sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Conto "E, no final... o quê?", por Roberto Fiori


2290. Minhas gengivas doem. Tratamento dentário inexiste, no mundo. A comida é escassa. A época de os homens devorarem seus semelhantes passou, faz anos. A Era de Ouro da exploração do Sistema Solar é sonho a ser esquecido, com tão pouca esperança e tanta nostalgia.

Lembro-me de quando lançaram a primeira nave tripulada, para Marte. Fazem mais de duzentos anos que a tripulação de dez astronautas entraram em órbita do planeta vermelho. A viagem fora revigorante. Sob uma aceleração de 1G, os homens viajaram em uma estrutura de circunferência girando ao redor de um eixo, do qual os propulsores de plasma levaram-nos ao quarto planeta. 

Desceram em uma planície onde milhares de fragmentos de rocha se dispunham sem ordem e um abrigo foi construído no topo de uma elevação desértica, junto ao lugar onde o módulo de pouso aterrissara.

Na Terra, fizeram do sucesso da expedição um feriado mundial. Ninguém trabalhou ou estudou naquele dia de Primavera. Tudo foi festa e comemoração. Um dia a ser lembrado, a partir do qual se enviariam mais e mais pessoas, para desafogar a superpopulação terrestre.

 Começaram a erguer outras construções, no Vale Spinoza. Era tudo, menos um vale, mas os diretores do projeto destinado a salvar a Terra da fome eram imaginativos. Um edifício de três andares estava programado para ser erguido em dois meses ou três, dependendo das condições do tempo. Acabou sendo outra maravilha. Algo maravilhoso para quem nunca havia ido além da órbita lunar.

No Vale Spinoza, em três anos, cinco mil homens e mulheres se estabeleceram. As tempestades de areia eram um problema, mas de somenos. As habitações em forma de cúpula protegiam bem os exploradores. Em cinquenta anos, dois milhões de pessoas se espalharam por quilômetros e quilômetros quadrados da superfície arenosa vermelha.

Enquanto isso, uma nova expedição partira para Júpiter. Passara ao largo do Cinturão de Asteroides e rumara para a órbita do gigante gasoso. A exploração do Sistema Joviano fora desalentadora. Nenhuma lua de Júpiter era adequada para a descida na superfície. Ou eram crostas finas demais para se fixarem fundações, e os módulos de pouso afundaram na lama e no líquido que os puxava para o fundo com avidez, ou a atmosfera era corrosiva o suficiente para impedir as naves de pousarem. Tinha-se projetado a missão a Júpiter com o mesmo entusiasmo com que se lançaram as naves em direção a Marte.

Dois terços dos homens da expedição, que ficaram em órbita dos satélites jupiterianos, voltaram. Mas sem recordarem de como chegaram além do Cinturão. Nem de quem eram ou onde estavam. A viagem de volta seguira automatizada, computadores e dispositivos robóticos cuidando do percurso e da alimentação dos astronautas. Mortos-vivos, poder-se-ia chamar os duzentos homens e mulheres que haviam retornado.

Em nosso planeta, Terra, discutiu-se sobre o que causara tal prejuízo às mentes dos cosmonautas. Diziam que o Cinturão fora o responsável, sabia-se pouco sobre o Sistema Solar, como um todo, e, desse modo tinha-se de lançar sondas avançadas o suficiente para desvendar o mistério da barreira de asteroides. Mas havia quem defendia o envio de outros astronautas. Homens dotados de novos trajes espaciais, que aguentariam a exposição direta a todo tipo de radiação que se pudesse imaginar. 

Foi feito. Dez bilhões de euros foram gastos, na preparação da nave interplanetária Voyager 3. Propulsores iônicos foram projetados para a missão. A nave levaria sete anos para chegar ao Cinturão de Asteroides. Como a anterior, a Voyager 3 planou sobre o plano da eclíptica e rumou para o planeta gigantesco. Trinta astronautas, isolados em câmaras dotadas de blindagem ultrassofisticada, uma liga densa e recém-criada, deixavam os homens protegidos de tudo o que se conhecia que pudesse ameaçá-los no espaço.

Voltaram em outros sete anos. Múmias encerradas em seus sarcófagos de titânio, irídio e chumbo. Trinta pessoas inertes e insensíveis, que passariam o resto de suas vidas miseráveis vegetando.

Refletiu-se e experimentou-se tudo o que computadores quânticos e mentes privilegiadas daquela época podiam fazer. Pediu-se o impossível e dessa súplica algo nasceu. A nave que teria de ser lançada deveria passar a no mínimo cem milhões de quilômetros da eclíptica, sobre ou sob ela, para que aquela radiação desconhecida deixasse de atuar.  A viagem demoraria mais dois anos. Projetou-se um detector, que previsse com enorme antecedência, da existência de alguma forma de energia desconhecida, que as sondas lançadas pelo Sistema até o momento não pudessem detectar.

A nave seguiu além de Júpiter, na nova trajetória, e rumou para Saturno e Titã. Nesta lua, cem astronautas sãos pousaram e começaram a construir uma cidade, às margens de um gigantesco mar de metano líquido, metros sob a superfície. O último contato da missão com a Terra dizia:


SEGUINDO CONFORME INSTRUÇÕES. RUMANDO PARA O EXTERIOR DO SISTEMA


A reação de toda equipe dos controladores, diretores, astrônomos e gente ligada ao projeto foi inusitada. A Internet divulgou que a equipe fora tão bem-sucedida que logo a Terra seria um paraíso, para quem ficasse e usufruísse de seus recursos. Novas naves foram construídas, para abrigar dois mil astronautas, no mínimo. Sessenta milhões de pessoas haviam sido escolhidas para, em vinte anos, abandonarem seus lares e seguirem para Titã. 

Parecia que as coisas dariam certo. Tinha-se a tecnologia, a inteligência, as matérias-primas. Pensava-se em lançar um milhão de naves para além do Sistema, em uma viagem que duraria a vida inteira. A Terra precisava de espaço!

Um dia, em que a milionésima astronave foi construída, juntamente com outras tantas, em órbita da Terra, suas superestruturas refletoras iluminando o céu à noite, como constelações cintilantes, algo surgiu nos monitores de computador da Nova Nasa, às margens do Golfo do México:


NÃO VENHAM. PROBLEMAS COM INTRUSOS. NÃO VENHAM. MORTE E DESTINO NEGRO OS ESPERAM ALÉM DA ÓRBITA DO PLANETA ANÃO


Os presidentes dos países envolvidos na corrida em busca de novos planetas decidiram. O desenvolvimento de uma armada espacial deveria ser iniciado em tempo imediato, com duração de dois meses, munida com todo tipo de armas que o Homem já possuísse ou viesse a imaginar.

Um comboio de naves, com propulsão de plasma, atingindo em um mês um quinto da velocidade da luz, foi lançado. Chegaram em algum tempo a Plutão, antes da última missão a Titã e ao exterior do Sistema Solar. Havia alguma coisa situada fora da esfera de compreensão dos astronautas e dos cientistas e computadores da Terra. Os astronautas e combatentes encontraram a escuridão, a ausência de luz, onde deveria haver estrelas e constelações, situadas na Via Láctea. 

Os instrumentos a bordo das astronaves acusavam nenhuma forma de energia luminosa, energia escura ou matéria escura vindos das vastidões do Cosmos. O desconhecido era amplo. E, como havia sido avisado, um destino terrível pairava. Sobre nossas cabeças.

A armada de cem naves estelares voltou à Terra. Passou pelas colônias de Plutão, das luas de Netuno, Urano, Saturno, as cidades de Marte. E as arrasou, uma a uma. A Terra se defendeu, equipando a maioria das naves-colônia que orbitavam nosso planeta com armas mortais. A luta, vinte milhões de quilômetros além da órbita da Lua, foi um massacre. Ambos os lados sofreram perdas colossais, mas a armada passou pelas naves de defesa, pouco a pouco.

Da Terra, lançaram-se feixes de raios gama e lasers cuja potência custou caro à população terrestre. A energia fornecida às indústrias e às cidades foi cortada sem previsão de volta, sendo direcionada para suprir os potentes discos de energia, de um ou dois quilômetros de envergadura, e que dizimaram boa parte da armada em órbita.

Mas a tecnologia usada para se construir a frota era avançada, até para os padrões do que existia para a defesa da superfície da Terra. Em dez dias, as cidades principais haviam sido vaporizadas. Capitais das superpotências nucleares submergidas em uma chuva de radiação. Indústrias reduzidas e sucata derretida. Plantações queimavam. As costas dos continentes enegrecidas, espiralando em fumaça corrosiva, submetidas ao fogo torturante da energia solar, amplificada à décima potência. Montanhas dilapidadas e transformadas em planícies causticantes.

Porém, mesmo quando a rendição foi assinada, a armada continuou a bombardear o globo com mais e mais fogo nuclear, mais e mais radiação solar ultra amplificada, partículas de antimatéria aniquilando o que sobrara da civilização terrestre.

No final, sobraram escombros. Meros restos do que fora uma sociedade com grande potencial, suficiente para atingir outras galáxias. Os homens esqueceram sua Ciência, sua sabedoria. Quem sobreviveu, no início encontrou forças para matar para comer. Porém, ao término de um ano, a fome continuava e a Era da Escuridão sem fim começava.

Estou sozinho, na boca da caverna de Lascaux, França. Eu, entre toda minha família, foi quem sobreviveu. Tenho uma dúzia de lacerações e ferimentos no corpo. Minha boca está seca, minha língua inchada pela sede. Morreram muitos, no final da tarde, ao beberem água das fontes subterrâneas da caverna. O líquido está contaminado, mesmo tão longe da superfície.

Observo a noite. A frota inimiga está em órbita. As estrelas, tão brilhantes quanto as naves, posso apanhá-las com minhas mãos machucadas, de tanto que lutei à tarde por um lagarto, que sobreviveu ao genocídio.

Vou embora. Singrar o mundo e descobrir se há um resquício de civilização, algures.

Duvido.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
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