassem este Cosmos, se espalhariam por outros. 
E por inúmeras dimensões.

*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
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