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segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Evelyn Caroline de Mello e o livro Entre a casa e a rua, por Cida Simka e Sérgio Simka


Fale-nos sobre você.

Procurei fugir ao convencional cópia e cola do texto do lattes, pois, na verdade, diz bem pouco sobre a gente: só se vê o percurso acadêmico e isso não é nem a ponta do iceberg! Eu sou uma mulher de 38 anos que, desde muito cedo, descobriu um amor incomum pelas Letras! Sim, assim, com L maiúsculo, pois sempre foram minha ambição maior! 

Aos cinco anos sonhava com o dia em que iria ler sozinha. Apesar de adorar quando meu pai contava estórias, ter a independência de decifrar aqueles códigos era um fato cobiçado por mim. Posteriormente, uma vez conquistada essa etapa, percebi que minha relação com os livros era especial e me salvava do tédio. Prematuramente eu senti tédio por perceber que o mundo não era bem como eu queria e que os livros traziam uma oportunidade de viagem única. 

Alguns anos mais tarde, quando contava com nove anos, uma experiência consequente da leitura do poema “O bicho”, de Manuel Bandeira, foi um marco para mim. Ato contínuo à apreciação do texto que, em primeiro momento não entendi e achei feio, deparei-me com a cena de uma mulher que separava alimentos da lixeira do supermercado. No mesmo momento, lembrei-me do poema e comentei com minha mãe: “Eu só compreendi essa cena e a tristeza que ela provoca porque a li antes na escola. Quando eu crescer, quero escrever textos assim, para que as pessoas também possam enxergar.”

Não foi difícil entender os caminhos que eu deveria trilhar, por isso a escolha de cursar Letras na UFSCar.

Todo o trabalho, consequentemente, foi ganhando fôlego, posto que meu amor pela Literatura se somou a meu interesse declarado por política e, ser mulher, em um país como o Brasil, em si, já é um ato político marcado ao nascer. Fiz uma viagem ao passado para sondar um período nebuloso da História do Brasil: quando nossa Democracia, tão jovem, mal saída do período Vargas, sofreu novo golpe – a Ditadura Militar de 1964.  

Essa sondagem resultou no que sou hoje: uma escritora feminista, extremamente consciente de seu papel de cidadã e que encontra na profissão de professora/pesquisadora, já que hoje estou na reta final de meu Pós-doc, igualmente na UFSCar (a boa filha a casa retorna, depois de Mestrado e Doutorado cumpridos na UNESP – Araraquara), um meio de fazer com que as milhares de vozes, caladas por um regime brutal, possam valer a pena e nos ensinar, através do amargo por elas provado, que o discurso pseudopatriótico pode encobrir grandes crimes. 

ENTREVISTA:

Fale-nos sobre o seu livro.

O meu livro “Entre a casa e a rua: ecos de resistência à Ditadura Militar nos romances “O pardal é um pássaro azul” de Heloneida Studart e “Tropical sol da liberdade” de Ana Maria Machado” é resultado de minha tese de Doutorado, defendida em maio de 2018, na UNESP – Araraquara. Esses estudos tiveram origem, ainda em 2005, sob orientação da professora doutora Tânia Pellegrini, em minha iniciação científica sob o título “O romance feminino e a ditadura militar”, quando analisei as obras de Lygia Fagundes Telles, “As meninas”, e de Nélida Piñon, “A doce canção de Caetana”. Já de início, assumia que os romances produzidos no período militar ou que o retomavam nos primeiros momentos de democracia, traziam em sua tessitura importantes marcas históricas referentes aos anos de repressão, bem como contestavam os papéis e tabus referentes à mulher, elucidando a desigualdade de gênero como parte da constituição social brasileira, transposta para a ficção por meio da manipulação das personagens e caracterização do espaço narrativo desde a casa/família, até ganhar as ruas.

Segui refinando a pesquisa em meu mestrado, orientado pelo professor Wilton Marques e, no doutorado, acompanhada das professoras Maria Clara Bonneti Paro e de minha querida amiga, responsável pelos estudos de gênero na UNESP – Araraquara, Lola Aybar, pude, finalmente, traçar os caminhos que agora estão neste livro, o qual tive o orgulho de publicar e, uma vez mais, debater e resgatar um passado de opressão, não tão distante, mas que tem sido escamoteado de forma cafajeste, sem qualquer pudor. Pudera, se fosse tão bom como dizem, seria proclamado com orgulho, não encoberto por mentiras e inverdades históricas. 

Em minha pesquisa, é nítido o quanto a Literatura tem o dom de trazer discursos à tona, reavivando vozes que se viram caladas e impotentes diante da violência. Nos livros por mim analisados, quem media e orienta a história são mulheres comuns, feridas pela ditadura brutal ao perder namorados e filhos, assassinados e torturados em nome de uma construção falsária de pátria, um pseudopatriotismo, bem semelhante, aliás, com essa fajutagem que o governo vigente segue insistindo em alardear. Diante da incompetência mais que constatada, se refugiam em passado inventado. 

Nesse sentido, penso que meu livro lança luz ao passado, mas também convida a um exercício muito prolífico de análise crítica com relação ao nosso presente. 

Conte-nos como foi o lançamento do livro em Portugal.

Ter lançado o livro em Lisboa, ocasião em que estive debatendo e denunciando a situação surreal do intelectual brasileiro, frente aos cortes de verba em pesquisas e boicote deliberado por parte do governo. Estar na Universidade Católica de Lisboa para este fim foi uma oportunidade única, apesar de já estar sob os aspectos da pandemia. Quando cheguei a Lisboa, a situação relativa à Covid já estava em franco processo de agravamento e as mortes em Madri se multiplicavam assustadoramente, enquanto, aqui, o presidente insistia em minimizar o fato e, irresponsavelmente, ludibriar a população. 

Mesmo diante de tão difícil cenário, consegui divulgar meu trabalho e tive excelentes resultados. Minha única tristeza foi que, uma vez no Brasil, não tive a oportunidade de lançá-lo aqui, justamente num momento político em que ele se faz urgente. Por isso, agradeço muito o espaço e o poder divulgá-lo, pois tenho consciência da importância dos estudos ali constantes. São quatorze anos de muita dedicação transpostos para aquelas páginas. São minha prova de confiança de que a educação e a cultura são armas invencíveis para a construção de um país mais humano. Eu acredito na caneta e nas letras vencendo o canhão. É uma luta que se faz a cada dia, em passos pequenos. Mas ela existe. E resiste. Seguimos. 

O que tem lido ultimamente?

Tenho lido mais o que preciso do que o que quero, graças a um ritmo maluco de trabalho. Mas, quando tenho um tempinho, claro que escapo. Ultimamente estou lendo o livro “O idiota” de Fiódor Dostoiéviski, também concluí a leitura do livro de Marcos Gigante, um escritor que está a estrear e muito talentoso, “Ciência e pesquisa”, uma obra interessante e corajosa sobre os percursos do pensamento científico, além de apresentar importantes orientações sobre metodologia para aqueles que se aventuram na área da pesquisa. 

Quais os seus próximos projetos?

Eu quero me dedicar mais à ficção, que também é minha praia. Estou trabalhando em um novo livro com contos de terror, partindo de situações que dialogam com personagens femininas e uma condição sufocante diante de uma sociedade brutal e machista. Trabalho, portanto, uma tensão entre o insólito que nasce de um real cruel e violento. Também estou me debruçando sobre escritos referentes ao Mestrado e à Iniciação Científica, pois se tornaram obsoletos e quero revê-los para publicá-los. Termino meu pós-doc em março e já começo a pensar em navegar outros mares. Talvez atravesse o oceano. Veremos.  

Link para o livro:

https://www.pacolivros.com.br/entre-a-casa-e-a-rua-ecos-de-resistencia-a-ditadura-militar-nos-romances-o-pardal-e-um-passaro-azul-de-heloneida-studart-e-tropical-sol-da-liberdade-de-ana-maria-machado

CIDA SIMKA

É licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Autora, dentre outros, dos livros O enigma da velha casa (Editora Uirapuru, 2016), Prática de escrita: atividades para pensar e escrever (Wak Editora, 2019) e O enigma da biblioteca (Editora Verlidelas, 2020). Organizadora dos livros: Uma noite no castelo (Editora Selo Jovem, 2019), Contos para um mundo melhor (Editora Xeque-Matte, 2019), Aquela casa (Editora Verlidelas, 2020) e Um fantasma ronda o campus (Editora Verlidelas, 2020). Colunista da Revista Conexão Literatura.

SÉRGIO SIMKA

É professor universitário desde 1999. Autor de mais de seis dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a série Mistério, publicada pela Editora Uirapuru. Membro do Conselho Editorial da Editora Pumpkin e colunista da Revista Conexão Literatura. Seu mais novo livro se intitula Pedagogia do encantamento: por um ensino eficaz de escrita (Editora Mercado de Letras, 2020).

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