sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

“Eram Uns Tempos Estranhos”, um conto de ficção científica distópica, por Roberto Fiori


Caminhava por uma rua, afastado de casa, imerso em pensamentos vagos. Incerto, pensava em me dirigir para a ponte pênsil que interligava o viaduto da autoestrada com o continente. Eram dez quilômetros de rodovia, para continuar por uma parte da costa que conhecera há meses. Decidi arriscar.

Havia algum movimento na autoestrada, àquela hora da madrugada, inferior ao turbulento trânsito diurno que se convertia em congestionamentos e acidentes. A iluminação das lâmpadas nos postes de aço era feérica em noites claras, uma coloração amarela e ofuscante, mas que se tornava pálida e borrada no orvalho que caía sobre a pista.

Um grupo de rapazes e garotas atirou duas garrafas de aguardente contra mim, que se espatifaram sem me atingir. O carro deu duas guinadas para a esquerda e para a direita, ao continuar em alta velocidade. Dei uma olhada nos restos do vidro espalhados pelas faixas da pista e, continuando pelo acostamento de concreto, pensei que se aquela gente queria mesmo me machucar, deveriam ter estacionado às margens da rodovia e me espancado de verdade. 

Olhei para o solo, trinta metros abaixo do elevado, onde algumas fogueiras denunciavam rostos macilentos e corpos esquálidos. Aquele era território de vagabundos, alguns hippies que continuavam a viver naquela época de sonho e drogados. Sabia pelo rádio e pelo jornal dos crimes que ocorriam abaixo do viaduto. E me senti deslocado, como se pertencesse a outro tipo de sociedade. 

Um grito agudo. E, ao olhar para baixo, inclinando-me sobre o “guard-rail” da rodovia, por puro reflexo, vi dois homens troncudos dispararem vezes seguidas contra um grupo, em torno de uma fogueira.

“Poderia ser comigo, aquilo”, pensei sombrio e um tanto nervoso, apressando o passo. Calculei que tinha mais sete quilômetros, até a ponte pênsil. O orvalho úmido era insuficiente para se infiltrar por entre meus três casacos velhos, mas grossos, e minha jaqueta surrada de militar. Dos anos das guerras químicas e bacteriológicas, há dez anos. Quando metade do mundo caiu perante um governo totalitário governado por um louco que queria o planeta sob seu tacão. 

“Com essa jaqueta, pode vir um furacão”, sorri, achando graça no que pensava. Um automóvel, vindo pela pista colada ao acostamento, me fez virar o corpo. O carro, um Ford de antes das guerras, aparentando estar carcomido por uma grossa camada de ferrugem, vítima de maus tratos e má conservação, tinha o pneu dianteiro direito bamboleando. 

“É, bamboleando”, apreciei a palavra dita com minha mente, como uma garfada de um bom “spaguetti”. 

O Ford deu uma guinada no instante em que passaria ao meu lado, no intuito de me esmagar contra o “guard-rail” ou me atropelar e me deixar para os ratos me devorarem. Eu me segurei à grade de proteção e pulei, ultrapassando a cerca de aço.

Agarrei-me do outro lado, próximo à base da grade, inserida no concreto que impedia que automóveis e caminhões saíssem voando da rodovia, em caso de perda de controle ou algum acidente grave. Rezei para que a massa de concreto aguentasse, quando o automóvel colidiu contra a barreira. 

Uma vez tinha lido como tais barreiras de proteção e os “guard-rails” eram construídos nos pontos em que as autoestradas seguiam por viadutos de mais de vinte metros de altura, o suficiente para matar ou mandar para a U.T.I. quem dirigia sem responsabilidade e caísse pela borda e mergulhasse no vazio.

Uma combinação de vergalhões, concreto, cimento e placas de aço era usada em toda a extensão dos dois lados dos viadutos, nos pontos em que havia uma queda mortal. Peças de metal temperado em formato de “L”, resistentes para aguentar o peso de cinquenta toneladas, suportava as barreiras contra acidentes, inseridas a uma distância de seis metros abaixo da pista, do lado exterior dela.

Não havia meios de um carro, mesmo um carro blindado de cinco toneladas, atravessar a barreira. Eram proteções de mais de dois metros de altura, enquanto que os “guard-rails” montados sobre elas tinham mais dois metros. Eu só conseguira passar para o lado do despenhadeiro, devido á minha forma física de atleta e ex-militar. Pulara e agarrara a grade de aço grosso do “guard-rail”, pintada de laranja fosforescente, e dera um giro por sobre ela. Agora, estava dependurado sobre o abismo, e ninguém sabia disso, exceto os maníacos do automóvel assassino.

O carro nem abalou a barreira. Em vez disso, começou a queimar. Sim, queimar, eu sabia que um automóvel sem manutenção, destruído pela ferrugem e sabe-se lá o que havia acontecido com ele no passado, era susceptível a incêndios. Era possível que o tanque de gasolina tenha começado a vazar com a batida, o que desencadearia o incêndio.

Ouvi gritos de pessoas. Mas eram gritos que vinham de dentro do automóvel. Senti cheiro de carne adocicada queimando. Sabia o que era. Nas guerras, tivera de matar com lança-chamas, o que fazia as vítimas cheirarem daquele modo. Os gritos foram aumentando de volume, até que pararam. Eu estava me sentindo bem, no abismo. Sabia que aguentaria por duas ou três horas dependurado. Subi, me agarrando nas barras do “guard-rail”, até me encontrar no topo. Girei o corpo e me lancei para o acostamento. Não senti o impacto, apesar de estar a uma altura de quatro metros do nível da autoestrada. 

O carro havia sido destruído e continuava a queimar. Tinha batido na proteção um metro além do local onde eu me lançara no abismo. 

Continuei a andar, olhando para as janelas do Ford. Carcaças queimavam e eu desviei a vista. A pista bifurcava-se e uma parte descia para a base do viaduto, no solo enlameado, enquanto que, seguindo reto, continuava-se até o continente. Na realidade, o vale que se formara com as guerras químicas fora seco e as formas de vida extintas, com as armas bacteriológicas. Existia uma espécie de deserto contaminado, onde o refugo da sociedade vivia. Sobrevivia, era uma palavra mais adequada. Mas quem ficava, morria de complicações nos rins, no fígado, nos intestinos. Ninguém aguentava além de dois meses, naquela pocilga.

Fiquei de sobreaviso. Olhava sobre meus ombros, sempre que um ruído de motor se aproximava. Nenhum outro problema houve. Quando cheguei à ponte pênsil, me preparando com entusiasmo para marchar outros dez quilômetros, vi que a iluminação da rodovia havia cessado. “Pode ser coisa das gangues de vândalos, que atuam no continente”, refleti.

As armas de fogo que existiam antes das guerras haviam deixado de funcionar, pelo efeito que a camada de gases químicos que precipitaram sobre todos causara. Travara o funcionamento de revólveres, pistolas, metralhadoras, fuzis, tudo o que disparava segundo um modelo de percussão. Nem lança-chamas funcionavam, pois os gatilhos de disparo haviam emperrado. Por estranho que parecesse, armas nucleares foram desativadas, seus sistemas computadorizados balísticos inoperantes. As fábricas de produção de todo tipo de arma haviam sido inutilizadas. Os gases provocaram a paz. Em termos. Havia armas brancas, como houvera desde a pré-história.

A cem metros da ponte pênsil, a última luminária amarela brilhava. Resolvi fazer a coisa do jeito mais difícil. Tentando perceber se havia alguém na ponte ou nos dois acostamentos, saltei sobre a proteção de concreto e o “guard-rail”. Eram cem metros. Eu podia aguentar o esforço de me deslocar pelo lado externo da pista, segurando-me na base das grades laranjas e passando meus braços maciços de uma grade para a seguinte. Fiz isso balançando as pernas, para ajudar no avanço. Demorei quinze minutos até chegar no início da ponte. Ouvi conversas. Falavam sobre tomar as ilhas, de onde eu havia vindo. Diziam em chacinar, matar, estuprar quem pudesse. 

Gostei quando disseram que faltavam armas para isso. E lutadores. Junto do início da ponte, a proteção de concreto se transformava em uma cerca de aço, que seguia até o final da construção, e além, uma estrada de terra esburacada desaparecia na escuridão da mata. Foi o que vi, quando me esgueirei pela proteção e pela grade laranja sobre ela. Fiquei agachado, os olhos acostumados à escuridão de breu. 

Eram cinco homens. Dois nos dois lados do início da ponte, um na metade dela e outros dois onde a estrada de terra se encontrava com o início da ponte de madeira. Avancei. Agarrei o primeiro lutador, um homem de físico avantajado, segurei seus braços maciços e sufoquei-o. Arrastei-o até junto da grade da ponte. Levantei seus cem quilos e atirei-o borda afora. Observei o segundo homem, do outro lado da estrada. Ele olhava para o abismo. Corri, fazendo o mínimo de ruído com minhas botas de couro com amortecedores nas solas. Herança de quando chefiara uma unidade de ataque biológico na Europa Oriental. Puxei o pescoço do lutador, quebrando-o. Lancei-o para o vazio. Ele caiu de cabeça e rolou pelo solo, morto. Foi fácil apanhar os três últimos. Eu percebi que enxergava melhor do que eles no escuro. Por isso, consegui surpreendê-los. 

Além da ponte, cuidei-me para permanecer nas sombras. Cheguei a um posto de combate, com cerca de cento e cinquenta homens. Estudei o local. Ataquei-o, liquidando um a um os assassinos. Entrei no Quartel-General do líder da futura invasão. Ele estava acompanhado. Dois bandidos, dois metros e dez de altura e um metro e meio de ombro a ombro, sacaram duas espadas cada um. O chefe permaneceu sentado junto a uma mesa, onde mapas estavam espalhados. Ele disse:

— Ataquem.

Curvei meus lábios para baixo, furioso, e levantei a mesa. Os mapas caíram no chão. Varri os dois gigantes com o móvel, acertando-os e lançando-os contra as paredes da construção. Esmaguei suas cabeças com os pés da mesa.

— Ia matar, estuprar e liquidar com a população das ilhas, cara? 

— Você é quem está concluindo isso, nem mencionei “ilhas”. Tudo bem?

— Ouvi seus homens na ponte conversando. Iriam chacinar todos, nas ilhas. Levante-se! — Jogando a mesa para o lado, avancei e agarrei o almofadinha pela gola. Arrastei-o — Sabe de onde vim, para chegar até essa nojeira de Quartel-General? Da ilha situada a dez quilômetros. Vamos até a ponte pênsil, quero lhe apresentar um lugar turístico.

Arrastei o líder. Ele se debateu, fincou os pés no chão e eu o espanquei, com as mãos. Ele choramingou, mas foi uma tentativa vã de atingir meu lado emocional. Segurei-o pela nuca, apertei-a, ele ficou sem ação. 

— Agora, senhor, você vem comportado ou eu esmago seu pescoço e deixo-o na estrada de terra.

Ele caminhou comigo até a primeira luminária da rodovia. 

— Suba!

—  O quê?

Falei, sem rodeios:

— Quer que eu empurre seu traseiro ou você vai escalar a grade e dar um mergulho? Hã? — Ele parecia ignorar a realidade. Por isso, agarrei-o pelo cinto e o joguei para cima do “guard-rail”. Ele gritou:

— Não! — Nem por isso me comovi. Subi até ficar ao lado dele. — Pule. Agora!

Ele começou a chorar. Pediu pela mãe dele que o deixasse ir. Pediu pelo seu pai que o poupasse, tinha família, também...

— Eu não tenho família, calhorda — e arranquei suas mãos da grade do “guard-rail”, empurrando-o. Seu corpo miúdo caiu sobre uma fogueira, começando a queimar. Voltei para a autoestrada, sem dar chance para que me vissem, do solo.

Voltei para casa, na minha ilha. Foi uma boa coisa que fiz, acabando com a invasão. Creio que continuarei dando minhas voltas na madrugada. Fazem bem à saúde e me deixam em forma.

Até encontrar um inimigo que possa competir comigo numa luta justa.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

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