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sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Impressões sobre Desaboios

 


Livro de Pedro Américo de Farias. Guaratinguetá (SP): Editora Penalux, 2020.

Rejane Gonçalves 

Cá estou eu, envolvida com meu pensar, depois de mais uma das tantas leituras que fiz do seu livro Desaboios. O prazer do aprendizado, da captura das palavras em suas vestes e nudez me acompanhou em todas elas. Isso, no entanto, não impediu o surgimento de lutas e desassossegos entre visão e audição, sentidos meus, que independentes de mim, alheios ao meu comando e bom senso, se engalfinharam em busca de uma sonhada primazia. Ver, ouvir – precisava desses verbos em toda a sua plenitude para desaguar na mente sensações cristalinas. Pois não é que o caso se deu que as tais palavras mal acabavam de ser vistas, enxergadas, claramente percebidas, invadiam-me os ouvidos uns sons, uns ritmos, tanta música, não só naquilo que carrega em si (tem disso tudo) cada palavra, mas num compasso estereofônico, desmesurado. Ou bem eu via, ou bem eu ouvia. Tapei os ouvidos, não com cera porque desdenho da covardia de Ulisses, sosseguei-os, a bem dizer, enquanto dos olhos tirava todas as tramelas, arregalando-os feito duas grandes janelas; dos ouvidos abri as comportas, destampei

os entraves e esperei, em guarda, o alvoroço. Houve, de parte a parte, algum tíbio resmungo, que devido aos ajustes das percepções e ao respeito devotado a cada um desses meus sentidos briguentos, logo cessou e passaram os dois a me servir na justa medida, como se nunca houvesse a inveja provocado tais desentendimentos. Deu-se então que eu pude ver/ouvir/perceber tudo o que compunha a maravilha das palavras/cantigas. Observei (delas) o feitio, o movimento, a quietude, o grito, o sussurro, o comprimido lamento, também o esticar, o encolher da linha para tecer o fio, a cadência da zoada: maraca, maracá, maracajá – ave palavra voa e vai à toa/ toada que vai e vem numa boa. Até proust me apareceu ao pé da escada, perdido, todo envolto em pensamentos compulsivos, por não atinar no porquê de não se repetir nunca a ocupação do lugar pelas seis palavras que terminam, cada uma, de cada vez, os trinta e seis versos do poema Solidão. Seu proust se afobe não, toda peleja é dolorosa, conquanto deliciosa se dá resultado bom, prazeroso, macio mas não meloso. Não quis, pois, buscar atalhos, nem tampouco me apressar, valendo-me de célere condução, caminho se faz a pé; quase fiz como Cervantes: Caro colega me ajude/ eu não consigo escrever. Muito desaforo seria. Cervantes é homem, eu sou mulher, mesmo no tão difícil, não é do meu feitio desistir; e fui, pulando que nem caçote, entrevi em cada pulo o segredo das veredas, o palpitar dos abismos, como fazer para unir olho e ouvido, mente e espírito; no propósito firme de acertar, abri portas e janelas, acendi luzes, tochas e velas, quem enche a casa de sol/ já não viaja no medo. Pois não é que se deu o caso que eu deitada, apascentada, feito gado minado e mimado por canto doce, lânguido e vicioso, pus-me de pé, invadida por um canto altaneiro, um palavreado robusto e sorrateiro que prolongou-se num aboio, sem ser isso, nem trinado de pássaro era, nem ganido, nem cicio, nem gemido, era antes combinação subversiva de olho, ouvido, mente, corpo e espírito, só lhe cabia o nome de desaboio que abriga o inventivo; daí vi/ ouvi/ percebi do fio entretecido, da teia, mandala tão bem ornada: Cesse tudo o que a musa antiga chora/ que um canto mais gaiato se alevanta.

Olinda 23 de julho de 2021

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Rejane Gonçalves é escritora pernambucana, vive em Olinda. Com formação em Letras, publicou alguns de seus contos em coletâneas. Em 2005, foi premiada no Concurso Osman Lins de Contos, da Prefeitura do Recife. Publicou: Escrevo para dinossauros (2016) e Estreitas amplidões (2019), ambos de contos, editados pela Confraria do Vento e semifinalistas do Prêmio Oceanos.

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